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Como se jogar na balada

Trecho do texto publicado na Revista Piauí em abril de 2007. Daniela Pinheiro Quem ainda fala que vai causar na noite está tão semana passada que na certa ainda escuta Caetano Veloso. A expressão do momento é se jogar na balada. Se ela, a balada, é boa, qualifique-a de bombada. Se é ruim, diga micada. […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 14h53 - Publicado em 6 jul 2010, 19h44

Trecho do texto publicado na Revista Piauí em abril de 2007.

Daniela Pinheiro

Quem ainda fala que vai causar na noite está tão semana passada que na certa ainda escuta Caetano Veloso. A expressão do momento é se jogar na balada. Se ela, a balada, é boa, qualifique-a de bombada. Se é ruim, diga micada. Ela fica bombada quando está lotada de jet setters. E promete quando o chill in é feito num restaurante fusion. Se quer se animar, indague: do you smell like Chanel? Mas o que garante mesmo a bombada da balada é quando se cata alguém masterplus. Entendeu, minha santa? Então vamos nos jogar na balada de São Paulo e conhecer gente rica, jovem, animada e de vocabulário caviloso, os vips. Vamos dançar por horas, beber além da conta, provar a droga do momento, ouvir música alta e repetitiva, torrar o dinheiro de papai, dormir sem hora para acordar e, se der sorte, sair de lá com o telefone de alguém descolado.

À meia-noite e meia de uma sexta-feira recente, uma área baldia da Vila Leopoldina estava apinhada de carros importados. Havia sete Audi, três Porsche, cinco BMW, dois Jaguar, dezenas de Toyota e de utilitários importados. Todos pretos e recém-lavados. Umas 200 pessoas se acotovelavam ao longo de duas grades e esperavam, em vão, para entrar na boate Pacha (pronuncia-se Pachá), uma das mais concorridas da noite paulistana. As grades, de 1 metro de altura, formavam um corredor polonês. Com as mãos estendidas, e aos gritos, as pessoinhas tentavam, novamente em vão, chamar a atenção de uma recepcionista, que usava uma maquiagem dramática, e de seguranças de terno preto com mais de 1 metro e 90 de altura. Elas não queriam entrar de graça. Estavam dispostas a gastar, em média, 300 reais pela noitada. Tinham tomado banho e estavam bem vestidas. Mas, mal-intencionadas, queriam apenas entrar pela porta da frente da boate. Ocorre que esse privilégio está restrito aos vips. E ser vip, nos códigos sociais da balada, faz toda diferença.

Vip, como se sabe desde que balada era um tipo de canção dos Beatles, quer dizer very important people. A expressão designava pessoas muito importantes. Um rapaz paulista chamado André Athiê não tem importância na Lapa, em São Paulo, no Brasil, na Terra e na ordem geral do universo. Mas como, desde que a Pacha foi aberta, há cinco meses, ele esteve cerca de cinqüenta noites na casa, ele pertence a uma categoria especial. Athiê comemorava seu aniversário de 20 anos naquela sexta-feira. Por 4 mil reais, ele comprou dois camarotes, e ganhou outro de graça por ser um habitué. Seus 40 convidados não deveriam pegar filas nem pagar nada. Mas a malta dos anônimos gritões lhes atrapalhava o acesso.

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André Athiê é magro, tem nariz fino e um topetinho jeitoso mantido com quilos de gel. Ele tem gestos pontiagudos e fuma o tempo todo. Usava uma camiseta azul escura justa, com um zíper que não chegava à altura do umbigo, calça jeans e tênis de mais de mil reais. À 1 e meia da manhã, ele desceu pela quarta vez do camarote, passou em revista a guarda pretoriana de seguranças e foi para a porta buscar seus amigos. Com um copo de vodca na mão direita, o cigarro na outra, dirigiu-se imperiosamente ao chefe da porta, José Roberto dos Santos, um negro de 1,95 metro de altura, 45 anos, dez de noite, impecável num terno escuro com gravata vermelha, que mascava chiclete o tempo todo.

– Zé, meu, os caras estão aí há horas, pô! Deixa aquela ali de listrado passar, comandou o garoto.

Ao que Zé, localizando a listrada no meio do sururu, fez um sinal para um lugar-tenente, que a resgatou da cambada.

– Tá vindo, Andrézinho, tá vindo, disse o armário ao vip, que se acalmou.

A Pacha faz parte de uma franquia espalhada por 23 países. Comporta 3 mil pessoas em 10 mil metros quadrados, um espaço pouco maior do que o gramado do Maracanã. Um outro salão será inaugurado, em setembro, com capacidade para mais 5 mil pessoas. Nela, há dois tipos distintos de público, que, como ecstasy e cocaína, não se misturam. A galera, que paga ingresso direitinho (40 reais mulher e 80 homem), entra pelos fundos e o direito de circular se restringe ao térreo. São estudantes, secretárias, gerentes, advogadas, estagiários, aspones, psicólogas, administradores, redatores de publicidade, divulgadores, aspirantes a estilista. É uma galera disciplinada, que faz filas nos banheiros, no balcão das bebidas e se mantém em pé pela escassez de lugares para sentar.

E há os vips. Eles fazem parte do mailing list (expressão que quer dizer muito para quem freqüenta a noite) dos promoters: são dândis, modelos, filhos de milionários, cocotes, desocupados, grã-finos e celebridades. Nunca se viu um vip sozinho. Como os turistas japoneses, os vips sempre andam em bando. Geralmente é um ricão, ao qual se agrega uma corriola.

Clique aqui para ler o texto na íntegra.

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