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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

A segunda parte do encontro com Fidel e o caso do revólver roubado na embaixada

PUBLICADO EM 18 DE MARÇO DE 2011 Enquanto espero a conversa com Fidel Castro no salão imenso do Ministério das Relações Exteriores, estou pensando o que pensa todo estrangeiro convidado para uma tremenda boca-livre por conta do governo cubano: se o povo visse isto aqui, o regime comunista não chegaria à sobremesa. Extensa, espessa e […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 12h32 - Publicado em 18 mar 2011, 14h38

PUBLICADO EM 18 DE MARÇO DE 2011

Enquanto espero a conversa com Fidel Castro no salão imenso do Ministério das Relações Exteriores, estou pensando o que pensa todo estrangeiro convidado para uma tremenda boca-livre por conta do governo cubano: se o povo visse isto aqui, o regime comunista não chegaria à sobremesa. Extensa, espessa e sólida como píer inglês, a bancada do bufê suporta uma assombrosa procissão de frutos do mar. Lagostas, camarões, siris e caranguejos de dimensões amazônicas, um tsunami de mariscos e ostras, cardumes de peixes de espantar o velho Santiago. Estamos em dezembro de 1987, mas aquilo parece banquete patrocinado por um Nero de cinema.

Tem até gente gorda. Há seis dias zanzando pelas ruas de Havana, só vi gente magra. O governo jura que ninguém morre de fome, mas nenhum cubano comum come o suficiente para matá-la. Isso é para quem frequenta recepções oficiais. Contemplo uma lagosta abraçada a dois camarões quando me bate a certeza de que todos os gordos da ilha estão aqui. Não passam de dez. Começo a imaginar como é que eles explicam aos magros curiosos aqueles quilos a mais quando vejo o funcionário que escolta o bando de brasileiros me acenando com espalhafato. Chegou o grande momento. Junto-me ao grupo de jornalistas e vamos todos para uma sala com quatro poltronas e dois sofás de bom tamanho. Capturo uma poltrona. Cinco minutos mais tarde, a porta se abre ─ e Fidel finalmente aparece.

Aos 61 anos, há 28 no poder, a figura emoldurada pela soleira traja uma farda verde-oliva bem cortada e parece em ótima forma. Fico de pé e constato que nossos queixos se alinham na mesma altitude. Ele tem, portanto, entre 1m85 e 1m90, incluindo o salto carrapeta do coturno preto. Só alcança 2 metros na imaginação dos devotos. A expressão satisfeita e o olhar confiante informam que o ditador quase sessentão adora o que faz e pretende manter o emprego enquanto viver.

Também ficou mais cauteloso, sorrio ao conferir o cinto paisano: não há qualquer vestígio de coldres e revólveres. Desde o outono de 1960, quando a lenda estava ainda em seu começo, Fidel Castro sabe que não se deixa impunemente uma arma de fogo ao alcance de jornalistas brasileiros.

O CASO DO SUMIÇO DO REVÓLVER
Naquela noite de abril, Fidel chegou com algumas horas de atraso à embaixada do Brasil em Havana. Todos empunhando copos ou garrafas, ali o esperavam o futuro chanceler Vasco Leitão da Cunha, que organizou a recepção, Che Guevara, escalado pelo chefe para distrair os visitantes, o recentíssimo amigo de infância Jânio Quadros, figurões do janismo e jornalistas que cobriam a visita a Cuba do candidato à presidência da República. (O vídeo abaixo mostra a animação da comitiva já na chegada à ilha. Até o exemplarmente sóbrio Afonso Arinos acabara entrando na festa, com um chapéu na cabeça e maracas nas mãos).

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No corredor da embaixada, Fidel fez uma derradeira escala no lavabo para deixar sobre a  caixa da descarga o cinto com o revólver no coldre que completava o uniforme de guerrilheiro. Entrou na sala de jantar desarmado, falante e feliz. Só deu a conversa por encerrada no meio da madrugada. Um dos últimos a retirar-se, embarcou num jipe pilotado pelo ajudante de ordens e desapareceu na noite. Reapareceu às cinco da manhã para buscar o que esquecera no lavabo. E então descobriu que o cinto não estava mais lá. Nem o coldre. Nem o revólver.

O jornalista Villas-Boas Corrêa, que testemunhou a cena, resumiu num artigo no Jornal do Brasil a reação de Fidel. “Ele perde a calma, insiste na busca. A criadagem é acordada. Ninguém vira ou tinha notícia da pistola que, segundo Fidel, o acompanhava desde Sierra Maestra, uma mascote que era parte da sua vida”. À beira de um ataque de nervos, a vítima suspendeu as buscas e foi tentar dormir.

Mas não se renderia, conta Villas-Boas Corrêa: “Compareceram à embaixada, horas depois, o comandante Raulito Diaz Argueille, chefe do Birô de Investigações, e o capitão Chino Figueiredo, do serviço secreto, reclamando a lista com os nomes de todos os que compareceram à recepção e deixando claro que Fidel exigia a devolução da arma no prazo de 24 horas”. Teria de esperar o dobro.

Passadas 48 horas, o autor da audaciosa gatunagem procurou Leitão da Cunha para propor o acordo: ele devolveria o produto do roubo se o dono não soubesse quem foi. O embaixador cumpriu a promessa e levou o segredo para o túmulo. A História ainda ignora a identidade do jornalista brasileiro que conseguiu o que nem os americanos conseguiram: desarmar Fidel.

Leitão da Cunha só deixou escapar, muitos anos mais tarde, que se surpreendeu com a inscrição na plaqueta de ouro incrustada no cabo do revólver: “Ao herói do povo cubano, a amizade de Anastas Mikoyan”. Aquele parabelum russo, um presente do chanceler da União Soviética, desembarcara na ilha meses antes do incidente noturno. Não fazia a menor ideia de onde ficava a Sierra Maestra.

O passeio por 1960 é interrompido pela voz que anuncia o início de un rato de charla. Um dedinho de prosa com Fidel, como se verá no terceiro e último capítulo, dura pelo menos três horas.

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