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A volta de Renan prova que o Brasil esquece a cada dois anos o que aconteceu nos dois anos anteriores

O Brasil que esquece a cada 15 anos o que ocorreu nos 15 anos anteriores, como constatou o escritor Ivan Lessa, é coisa do século passado. O país reconstruído pelo presidente Lula tem pressa — e encurtou para dois anos o intervalo entre as lobotomias malandras. No fim de maio de 2007, por exemplo, uma reportagem […]

Por Augusto Nunes - Atualizado em 22 fev 2017, 16h08 - Publicado em 28 maio 2009, 17h40

O Brasil que esquece a cada 15 anos o que ocorreu nos 15 anos anteriores, como constatou o escritor Ivan Lessa, é coisa do século passado. O país reconstruído pelo presidente Lula tem pressa — e encurtou para dois anos o intervalo entre as lobotomias malandras. No fim de maio de 2007, por exemplo, uma reportagem de VEJA escancarou a face horrível de Renan Calheiros, então presidente do Senado. Os homens de bem se estarreceram com o que viram, os colegas não viram nada de novo, Renan deixou o comando da mesa, foi para as coxias e esperou exatamente 24 meses para reaparecer na ribalta, neste fim de maio, no papel de parceiro preferido do presidente Lula.

Por decisão do chefe de governo, cabe ao companheiro Renan, líder da bancada do PMDB e amigo de infância do presidente José Sarney, impedir que a CPI da Petrobras consiga provar que a estatal praticou, permitiu ou patrocinou delinquências bilionárias. As nuvens que se avolumam sobre a empresa são formadas por denúncias, suspeitas, indícios e evidências. Quem melhor para enfrentá-las do que o alagoano que sobreviveu a um tsunami de provas tangíveis e pilantragens visíveis a olho nu? É o homem certo no lugar certo: para assassinar os fatos no nascedouro, foi convocado um serial killer especializado no extermínio de verdades inconvenientes.

Fosse o Brasil um país sério e Renan não conseguiria pronunciar sequer uma vírgula sobre a CPI. Primeiro teria de providenciar respostas verossímeis para questões que seguem pendentes. O que tem a dizer sobre as relações mais que promíscuas envolvendo as empreiteiras Gautama e Mendes Junior?, apartearia um jornalista. E sobre as mesadas de R$ 16,5 mil entregues pelo amigo lobista a Mônica Veloso?,  perguntaria outro. Um terceiro se interessaria pelas notas fiscais fraudadas por Renan na tentativa de explicar o inexplicável. E todos exigiriam em coro que o senador ensinasse o truque da multiplicação de bois imaginários, que transformou um fazendeiro de araque em imperador do gado. Mas o Brasil não é sério.

Como não é, ficou tacitamente estabelecido que os crimes não existiram ou prescreveram ─ e Renan é tratado com o respeito e as reverências que  jamais mereceu. Com incontáveis acertos a fazer com a Justiça dos homens e o Juízo Final, pastoreia a base alugada com a arrogância sem remorsos do pecador vocacional. Craque em extorsões políticas, fixou preços salgados para o serviço que o presidente encomendou. Com exigências públicas e intrigas só murmuradas, vem enquadrando exemplarmente o PT em geral e o senador Aloísio Mercadante em particular. Bem feito para todos.

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Eles se merecem. O Brasil que presta é que não merece essa gente.

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