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Com o loteamento dos ministérios, a aliança governista criou o mensalão que substitui doações em dinheiro pela entrega do cofre

PUBLICADO EM 11 DE AGOSTO DE 2011 Até os mendigos e os travestis que fazem ponto nas esquinas do Flamengo imaginaram que a pauta da reunião do diretório nacional do PT, realizada neste 5 de agosto no Hotel Novo Mundo, no Rio de Janeiro, seria quase inteiramente absorvida pelo tsunami de bandalheiras que varre a […]

Por Augusto Nunes - Atualizado em 31 jul 2020, 11h08 - Publicado em 11 ago 2011, 10h07

PUBLICADO EM 11 DE AGOSTO DE 2011

Até os mendigos e os travestis que fazem ponto nas esquinas do Flamengo imaginaram que a pauta da reunião do diretório nacional do PT, realizada neste 5 de agosto no Hotel Novo Mundo, no Rio de Janeiro, seria quase inteiramente absorvida pelo tsunami de bandalheiras que varre a Esplanada dos Ministérios. O que acharam os Altos Companheiros, por exemplo, do despejo da quadrilha do PR em ação no mundo dos transportes? O que pensam das bandidagens no Ministério da Agricultura, arrendado ao PMDB? A faxina prometida pela presidente Dilma Rousseff deve ser ampla e irrestrita ou é melhor parar enquanto é tempo? Enfim, o que o partido tem a dizer sobre a corrupção endêmica que Lula plantou e Dilma adubou?

Nada, informam as 201 linhas do documento que relata o que foi tratado e decidido no conclave dos cardeais que caíram na vida. Sob o título geral “O Brasil frente à crise atual do capitalismo: novos desafios”, o papelório debita todos os pecados na conta do “ideário neoliberal”, cujos defensores são “setores da oposição, da mídia e do grande capital, especialmente o financeiro”. Num dos capítulos mais candentes, “o PT expressa sua solidariedade aos jovens, aos trabalhadores, aos migrantes e a todos os setores que combatem o neoliberalismo e repudia o nacionalismo de extrema direita, que mostrou sua verdadeira face no atentado ocorrido recentemente na Noruega”.

Resolvidos os problemas do planeta, a seita festeja a inauguração do Brasil Maravilha pelo chefe Lula e registra os retoques que faltam para torná-lo mais que perfeito. “Vem aí o debate sobre o novo marco regulatório dos meios de comunicação”, avisa o parágrafo que louva o “controle social da mídia”, como foi rebatizada a censura na novilíngua companheira. “Para o PT e para os movimentos sociais, a democratização dos meios de comunicação no país é tema relevante”. Num editorial publicado nesta quarta-feira, o Estadão foi à réplica: “O PT precisa é de um marco regulatório para a corrupção no partido”. No documento, a roubalheira colossal foi confinada em duas linhas: “O Diretório Nacional manifesta seu apoio às medidas que o governo Dilma ─ dando continuidade ao governo Lula ─ adota contra a corrupção”. Só.

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Se cinismo desse cadeia, o Hotel Novo Mundo teria sido prontamente cercado por camburões e interditado pela polícia. Como a mentira foi transformada por Lula em virtude eleitoreira, o presidente do partido, Rui Falcão, prolongou o espetáculo do farisaísmo com uma apresentação individual. “O PT sempre foi muito cioso da defesa da aplicação correta dos recursos públicos e do combate à corrupção”, recitou o dirigente que promoveu a volta ao lar de Delúbio Soares. Falcão deu azar. No mesmo dia, VEJA divulgou os espantos mais recentes nas catacumbas do Ministério da Agricultura, entre os quais apareceu até mesmo um lobista que já foi preso por tráfico de drogas e agora se dedica a agredir fisicamente jornalistas independentes.

Nesta terça-feira, constatou-se que o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, esqueceu de comunicar a instituições subordinadas à pasta que faxina tem hora. Liberada para engaiolar delinquentes, a Polícia Federal prendeu 35 dos 38 gatunos em ação no Ministério do Turismo. A presença de petistas graúdos no bando que viajou na traseira do camburão ajuda a entender por que o documento do diretório nacional fugiu da ética como o diabo da cruz: é impossível ser, ao mesmo tempo, decente e desonesto. A “base aliada” não se ampara num programa político, mas num projeto financeiro: todos querem ficar mais ricos. É por isso que, como reafirmou a devassa no ministério controlado pelo PT e por José Sarney, o mensalão nunca deixou de existir.

O que mudou foi a metodologia. Até meados de 2005, o Planalto e o PT centralizavam a arrecadação e o repasse dos milhões de reais que garantiam o entusiasmo dos companheiros e a lealdade dos parceiros. Agora, já não é preciso forjar empréstimos bancários ou extorquir estatais, nem irrigar contas bancárias ou entregar malas de dólares. Em vez de doações em dinheiro, os partidos da aliança governista ganham ministérios ─ cofres e verbas incluídos ─, além da licença para roubar. O loteamento do primeiro escalão é o  mensalão sem intermediários. Em 2002, por exemplo, o PL de Valdemar Costa Neto embolsou R$6 milhões para descobrir que Lula era o cara. Em 2010, para enxergar em Dilma Rousseff a sucessora dos sonhos do PL com novo nome ,  o PR de Valdemar Costa Neto ganhou o Ministério dos Transportes.

Além de mais lucrativa, a fórmula modernizada aumenta exponencialmente o lucro, amplia a capilaridade das quadrilhas e democratiza a ladroagem. Antes, a repartição das boladas se limitava ao alto comando dos partidos. Agora, até prefeitos e vereadores entram na divisão do produto do roubo. A soma das evidências explica a tibieza exibida por Dilma desde que a vassoura tropeçou no lixo do PMDB. A presidente descobriu que herdou um legado que ajudou a construir. Mas também descobriu que a opinião pública existe. É bem menor que o eleitorado, mas o poder de pressão é maior. Não se contenta com uma bolsa família, não acredita em fantasias e está cansada de sustentar larápios.

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A imprensa livre seguirá noticiando fatos e enxergando as coisas como as coisas são. A Polícia Federal e o Ministério Público não podem recuar. Dilma terá de decidir se a faxina para ou continua. Na primeira hipótese, a presidente topará com o monstro que ajudou a parir. Na segunda, o governo, o PT e seus comparsas estarão proibidos para sempre de falar em combate à corrupção. Mesmo que em duas míseras linhas.

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