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A lição de um país civilizado ao grotão dos culpados incomuns

Publicado em 27 de março Confrontado com um caso de polícia, o presidente Lula criou uma nova categoria de inimputáveis ─ a dos homens incomuns ─ para desviar do camburão o chefe do bando. “O Sarney tem história no Brasil suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum”, deliberou em junho […]

Publicado em 27 de março

Confrontado com um caso de polícia, o presidente Lula criou uma nova categoria de inimputáveis ─ a dos homens incomuns ─ para desviar do camburão o chefe do bando. “O Sarney tem história no Brasil suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum”, deliberou em junho o camelô dos palanques, de passagem pelo Cazaquistão, ao saber das bandalheiras nas catacumbas no Senado.

Confrontado com a ação movida contra o Estadão pelo empresário Fernando Sarney, o desembargador Dácio Vieira, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, decidiu que, se o pai é incomum, como tal o primogênito também deve ser tratado. Em homenagem à família chefiada pelo patriarca José, de quem ganhou o emprego, o juiz amordaçou o Estadão com a censura prévia.

Confrontado com a reportagem da Folha que denunciou a existência da conta com 13 milhões de dólares no Suíça, o tesoureiro da capitania hereditária do Maranhão fez outra retirada audaciosa nos fundos da arrogância. “Não me manifesto sobre o que não acontece”, tentou encerrar a conversa com o repórter, com a empáfia de quem se julga condenado à impunidade.

Confrontada com delinquências financeiras de Fernando Sarney, a presidente da Suíça, Doris Leutrard, escancarou com uma frase o abismo que separa uma nação civilizada das paragens afundadas no primitivismo. “Aqui tratamos todos de forma igual”, resumiu. “Aqui pouco importa se a pessoa é rica ou pobre, famosa ou não”.

As regras que tratam do sigilo bancário ─ algumas absurdas desde sempre, outras devastadas pela esclerose ─ imploram por mudanças urgentes. Mas ninguém na Suiça é incomum. Os governantes de lá não têm bandidos de estimação. O presidente não ousa atropelar ostensivamente a lei. Não há meliantes especiais. Nem existem sobrenomes intocáveis.

Dias antes da decretação do bloqueio judicial, como apurou o jornalista Lauro Jardim, o sempre ágil Fernando emagreceu a conta suspeitíssima em 10 milhões de dólares, transferidos para outro esconderijo em Lichtenstein. Foram retidos 3 milhões. Não é muita coisa perto das cifras com que lida a turma liderada por Madre Superiora, Magro Velho, Bomba e outros codinomes bisonhos. Mas é mais que suficiente para amparar a pergunta que resume outra ópera do malandro: se o dinheiro não é fruto da ladroagem, por que está escondido da Receita Federal e homiziado na Europa?

O Estadão está sob censura há 239 dias. Ninguém no clã dos Sarney sabe o que é sequer uma hora de cadeia. A credibilidade do Poder Judiciário, em seu conjunto, pode entrar em colapso se a população carcerária não incorporar outras estrelas do universo dos corruptos além de José Roberto Arruda, engaiolado provisoriamente. A diferença entre o ex-governador do Distrito Federal e os colegas de ofício é que a Turma do Panetone foi copiosamente filmada em ação.

No século passado, convencida de que não conseguiria reunir provas suficientes para prender Al Capone por delitos ainda mais graves, a Justiça americana tratou de enquadrar o chefão mafioso em crimes contra o Fisco. A movimentação do dinheiro no exterior não deu as caras nas declarações de renda de Fernando e sua mulher. Que tal percorrer a estrada pavimentada há quase 80 anos?

Ainda existem juízes no Brasil, e um deles é o ministro César Peluso, novo presidente do Supremo Tribunal Federal. Único integrante da Corte que foi juiz de primeira instância, cumpre a Peluso liderar a luta pela sobrevivência moral do Poder Judiciário. Ele sabe que não pode contar com o Executivo e o Legislativo.

O presidente da República e o presidente do Senado estão a milhões de anos-luz da Suiça. Lula desafia acintosamente o Tribunal Superior Eleitoral. Sarney é o chefe da família retratada de frente e de perfil na entrevista com o jornalista Palmério Dória, aqui nesta página. Os dois políticos que melhoraram bastante de vida são atropeladores compulsivos de normas legais e códigos éticos. Também por isso descobriram recentemente que eram amigos de infância.

Pelo menos tão cedo o presidente do STF tampouco deve contar com a opinião pública. No Brasil do terceiro milênio, só o julgamento do casal Nardoni conseguiu induzir a multidão a clamar pelo castigo dos culpados. É compreeensível que o assassinato de uma criança provoque tanta comoção. Mas o triunfo dos bandidos incomuns sobre a Justiça consumará o assassinato da esperança dos brasileiros decentes.

Nenhum outro crime é tão hediondo.

Comentários
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  1. Comentado por:

    odivar meneghetti

    Augusto, socorro, O Reinaldo Azevedo está sendo metralhado pelos petralhas.
    Ele está se defendendo com todas as “armas” mas precisamos da sua ajuda.

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  2. Comentado por:

    doceexilio

    Brilhante Augusto!

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  3. Comentado por:

    Risa

    Olha, eu fico tao indignada, tao triste, tao assustada com tudo que leio aqui no Auguto e no Reinaldo, porque sei que absolutamente real o que eles escrevem e porque eu imagino o que nao e’ publicado, o que nao chega ao nosso conhecimento. Dizer que a nossa politica braileira e’ muito mafiosa acho que ja e’ dizer pouco e onde? Onde? Tudo isso vai parar??

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  4. Comentado por:

    Delmar Fontoura

    .
    Do Blog J. P. Fontoura.
    .
    Dissecação da única virtude de Lula…
    .
    Lula não tem nem uma outra virtude que não seja a de perceber e utilizar os meios de se locupletar das disponibilidades explícitas (oficiais) e implícitas (não oficiais) do Estado…
    Equivale ao gênero, ao número e ao grão do autodenominado “Bispo Macedo da Igreja Universal”, pois, a exemplo deste, recorreu a um Monte Sinai imaginário onde buscou os mandamentos de seu caráter político e, na exarcebação de seu ego, ungiu-se como se fora “onipotente”.
    Não desceu nos oito anos de seu mandato e não descerá do “pedestal” em que se colocou abaixo de seu “topete”!…
    Vai embora a primeiro de janeiro quando nem deveria ter vindo… …Deixo dito agora: a um governante não é dado o direito de requerer distinção entre “dolo e culpa” dos crimes que comete, mas Lula pede o pior, pois requer isenção de culpa nas mortes: causadas pelo mau atendimento do SUS; pelo abandono das estradas Federais que causam perdas materiais e de vidas; a violência – por porte de arma, drogas e tráfico – que causa mais mortes anuais do que muitas guerras… …e como se pudesse ser pior do que perdas de vidas, deve responder pela perda dos oito anos em que fez que governou…
    Como admitir-se essa “incongruência” política a não ser admitindo-se o surreal e maquiavélico desses atos criminosos?…
    O “neolulopetismo”, através de Lula, inovou, negativamente, no exercício da política tradicional. Suas concepções para gerir a Coisa Pública se tornaram um anacronismo se a considerarmos no contexto do “tempo” em que vivemos, pois esse tempo passa e a sociedade fica no vazio do não cumprimento de promessas, “vendo o avanço social, passar” sem poder usufruir dos benefícios de sua conformação Universal!…
    Vai Lula e seja protegido – por seu “deus” – do próprio ofídico que inoculou em nossa sociedade…

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  5. Comentado por:

    JUCA

    Herodes perguntaria: esse pessoal desconhece completamente o caput do artigo 5º da Constituição? Eles se acham mais iguais. Mas a grande maioria, apesar de neles ter votado, não quer ser igual a eles. Não acreditam (é inacreditável) e ninguém lhes mostra a verdade.

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  6. Comentado por:

    anonimo

    Brilhante artigo. Na mosca. Se não estou enganado foi a Suiça que colocou o Maluf no rol dos procurados pela Interpol. O homem não viaja mais. É triste ver corruptos serem elogiados. Glorificados. Grotão dos culpados incomuns. Dignidade e honestidade parece que sumiram do vocabulário dos brasileiros. A popularidade do chefe da quadrilha foi lá pra cima. Feliz 2011 aos que ainda tem vergonha na cara neste País.

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  7. Comentado por:

    Ramon Navarro

    Se querem uma musica perfeita para essa gente toda, ouçam Limpeza Hospitalar e vejam de quem:Gilberto Gil e Milton Nascimento, lançada num cd de 99 com os dois em dupla, sensacional, foi feita com certeza para os líderes petistas atuais, Lula principalmente…….ouçam e depois comentem.

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  8. Comentado por:

    João das Dores

    Pô, Augusto. É muito bom encontrar um brasileiro de valor. Parabéns pela independência, coragem, serviço prestado ao Brasil e pela claríssima redação.

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  9. Comentado por:

    Paulo Pithan de Oliveira

    Eles merecem! Patrimonialismo: Filhos de Lula ganham
    passaporte diplomático dois dias antes do fim…
    Extraído de: Instituto de Direito Administrativo de Goiás – 19 horas atrás

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