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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Celso Arnaldo e o palavrório de Irecê: Dilma decidiu que todas as brasileiras são mães

Se cada palavrório cretino fosse punido com 10 chibatadas, Lula e Dilma Rousseff  atravessariam aos urros os intervalos entre uma e outra discurseira. Lula, por exemplo, acha que só sua mãe nasceu analfabeta.  E acredita que, como a Terra é redonda e gira, o Brasil fica às vezes em cima e às vezes embaixo do […]

Por Augusto Nunes - Atualizado em 31 jul 2020, 12h38 - Publicado em 4 mar 2011, 20h03

Se cada palavrório cretino fosse punido com 10 chibatadas, Lula e Dilma Rousseff  atravessariam aos urros os intervalos entre uma e outra discurseira. Lula, por exemplo, acha que só sua mãe nasceu analfabeta.  E acredita que, como a Terra é redonda e gira, o Brasil fica às vezes em cima e às vezes embaixo do Japão. Dilma, entre outros hinos ao absurdo, enfiou na cabeça que as mulheres brasileiras, que somam 52% da população brasileira, são mães dos 48% restantes.

Como se baseia no último censo do IBGE, que só conta gente que não morreu, Dilma transformou o Brasil num enigma indecifrável. Aqui, todas as mulheres são mães, incluídas as recém-nascidas, as estéreis e as carmelitas descalças. Todos os filhos são homens. Todos os homens têm mães vivas, incluídos os maiores de 90 anos, e são órfãos de pai, incluídos os bebês de colo. Falta apenas resolver um pequeno problema aritmético: mesmo que todas as mães sejam viúvas e tenham um filho único, uma diferença de quatro pontos percentuais separa 52 de 48. É muita mãe para pouco filho.

Alheia a tais miudezas, Dilma reapresentou em Irecê, pela terceira vez, a tese amalucada, como comprova o vídeo que ilustra o texto do jornalista Celso Arnaldo Araújo. Foi só o começo da sequência de espantos capturados pelo nosso grande caçador de cretinices. A performance no interior da Bahia é, como sempre, tão divertida quanto assustadora. Só um país sem juízo pode eleger uma presidente assim. (AN)

É NO PRÓLOGO QUE A COISA PEGA
Celso Arnaldo Araújo

Na história da oratória política, há antológicos começos de discursos presidenciais:

“Há oito décadas e sete anos, os nossos pais deram origem neste continente a uma nova Nação, concebida na Liberdade e consagrada ao princípio de que todos os homens nascem iguais”. (Abraham Lincoln, no célebre discurso de Gettysburg)

“Muitos são os caminhos para a conquista do Poder. Viciosos, porém, se me afiguram todos aqueles que se apartam do voto do povo, deitado nas urnas soberanas”. (Discurso de posse de Jânio)

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“Venho somar minha esperança à esperança de todos neste dia de congraçamento. Permitam que, antes do Presidente, fale aqui o cidadão que fez da esperança uma obsessão, como tantos brasileiros. Pertenço a uma geração que cresceu embalada pelo sonho de um Brasil que fosse ao mesmo tempo democrático, desenvolvido, livre e justo”. (Discurso de posse de Fernando Henrique Cardoso)

“Não é possível traduzir em palavras o que sinto e o que penso nesta hora, a mais importante de minha vida de homem público. A magnitude desta solenidade há de contrastar por certo com o tom simples de que se reveste a minha oração” (Juscelino, na inauguração de Brasília)

“Esses republicanos, não satisfeitos em atacar a mim, minha esposa ou meus filhos, agora incluem meu pequeno cão Fala em seus ataques. Eu não me incomodo com esses ataques, minha família não se incomoda com esses ataques. Mas Fala se incomoda” (Franklin Roosevelt, no famoso Discurso de Fala, sua cadelinha Scottish Terrier)

“Primeiro eu queria desejá boa tarde a todos. Boa tarde. Todos nós estamos aqui até agora, né, sem almoçá, mas tamo aqui firmes. Eu queria também dá um boa tarde especial às mulheres baianas aqui presentes. Com isso eu não estou preterindo os nossos companheiros homens, mas é porque hoje é o primeiro dia do mês da mulher, o mês em que se comemora o dia 8 de março, o Dia Internacional da Mulher. E aí também porque, apesar de nós sermos 52% da população, e portanto as mulheres serem maioria, os outros 48% são nossos filhos e aí fica tudo em casa. Então, ao comprimentar as mulheres eu estendo também um comprimento a todos os companheiros aqui presentes” (Dilma Rousseff, no discurso de Irecê, Bahia, depois de assinar o reajuste do Bolsa Família, 01/03/2011)

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Quem assistiu a “O Discurso do Rei” notou que a grande agonia de George VI, o rei disfêmico da Inglaterra, era o preâmbulo da fala, o prefácio, as primeiras palavras. Dilma tem enormes dificuldades com o resto também, mas é no prólogo de seus discursos que a coisa realmente pega. Uma saudação que deveria ser simples e natural, para beneficiários do Bolsa Família, transforma-se num pastiche do pastiche. Aquele célebre “Primeiro eu queria comprimentar os internautas. Oi internautas” aqui virou “Primeiro eu queria desejá boa tarde a todos. Boa tarde”.

Dilma, obcecada com esse negócio de ser a primeira “presidenta”, cismou de fazer gênero com a mulherada – mas de um modo sempre desastroso. Dar “um boa tarde especial às mulheres baianas aqui presentes”, como se fosse possível dá-lo às dinamarquesas ou não devesse incluir as não-baianas ali presentes, só não é mais ridículo que o complemento: desde quando dar boa tarde às mulheres, no “mês da mulher”, é preterir “os companheiros homens”? Fazer média com gênero é sempre detestável, porque tão demagogo e antinatural quanto o “Queridos brasileiros e queridas brasileiras” do discurso de posse que enlevou a companheirada.

O pior é que, nesses momentos, Dilma tenta ser leve, arrisca uns truquezinhos de comunicador de auditório – mas seu repertório é constrangedor. E inclui, desde a campanha, onde foi repetido dezenas de vezes, esse monstruoso apedeutismo dos 52% de mulheres-mães dos outros 48%, que ela ouviu falar não sabe onde e repete sem noção de lógica e sem contestação. Como em Irecê.

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Todos os homens que fazem parte dos 48% são filhos de mulheres, mas não necessariamente dessas mulheres da cota dos 52% – que naturalmente estão vivas, pelo menos no último censo do IBGE. Minha mãe já morreu — portanto eu, que faço parte dos 48, não sou filho de nenhuma dos 52. Entre os 52, há também as que não têm filhos – por imaturidade, infertilidade, decisão pessoal ou perda. Nenhum dos 48 evidentemente é filho dessas.

Válido o esdrúxulo raciocínio de Dilma, é só inverter a equação: os 52% são nossas filhas, o que, no meu caso, que tenho duas filhas, é um pouco mais verdadeiro que o inverso. Nós homens temos mais filhas que elas, filhos. E estamos todos em casa.

É possível confiar um PIB de 3,675 trilhões de reais, um “Pibão bão”, nas palavras da presidente, a uma pessoa com essa dificuldade de raciocínio?

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