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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

A viagem que diplomou o primeiro astronauta do Brasil custou 1 milhão de dólares por dia

Marcos Pontes viveu seus 10 dias de fama entre 29 de março e 9 de abril de 2006. Quase ninguém sabia direito o que fazia na estratosfera aquele major da Aeronáutica nascido em Bauru, interior de São Paulo. Nem quais eram exatamente os objetivos da missão, ou o que o país tinha a ganhar com a aventura. Nada disso pareceu relevante no […]

Por Branca Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 16h55 - Publicado em 8 set 2009, 21h27

Lula e Marcos Pontes

Marcos Pontes viveu seus 10 dias de fama entre 29 de março e 9 de abril de 2006. Quase ninguém sabia direito o que fazia na estratosfera aquele major da Aeronáutica nascido em Bauru, interior de São Paulo. Nem quais eram exatamente os objetivos da missão, ou o que o país tinha a ganhar com a aventura. Nada disso pareceu relevante no momento em que Pontes ultrapassou a fronteira do planeta e o mundo foi apresentado ao primeiro astronauta brasileiro.

A epifania patriótica havia começado 9 anos antes, com a entrada do Brasil no consórcio de países envolvidos na montagem e exploração da Estação Espacial Internacional. O governo prometeu investir 100 milhões de dólares na fabricação de seis peças. Em troca, poderia executar experiências na estratosfera e teria direito a uma vaga na tripulação. A Agência Espacial Brasileira não cumpriu o prometido e resolveu que não investiria mais que 10 milhões de dólares. Mas não abriu mão do astronauta.

Faltavam trinta minutos para 30 de março quando Pontes chegou ao espaço agitando uma bandeira brasileira, levando na bagagem uma camisa da Seleção e uma réplica do chapéu panamá de Santos Dumont e, guardados na cabeça e numa pilha de papéis, oito experimentos planejados por cientistas nativos. O mais relevante era a germinação de sementes de feijão em ambiente com gravidade zero.

“Sua viagem ao espaço tem um significado histórico muito importante para o Brasil”, cumprimentou-o o presidente Lula minutos depois da volta ao planeta. “Este também é um sinal para o mundo de que o Brasil caminha a passos largos para exercitar plenamente sua soberania”. Grávido de patriotismo como a maioria da nação, o chefe de governo achou insuficiente taxiar no discurso oficial e decolou no improviso.

“Eu teria vontade de estar no seu lugar”, confessou. “Sei que não tenho preparo físico adequado como você e não tenho coragem de mergulhar nem mesmo cinco metros dentro do mar, mas teria a coragem necessária para ir a uma nave espacial”. Lula vive jurando que é capaz de fazer coisas de que até Deus duvida. Por que não virar astronauta? “Quem sabe um dia, quando estiverem levando pessoas da terceira idade, eu possa ir até lá”.

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Um mês depois, o furacão nacionalista cessou e Lula esqueceu o passeio no mundo da Lua, provavelmente aconselhado pelo tamanho da conta. A viagem de Pontes custou 10 milhões de dólares ─ 1 milhão de dólares por dia. Em vez de dedicar-se à consolidação da soberania nacional, Pontes passou para a reserva. Hoje com 46 anos, mora em Houston com a mulher e dois filhos. Garante que não falta o que fazer. Mas acha que poderia estar fazendo muito mais.

“Trabalho como voluntário para causas sociais e ambientais”, informa o site que descreve a vida, a obra e, sobretudo, os múltiplos talentos do major sideral. “Oriento centenas de jovens estudantes e profissionais a encontrarem sua melhor habilidade para buscar seus objetivos. Fotografo a vida. Pinto e desenho minhas idéias. Trabalho como engenheiro em projetos e consultorias. Escrevo artigos e outros textos com a finalidade de conscientizar e motivar pessoas para descobrirem o seu potencial”.

É compreensível que alguém assim se sinta frustrado com o tratamento que lhe dispensam as autoridades do país natal.  “O Governo Brasileiro e as Forças Armadas”, queixa-se nove vezes no site, “não têm nenhuma previsão ou interesse de usar o Engenheiro Marcos Pontes para o desenvolvimento de projetos nacionais”. Se as letras maiúsculas conseguissem entender-se, insinua, o país só teria a ganhar.

O Brasil não sabe o que está perdendo, sugere a descrição de Marcos Pontes por Marcos Pontes. Trata-se, resumidamente, de “um sujeito simples, humilde e dedicado, que impressiona quem o conhece pessoalmente pela sua grandeza como ser humano, que traz a força, a determinação e a sabedoria daqueles que viveram o extraordinário e já fazem parte da história da humanidade”.

Qual seria o cargo adequado a tal singularidade? O próprio Pontes apresenta três opções: diretor de área técnica na Agência Espacial Brasileira, representante técnico do Brasil na NASA ou consultor para o desenvolvimento de sistemas espaciais nos centros de pesquisa espacial brasileiros.

Fotógrafo especializado em paisagens, desenhista de retratos com uma forte predileção por nus femininos e poeta afeito a rimas com tempos verbais (Eu ficava ali e assistia, / Nos olhos o reflexo do que via, / No mundo o reflexo do que imaginava, / Na mente o reflexo do que acreditava), está quase pronto para voos políticos. Pontes diz que Pontes “está se esforçando para ter a preparação adequada para que, caso necessário, assuma mais essa função com a mesma competência e brilhantismo que sempre marcaram sua carreira profissional”.

Enquanto vasculha horizontes desconhecidos, já assegurou o passaporte para a eternidade. O 444º astronauta a ir para o espaço é também o asteróide “38245 marcospontes” . O primeiro e único astronauta brasileiro acha que isso não tem preço.

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