Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

A expulsão do vestido curto risca a fronteira que separa o país moderno do Brasil das cavernas

O monumento ao primitivismo que começou a ser erguido na noite de 22 de outubro, quando centenas de alunos do campus de São Bernardo protagonizaram a tentativa de linchamento da moça do vestido curto, foi inaugurado com a expulsão de Geisy Arruda e a aprovação, com louvor, dos agressores. A nota divulgada pela direção da […]

O monumento ao primitivismo que começou a ser erguido na noite de 22 de outubro, quando centenas de alunos do campus de São Bernardo protagonizaram a tentativa de linchamento da moça do vestido curto, foi inaugurado com a expulsão de Geisy Arruda e a aprovação, com louvor, dos agressores. A nota divulgada pela direção da Uniban, com o título A educação se faz com atitude e não com complacência, faz sentido nestes tempos estranhos. Num Brasil pelo avesso, o certo virou errado e o errado virou certo.

Como o culpado é inocente, Antonio Palocci pode estuprar a conta do caseiro, o MST pode invadir o que vier pela frente, José Sarney pode continuar engordando o prontuário de matar de inveja um general do PCC. Como o inocente é culpado, Francenildo Costa não pode queixar-se da condenação ao desemprego, os fazendeiros não podem invocar o direito de propriedade nem alegar que as terras são produtivas. Por divulgarem verdades sobre um homem incomum, o Estadão merece censura e merecem pancadas jornalistas que escrevem livros contando um pouco do muitíssimo que fez o dono do Maranhão.

Como o que era já não é, diplomas de universidades estrangeiras agora equivalem a atestados de elitismo. Devem ser transferidos da parede para o porão, antes que os diplomados sejam considerados inimigos do Grande Ignorante e, portanto, da pátria. Falar e escrever direito é coisa de preconceituoso, miudezas desprezíveis para um enviado da Divina Providência. Acumular conhecimentos é feio. Bonito é ser analfabeto. O presidente que subiu na vida sem ter estudado é a prova de que o brasileiro precisa aprender a desaprender, e revogar de vez o refinamento. É da vulgaridade que o povo gosta, é grosseria o que o povo quer.

A minissaia foi inventada em 1960, os trajes das universitárias hoje sessentonas eram bem mais ousados. Mas um microvestido ficou moderno demais, porque o país está avançando para trás. A sindicância interna concluiu que Geisy teve “uma postura incompatível com o ambiente da universidade, frequentando as dependências da unidade em trajes inadequados”.

A sorte é que jovens de boa família estavam lá para defender “os princípios éticos, a dignidade acadêmica e a moralidade” desrespeitados pela moça desvestida de vermelho. “A atitude provocativa da aluna resultou numa reação coletiva de defesa do ambiente escolar”, descobriu a Uniban.

Vinte anos depois da queda do Muro de Berlim, a Uniban transformou o campus de São Bernardo no muro da boçalidade. A expulsão do vestido curto riscou a fronteira que separa o país moderno do Brasil primitivo. A turma das cavernas está do lado de lá.

Comentários
Deixe um comentário

Olá,

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

  1. Comentado por:

    Adriana Coutinho

    Ridículo! Simplesmente ridículo!!!
    Que alunos! Que faculdade!
    Ainda não estudaram sobre pluralidade cultural e respeito às diferenças?
    Claro que não estudaram! Os alunos vão a essa faculdade para se preocupar com o que os outros vestem. E a universidade? Com que será que ela ocupa seu tempo? Com o currículo, é claro! Mas que currículo!!!!
    Dentre os assuntos que ele contempla, pode-se citar: falsa moral; agressão verbal e física; regras para exterminar os diferentes…
    Parabéns!!!! Mas, por favor, construam uma instituição bem distante dos seres humanos e levem junto esses alunos e demais simpatizantes do currículo dessa “””””Universidade”””””””””””””””””.

    Curtir

  2. Comentado por:

    Nelson

    Rachel, você estuda na UNIBAN?
    Se sua resposta for MESMO sim, então por favor, fechem-na!!!!

    Curtir

  3. Comentado por:

    Rachel

    Oi Nelson se o seu nome for mesmo esse por favor … não generalize…o bando de gente preconceituosa… Morram com seus preconceitos…

    Curtir

  4. Comentado por:

    Ixmael

    Sr. Nunes, desde que, na semana passada
    vc me proibiu de ficar em silêncio, uma velha
    mania me assolou : comentar posts tidos
    como obsoletos. Digamos que sou um
    conservador de priscas eras. Pode ser que sim.

    Curtir

  5. Comentado por:

    Leo LNVAS-R

    Eu estou aqui até agora tentando imaginar o que seria um “avanço para traz…”

    Curtir

  6. Comentado por:

    Beto

    Olá
    Nessa questão discordo de você Augusto e do Reinaldo Azevedo também.
    A moça agiu mal, errado.
    Os trajes que ela vestia não eram apropriados pra ocasião. Hipocrisia é não reconhecer isso. Tão simples, por que essa grita toda?
    Os trajes combinados com a atitude dela talvez sirvam pra uma boate, um cabaré, uma casa de prostituição.
    Se acham que estou sendo exagerado não tem problema, estou sendo realista.
    No máximo serviria pra ela estar em casa, entre quatro paredes. Não são trajes pra ambiente público. São regras básicas de moral e civilidade.
    Em casa, na privacidade, ela pode andar até nua, ninguém tem nada a ver com isso. Mas no convivio social ela tem que seguir normas comuns a todas as pessoas.
    A expulsão dela pela Uniban foi um exagero, o ataque dos “talibans” também. Mas não dá pra perder o foco que a causa dos problemas foi a vestimenta e o comportamento da moça.
    Regras fazem parte da sadia convivência e as pessoas não poderia se espantar com isso.
    Um abraço a todos!!

    Curtir

  7. Comentado por:

    Giovane

    Fui Professor Universitario no Brasil por mais de 23 anos.Hoje, moro no Canada.Vi coisas em reunioes de coordenadores e diretores e tambem em sala de aula que eram um primor de imbecilidade e preconceito.O Brasil infelizmente caminhja nessa direcao.No Rio de Janeiro existe uma “faculdade” na Zona da Leopoldina em o Movimento Evangelico mais radical que ja tinha visto cresce mensalmente.
    Recebi como resposta de uma questao para uma prova de antropologia que:”isso tudo esta aconticendo porque nai ixiste Jesus nos coracao das pessoa”.Isso, com todos os erros e ainda tive que aturar a dignissima tentando defender essa imbecilidade.Detalhe:nao so os evangelicos radicais estao dominando algumas salas de aula, outros movimentos(alguns nao-religiosos) tem mostrado a cara.Pobre ensino privado e pobre dos Professores e alunos.

    Curtir

  8. Comentado por:

    Valentina de Botas

    Boa noite, Augusto!
    Seu texto é apenas irretocável, meu caro; dois longos comentários de Celso Arnaldo, primorosos; aqueles enviados pelos estudantes da Uniban, tristes em tudo. Alguns comentaristas, inclusive mulheres, acusam Geisy de ‘ter gostado de ter sido chamada de gostosa’, de ser deliberadamente ‘provocadora’ (não seria ‘provocante’?) não só por causa do vestido, como também pelas suas atitudes e de pretender sair em alguma revista masculina. Nada disso é crime. Tudo me parece normal e saudável. Geisy é saudável. Doentes são estas bestas, estas próteses estudantis inventadas pela era da mediocridade. Aberrante, a truculência destes alunos os tornou machos vingadores de uma libido criminosa que, usada como álibi para responder à ‘provocação’ de Geisy, revela que os machos em bando não conseguem ser homens se sozinhos. Quem deles abordaria a simplória Geisy, ‘chegaria junto’, sozinho? Alguns dizem que ela é bonita e outros, baranga; aludem à defesa do ‘ambiente acadêmico’, de resto inexistente nas Unibans Brasil afora; mas nada disso importa. Porque nada, rigorosamente nada justifica a selvageria, conquanto ela seja autoexplicável: ignorância ativa, truculência também moral e orgulhosa mediocridade; a manifestação, em suma, do espírito do nosso tempo. Seu post, Augusto, desmascarando o artifício canalha de acusar a vítima, é perfeito. E que moçada repressora, reprimida e burra! Um beijo, Valentina.
    Irretocável é o teu texto, Valentina. Um beijo.

    Curtir

  9. Comentado por:

    Layla fiusa

    Acabei de apagar, cara Layla. Um abraço.

    Curtir