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A falta que um Tancredo faz

Nas cenas finais de Tancredo, a Travessia, quem conhece razoavelmente o personagem acha que ficou faltando alguma coisa. Tal sensação poderia ser dissolvida, ou pelo menos abrandada, por uma tarja que, sublinhando as comoventes imagens de abertura, exibisse a advertência necessária: Tancredo Neves não cabe em 105 minutos. Essa é a duração do documentário que […]

Nas cenas finais de Tancredo, a Travessia, quem conhece razoavelmente o personagem acha que ficou faltando alguma coisa. Tal sensação poderia ser dissolvida, ou pelo menos abrandada, por uma tarja que, sublinhando as comoventes imagens de abertura, exibisse a advertência necessária: Tancredo Neves não cabe em 105 minutos. Essa é a duração do documentário que estreou nesta quinta-feira nas salas de cinema. Enquanto acompanha passo a passo a caminhada de um PhD em política que viveu como protagonista os episódios mais dramáticos ocorridos entre 1954 e 1985, o diretor Sílvio Tendler procura capturar-lhe a essência do pensamento e as características que forjaram o estilo incomparável. É muito assunto para pouco mais de uma hora e meia.

E é muita história para uma vida só. Ministro da Justiça em agosto de 1954, Tancredo primeiro usou o talento de conciliador para tentar conter a cólera dos inimigos de Getúlio Vargas. Na última reunião do ministério, mostrou a valentia que nunca lhe faltou ao defender a resistência armada aos militares sublevados. Consumada a tragédia, pronunciou um discurso feroz à beira da sepultura do grande suicida. Em 1961, depois da renúncia de Jânio Quadros, o candidato derrotado ao governo de Minas Gerais negociou o acordo entre o vice João Goulart e os generais conservadores que instituiu o parlamentarismo. Emergiu da crise como primeiro-ministro do novo regime.

Em 1964, líder do governo de Jango na Câmara, Tancredo fez o que pôde para evitar o golpe de Estado. Derrotado, ajudou a fundar o MDB oposicionista e seguiu demonstrando que a prudência e a coragem podem e devem andar de mãos dadas. Amigo de Juscelino Kubitschek, cassado em junho, acompanhou o ex-presidente nos humilhantes depoimentos em tribunais militares. Em 1976, voltou ao cemitério de São Borja para despedir-se de Jango, que não pôde ser sepultado com honras de chefe de Estado, com ataques frontais ao governo autoritário.

Em 1983, engajou-se sem ilusões na campanha pela volta das eleições presidenciais diretas, que qualificou de “lírica”  não por desconhecer a importânica da mobilização popular, mas por conhecer bem demais o Congresso. Convencido de que a sucessão do general João Figueireido não seria decidida nas urnas, tratou de tecer desde o começo de 1984 as complicadas alianças que, em janeiro do ano seguinte, garantiram  a vitória sobre o candidato governista  Paulo Maluf  no Colégio Eleitoral. Entre o início das operações de bastidores e o triunfo, Tancredo colocou em prática as lições que resumia numa metáfora fluvial: “Não se tira o sapato antes de chegar à margem do rio. Mas não se vai ao Rubicão para pescar”.

Esperou até a 25ª hora para formalizar a candidatura e deixar o governo de Minas. Chegara à margem do rio. E então partiu para a travessia do seu Rubicão — o rio que todo guerreiro tinha de cruzar para lançar-se à conquista de Roma. Conseguiu o apoio de todas as vertentes da oposição, com exceção do PT. (O detentor do monopólio da ética se negou a votar no candidato da nação e expulsou os três deputados que descumpriram a ordem. Lula achou que Tancredo não merecia confiança também por ter como vice um José Sarney. Hoje amigos de infância, Sarney e Lula são reduzidos a uma dupla de pigmeus oportunistas pela grandeza do presidente que poderia ter sido e não foi).

Na etapa seguinte, Tancredo atraiu dois terços do PDS e isolou Maluf. Como se disputasse uma eleição direta, liderou comícios monumentais em várias cidades brasileiras. Já era um campeão de popularidade quando pronunciou o belo discurso da vitória. Surpreendido pela cirurgia inadiável na véspera da posse em 15 de março, agonizou até 21 de abril, quando deixou a vida para entrar no imaginário popular como herói nacional.

Cada uma das tantas versões de Tancredo vale um livro, cada episódio que protagonizou vale um filme. Como foram todos agrupados num único documentário, é inevitável que certos trechos pareçam rasos demais, incompletos ou de difícil compreensão. A memória nacional sairia ganhando se, por exemplo, fossem incorporadas mais informações ao trecho reservado às restrições feitas por chefes militares ao candidato do MDB. Até render-se aos fatos, o presidente Figueiredo vivia recitando a expressão  “Tancredo never”. Preocupado com as reações da linha dura, o candidato montou em segredo um plano para reagir a um eventual golpe fardado. O excesso de cautela aconselhou Tancredo a ocultar as dores que prenuciaram o drama. Ele achava que os quartéis não admitiriam a posse do vice José Sarney.

Feitas as ressalvas, convém deixar claro que o que parece pouco aos olhos de cinquentões bem informados é mais que suficiente para permitir a quem tem menos de 30 uma pedagógica viagem, conduzida por Tancredo, pelo turbulento Brasil da segunda metade do século 20. No grande viveiro de desmemoriados vocacionais e amnésicos por conveniência, que a cada 15 anos esquecem o que aconteceu nos 15 anteriores, merece ser saudado com tambores e clarins um documentário que trata a verdade com gentileza e conta o caso como o caso foi.

É irrelevante saber se será anexado aos trunfos eleitorais do senador Aécio Neves. Se fosse neto de um avô assim, Tancredo Neves agiria da mesma forma. E pouco importa constatar que a câmera não esconde a admiração pelo personagem. Esse mineiro de São João del Rei que fez da conciliação política uma forma de arte, esteve sempre do lado certo e só depois de morto subiu a rampa do Palácio do Planalto é, decididamente, um estadista admirável.

Outros documentários completarão o painel esboçado pelo retrato pintado por Tendler ─ e concluído na hora certa. Milhões de brasileiros poderão constatar que, há apenas 25 anos, sobrava gente que debatia ideias, defendia programas e não estava à venda. Os corruptos não chegavam tão facilmente ao ministério. A Era da Mediocridade ainda era só um brilho no olhar guloso de Lula e seus devotos. As imagens mostram um José Sarney constrangido, deslocado, consciente da condição de intruso. Virou presidente graças aos micróbios do Hospital de Base de Brasília e à incompetência dos médicos, que se uniram para castigar o Brasil com a perversidade brilhantemente condensada na frase do jornalista Carlos Brickmann: “Sair de Tancredo para cair em Sarney é, definitivamente, encontrar um túnel no fim da luz”.

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  1. Comentado por:

    Enesi

    Que falta faz Tancredo Neves. Para mim, apesar do pouco tempo no governo, foi o melhor governo o que ele iria nos deixar.Eu era adolescente, e vivi a época mais feliz de minha vida, cheia de esperança, quando os estudos fazia a diferença na vida, quando o trabalho valorizava o trabalhador, valia a pena trabalhar. Hoje somos escravos, trabalhamos cada vez mais e metade do nosso salario vai para o governo que o distribui em quatro partes: duas para eles, uma para programas sociais e ongs(compra votos) e uma para pagar os financiadores de sua campanha.

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  2. Comentado por:

    carlos nascimento

    Mestre Augusto,
    Sei que vc conhecia muito bem o estilo e a personalidade de Tancredo,sendo assim resolvi indagar :
    – O avô de Aécio estaria satisfeito – se vivo estivesse – com o atual comportamento político de seu neto ?
    – Gostaria de saber sua opinião também – respeitadíssima – se Aécio está honrando o sobrenome que herdou, ou está léguas de distância da altivez do avô ?
    – Como vc avalia a total omissão, sumiço, fuga dos debates políticos e pontos de vista do Senador mineiro sobre os atuais ilícitos corruptos que assolam o nosso País. A atitude do Senador é digna de quem deseja tornar-se candidato à Presidência do Brasil ?
    – Como vc avalia a parceria que o Senador mineiro mantém em seu Estado(MG) com a turma do PT ?
    Finalmente uma última solicitação, alguns amigos me falam que a alcunha de “vaselina” que costumo chamar o Aécio não é adequada, já “garoto do leblon” tudo bem, vc acha que eu exagero ?
    abraços
    Carlos Nascimento.
    Estou devendo um post de bom tamanho sobre o Aécio, amigo Carlos Nascimento. Mas antecipo duas constatações. Primeira: como toda a oposição, ele não tem perdido nenhuma chance de errar. Segunda: o Tancredo sempre soube a hora de bater e a hora de esquivar-se. O Aécio se esquiva o tempo todo. abração

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  3. Comentado por:

    carlos nascimento

    Atualmente os sábados costumam ser apavorantes para determinada classe política.
    O sábado presente (10/12/11), vários mineiros estão perdendo o sono, certas “alianças mineiras” vão acabar gerando muitas capas de jornais e revistas, os fios encapados começam a soltar faíscas, tráfico de influência é só uma questão da falta de gás do ETA, que queria ficar PORRETA, não deu, 130.000 pimentões deram o toque errado, azedou.
    O julgamento do primeiro mensalão está sendo cozinhado, Marcos Valério já está preso, por outra razão, o caldeirão está fervendo, as novas denúncias não vão deixar o sapo barbudo pular do vapor, vai derreter junto, torradinho, torradinho.
    Sinto muito por Juscelino, Tancredo e Itamar, ilustres mineiros, devem estar decepcionados, a atual geração é apavorante, rasgaram todo o patrimônio construído ao longo de décadas.
    Pergunto ao AN, quando teremos o aguardado post sobre Aécio Neves.
    Tenho registrado aqui que o Aécio está conseguindo errar todas, grande Carlos Nascimento. E não serão poucos os posts sobre ele (e sobre a oposição oficial, que tem tido um desempenho desastroso). Mas não me perco nas prioridades. Com tantos ladrões no governo debochando do Brasil decente, não vou gastar munição agora. abração

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  4. Comentado por:

    Lampiao do Norte

    O Aecio tera a resposta que merece dos ” indios”que sabe o que fala!…. Tudo demora pelas bandas de ca querido Nunes… Mais quando falamos, o Mundo ouve!..Acredie!

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  5. Comentado por:

    Lampiao do Norte

    Tancredo X Jefferson = ??????

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  6. Comentado por:

    Matheus

    Amigo A. Nunes: É o Marco, hoje é um dia muito triste para mim, perdi meu grande amigo, não sei se tu conheceu, Claúdio Quintana Cabral, o Mestre Cabral, trabalhava na Band de Poa. Com certeza um dos dia mais triste da crônica Esportiva Gaúcha. Cabral estava para a torcida do Inter, como Santanna está para a do Grêmio.E o mais importante um liberal.
    Abs. Marco.
    É uma pena. Lamento, amigo. abração

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  7. Comentado por:

    fpenin

    Que texto, Augusto! Quaisquer comentários não teriam sentido, tal a clareza da exposição.Deleitando-me com o assunto, percebi o grande perigo de que o Brasil escapou: você já parou para pensar o que seria de nós se Maluf tivesse levado a presidência,Augusto? Foi por um triz..

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  8. Comentado por:

    fpenin

    Tancredo sabia usar os remédios na hora certa: quando não era para doer, vaselina.Para evacuar o material purulento, bisturi.Já o neto…uma libélula que vai ao encontro do globo de luz!

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  9. Comentado por:

    Leonardo Saade

    Na mediocridade da política atual, um político como Tancredo Neves faz muita, muita falta. Foi um gigante, um orgulho para a política brasileira.

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  10. Comentado por:

    Vaulber B. Pellegrini

    Me desculpe, mas Tancredo sempre foi um coringa.

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