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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

A distância entre o Sérgio Cabral do Carnaval de 2010 e o prisioneiro de Curitiba deve ser medida em anos-luz

O alegre assassino da língua inglesa na Sapucaí hoje é apenas mais um reizinho algemado

Por Augusto Nunes Atualizado em 30 jul 2020, 21h07 - Publicado em 12 dez 2016, 07h04

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Decidido a escapulir da cadeia antes da chegada do verão, o ex-governador Sérgio Cabral resolveu tapear o juiz federal Marcelo Bretas. Para justificar mais um pedido de liberdade, seu advogado alegou que, se continuasse engaiolado em Bangu, o cliente estaria em perigo: alojados em alas próximas, traficantes de drogas planejavam vingar-se do famoso colega de ofício que ousara instalar nos morros que dominavam unidades da chamada polícia pacificadora.

Em vez do direito de ir e vir, Cabral conseguiu do juiz Bretas uma passagem só de ida para Curitiba, onde começou a dormir sem sustos no último sábado. Fez um mau negócio. Em Bangu desde 17 de novembro, o chefão do assalto ao Rio desfrutava da companhia de velhos comparsas e podia consolar-se com a proximidade da mulher, Adriana Ancelmo, instalada há dias no setor feminino do mesmo complexo penitenciário. Na carceragem da Polícia Federal em Curitiba, virou vizinho de cela do concorrente Eduardo Cunha e ficou mais perto do juiz Sérgio Moro.

Geograficamente, o carioca Sérgio Cabral nem está tão longe assim da cidade natal: por via aérea, os 676 quilômetros em linha reta que separam as duas capitais podem ser vencidos em 51 minutos. O que agora deve ser medido em anos-luz é a distância escavada pelas descobertas da Operação Calicute (uma ramificação da Lava Jato) entre o prisioneiro deste dezembro e o folião à solta que protagoniza a gravação feita há quase sete anos.

No Carnaval de 2010, Sérgio Cabral era mais que um governador a caminho da reeleição sem sobressaltos: o que se vê e ouve no vídeo é um reizinho do Rio. Amigão de Lula, cabo eleitoral predileto da candidata Dilma Rousseff, saboreava a sabujice de diferentes partidos interessados em cooptar aquilo que parecia um nome perfeito para a vice-presidência em 2014. Poucos brasileiros imaginavam que o tesouro estadual estava na mira do governador e de um segundo Cavendish ainda mais guloso que o corsário inglês de outros séculos.

Não faltavam motivos, portanto, para Cabral exibir a euforia de passista de escola campeã no vídeo que o mostra em ação no camarote da Sapucaí. Ao apresentar a cantora Madonna à candidata Dilma Rousseff, o anfitrião assassina a língua inglesa (com requintes de selvageria) para informar que aquela mulher ao seu lado será a primeira a presidir o Brasil. Quem não viu precisa aproveitar imediatamente a chance de conhecer essa relíquia audiovisual. Quem já viu vai adorar a reprise.

Sérgio Cabral anda choramingando que a falta do que fazer torna infinito o dia na gaiola. Poderia usar o tempo que agora sobra para pensar nas voltas que a vida dá. E, claro, também para aprender inglês.

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