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Contra a epidemia de bandidagem política, use vaia. Não falha nunca

Em 13 de maio de 1959, quando foi anunciada a escalação do Brasil para o jogo contra a Inglaterra no Maracanã, 100 mil torcedores vaiaram a presença de Julinho no lugar de Garrincha. Titular da Seleção na Copa de 1954, campeão italiano pela Fiorentina, o craque do Palmeiras vestia a camisa 7 por decisão do técnico. Mas arquibancadas e gerais precisavam descarregar a […]

Em 13 de maio de 1959, quando foi anunciada a escalação do Brasil para o jogo contra a Inglaterra no Maracanã, 100 mil torcedores vaiaram a presença de Julinho no lugar de Garrincha. Titular da Seleção na Copa de 1954, campeão italiano pela Fiorentina, o craque do Palmeiras vestia a camisa 7 por decisão do técnico. Mas arquibancadas e gerais precisavam descarregar a frustração causada pela ausência do maior driblador de todos os tempos. Sobrou para Julinho.

Cabeça boa, homem de caráter, Júlio Botelho engoliu sem engasgos a manifestação hostil. No segundo minuto de jogo, livrou-se da selva de zagueiros e fez um golaço. No 15°, esculpiu com dribles e galopes de puro-sangue o lance do gol que consolidou a vitória por 2 a 0. Jogou como um deus. Encerrada a partida, retribuiu com um sorriso tímido a ovação endereçada ao melhor em campo. Não se sentiu vingado. Sentiu-se feliz.

Quase 50 anos depois, quando o locutor do Maracanã anunciou a chegada do presidente da República, 70 mil gargantas vaiaram a presença de Lula na festa de abertura do Pan-2007. A multidão precisava descarregar a indignação provocada pelo colapso da aviação civil, pelo deboche dos quadrilheiros federais, pelo cinismo dos pecadores governistas, pela institucionalização da impunidade, pela inépcia dos pais da pátria, pela erosão dos alicerces físicos e morais sem os quais não se pode sonhar com um Brasil moderno.  Sobrou para Lula.

Com a grandeza dos humildes, Julinho não se queixou da vaia nem saiu à caça de culpados: o povo apenas queria ver Garrincha jogar, ponderou. Com a pequenez dos que sempre se absolvem liminarmente, Lula decidiu no primeiro apupo que aquilo era coisa dos descontentes profissionais a serviço da elite golpista. “Os que estão vaiando são os que mais deveriam estar aplaudindo, porque são os que mais ganharam dinheiro no meu governo”, continuou ressentido dois dias depois.  “A parte pobre da população é que deveria estar zangada. É só ver o quanto ganharam os banqueiros, os empresários”.

Lula acertou ao admitir que os ricos nunca lucraram tanto quanto no governo eleito pelos dependentes do Bolsa Família. Errou ao imaginá-los saindo furtivamente de seus palacetes para aborrecer o benfeitor no Maracanã. “Essa gente levou Getúlio ao suicídio”, continuou viajando Lula.  “Essa gente fez a Marcha com Deus pela Liberdade, que resultou no golpe militar”. A fantasia ficou em frangalhos depois de confrontada com as imagens dos supostos conspiradores. Aquela gente não havia nascido quando Getúlio se matou. Aquela gente nem engatinhava quando adultos, em 1964, marcharam com Deus pela liberdade. Aquela gente só podia ser acusada de usar o protesto sonoro para fazer um presidente da República perder o siso e a soberba.

O som que funde a fúria, o cansaço, o sarcasmo e a chacota não tem contra-indicação e age sobre distintas abjeções. Sobressalta o presunçoso, silencia o falastrão, inibe o debochado, constrange o arrogante, desfaz o sorriso do canalha. Nada como a propagação da vaia para combater epidemias de bandidagem política semelhantes à que devasta o Brasil neste começo de século. Já via a cena mais de uma vez. Cínicos  juramentados ficam com cara de pugilista na hora do nocaute. Confiram. Nunca falha.

Brasília não é lugar para vaias. Oscar Niemeyer, bom escultor de monumentos inabitáveis, e Lúcio Costa, multiplicador de espaços que reduzem qualquer multidão a fracasso de público, conseguiram fazer uma cidade sem esquinas, e só existe muita gente onde existe esquina. Mas os sócios do cada vez mais populoso clube dos cafajestes só acampam no grande bunker do Planalto Central três dias por semana. Ficam expostos de sexta-feira a segunda. Que sejam vaiados nos aeroportos, no interior dos aviões, nos restaurantes,  nas ruas, no jardim da própria casa. É doce contemplar a substituição do sorriso superior pela expressão de medo.

É a hora da vaia. Não há nada a perder além da sensação de impotência e da indignação há tanto tempo represada.

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  1. Comentado por:

    Joao Mineiro

    Junto com a vaia não poderia acrescentar um coque na cabeça igual se faz com moleques.

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  2. Comentado por:

    Ana Luisa

    se a arquitetura de uma cidade eh capaz de silenciar um povo, o problema nao eh a cidade, eh o povo.

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  3. Comentado por:

    Valéria Rodrigues

    Augusto, como sempre um ótimo texto. Mas falta muita coisa para que isso funcione. Me lembro muito bem de um dia, no auge do mensalão, em que cruzei com o deputado João Paulo Cunha no Aeroporto de Congonhas. Ele de um lado da calçada indo em direção ao estacionamento, e eu na direção contrária. Ambos parados, aguardando o farol abrir para podermos atravessar. Ele viu que eu o olhava fixamente e resolveu me encarar. Talvez esperasse um aperto de mão, um cumprimento. Ou talvez já tivesse percebido minha hostilidade e tenha se enchido de brios. Quando o farol abriu, atravessamos e, conforme caminhávamos, eu ia “gritando” para ele, só mexendo os lábios, todos os adjetivos que me vieram à cabeça (a maioria impublicáveis, claro) e que traduziam o que eu pensava dele e de seus coleguinhas. Aos poucos a coragem do deputado foi sumindo e ele foi abaixando a cabeça, talvez até agradecendo o fato de que eu apenas mexia os lábios e não gritava no meio da rua. Fui a única a fazer isso no meio da multidão. Mas fiz com que ele abaixasse a petulante cabeça ao passar por mim. Talvez eles até tenham vergonha e um pouco de medo de quem os encare, mas o brasileiro em geral não tem e continua votando nesses vigaristas. Eles voltam com mais certeza ainda de que podem fazer o que bem entenderem, com o aval do eleitor ignorante.

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  4. Comentado por:

    Áurea Bevilacqua

    Já aderi às vaias. Vaia é ótimo. Muitas vezes vale mais do que mil palavras.

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  5. Comentado por:

    Fábio

    A ideia é boa, Augusto. Pena que somos dados a uma empulhação, para fingir maturidade. Com o Congresso afundando em lama, um grupo de pessoas foi à porta do Supremo pedir a saída de Gilmar Mendes. Baseados em quê? Por que motivo? Ele cometeu alguma ilegalidade. Gritávamos “fora Bush” enquanto os amigos de infância do nosso “lider supremo”, sem o conhecimento dele, claro, aprontavam com cartões corporativos, mensalões e outras peripécias. O Brasil que pensa parece cada vez mais insignificante diante da turba de áulicos.

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  6. Comentado por:

    Valentina de Botas

    Que grande post, querido Augusto. Conheço quase nada da crônica do futebol anterior a 1977, quando comecei a me interessar pelo esporte, e adorei esta história do Julinho, menino leve de coração. Dizem que é nos momentos mais difíceis que se revelam os amigos verdadeiros, com quem se pode contar, quem realmente tem caráter e tal. Não sei, mas acho que as pessoas são o que são em qualquer circunstância, basta dar tempo ao tempo, o senhor de tudo: Julinho foi superior na dificuldade e no triunfo porque é digno, Lula é essa miséria na derrota e na vitória porque isso é tudo o que ele é. Circunstâncias revelam mais do que formam, creio. Julinho com pouca idade já alcançava aquela sabedoria sóbria do homem vivido; enquanto o avanço da idade em Lula só o embrutece em tudo, mais e mais. Francamente, se a conduta do ex-presidente não fosse tão nefasta para o país, eu poderia sentir pena do caudilho porque acho que ele não tem ninguém que o ame de verdade – coisa tão triste -, não para mudá-lo, pois mudança é inspiração, além disso, pretender mudar alguém é muita pretensão, mas que fale a ele sobre limites. O contraste que você faz entre vingança e felicidade é perfeito, Augusto. Sob o peso da busca de vingança, a leve e arisca felicidade se distancia. Lula transformou os triunfos dele em vingança, abolindo as chances espetaculares que teve de ser feliz. Num país dramaticamente injusto, quão pesado precisa um homem ter o coração para, vindo de origem tão pobre, não se deixar levar pela leveza da felicidade de ter chegado aonde Lula chegou? FHC, cuja chegada à presidência foi mais “natural”, é infinitamente mais grato – e feliz – do que o homem pobre que precisou duelar com a lógica de um destino outro. Ponderação na derrota, noção de limite das próprias capacidades, humildade na vitória, gratidão com a vida que lhe ofereceu tudo isso fariam Lula experimentar aquilo de que Julinho soube se aproximar sem espantos: a felicidade dos leves de coração. Mas no peito do caudilho, pesa um coração vingativo. Que fique com as vaias. Os aplausos, todos, vão para Julinho, a multidão do Maracanã no Pan e este texto grandioso. Um beijo
    Um beijo, Valentina.

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