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‘Um governo preso numa teia de erros’, de Rolf Kuntz

Publicado no Estadão deste sábado ROLF KUNTZ Trem-bala, conta de luz, câmbio, Copa, inflação, pré-sal, gasolina, orçamento – por onde começar? Com pouco mais de um ano de mandato pela frente, a presidente Dilma Rousseff só realizará alguma coisa se romper uma teia de trapalhadas construída por ela mesma, com a colaboração de um dos […]

Publicado no Estadão deste sábado

ROLF KUNTZ

Trem-bala, conta de luz, câmbio, Copa, inflação, pré-sal, gasolina, orçamento – por onde começar? Com pouco mais de um ano de mandato pela frente, a presidente Dilma Rousseff só realizará alguma coisa se romper uma teia de trapalhadas construída por ela mesma, com a colaboração de um dos Ministérios mais incompetentes da História e com material em parte próprio e em parte deixado por seu antecessor. Algumas decisões serão especialmente complicadas. Se continuar reprimindo os preços dos combustíveis, com ajustes insuficientes, agravará a situação da Petrobrás, já complicada por erros acumulados em vários anos – incluída a obrigação de controlar pelo menos 30% dos poços de petróleo do pré-sal.

Se atualizar os preços da gasolina e do diesel, as pressões inflacionárias ficarão mais soltas. Isso será melhor que represar os índices, mas será preciso apertar e talvez ampliar a política anti-inflacionária. Outras decisões serão tecnicamente mais fáceis, como o abandono do projeto do trem-bala. Mas falta saber se o governo estará politicamente disposto a admitir o recuo e reconhecer a acumulação de custos inúteis. Mesmo sem sair do papel, o projeto custará pelo menos R$ 1 bilhão até o próximo ano, somadas os valores acumulados a partir de 2005 e o do projeto executivo, segundo informou O Globo.

O trem-bala é só um exemplo de objetivos mal concebidos, mal planejados e perseguidos com invulgar incompetência, A Copa do Mundo, com projetos em atraso e custos multiplicados, talvez seja o caso mais visível de um compromisso assumido de forma irresponsável e sem avaliação de prioridades.

Parte da herança recebida pela presidente Dilma Rousseff, esse compromisso, além de impor despesas crescentes e graves constrangimentos ao governo, limita seu espaço de ação. A menos de um ano do começo dos jogos, um recuo parece impensável. Para garantir a conclusão pelo menos das obras mais importantes o governo terá de intervir com dinheiro. Quando o prazo ficar muito apertado, será inútil jogar a responsabilidade sobre os parceiros privados. Será preciso gastar e ampliar o buraco nas contas públicas.

Essas contas já vão muito mal e tendem a piorar nos próximos 12 meses também por causa das eleições. Mas o governo, até agora, tem exibido muito mais preocupação com a aparência do que com a situação efetiva de suas finanças. O quadro tem piorado com o uso crescente de maquiagem para enfeitar o quadro fiscal e os números da inflação.

Essa maquiagem, a mais cara e menos eficiente do mundo, tem borrado os limites das políticas fiscal, de crédito e de combate à inflação. Um dos grandes retrocessos dos últimos anos tem sido a crescente promiscuidade entre o Tesouro e os bancos federais, principalmente com o BNDES. Recursos fiscais também têm sido usados na maquiagem de preços. Para disfarçar os custos, em vez de combatê-los de forma efetiva, o governo criou uma embrulhada com as empresas de energia elétrica.

As tarifas foram contidas e isso se refletiu por algum tempo nos índices de inflação, mas a conta para o governo está saindo bem maior do que as autoridades haviam calculado. O custo para o Tesouro, segundo informou o Estado, pode chegar a R$ 17 bilhões, o dobro do valor estimado pelas autoridades no começo do ano. O novo cálculo, mais completo, é atribuído ao consultor Mário Veiga, um especialista em energia. Só esse acréscimo anularia 85% do corte de R$ 10 bilhões prometido na última revisão do Orçamento – se esse corte fosse para valer.

A isso ainda seria preciso somar, entre outros itens, os R$ 6 bilhões anunciados pelo governo para emendas orçamentárias, principalmente, é claro, de parlamentares aliados. Mas os desembolsos com as emendas ficarão maiores e mais difíceis de comprimir, nos próximos anos, se o projeto de orçamento impositivo, já aprovado na Câmara, passar pela etapa final, Os vereadores federais, também conhecidos como congressistas, poderão mais facilmente realizar sua política paroquial, mais uma forma de pulverizar e desperdiçar recursos do Tesouro Nacional.

Sem apoio firme no Congresso, sem competência gerencial, sem ministros capazes de planejar e de executar políticas e sem coragem de reconhecer e de enfrentar os desafios mais sérios, o governo da presidente Dilma Rousseff criou e deixou acumular-se a maior parte de seus problemas, Por mais de dois anos insistiu na prioridade à expansão do consumo, sem cuidar da eficiência econômica e da capacidade produtiva. Foi incapaz de reconhecer o esgotamento da política de ampliação do mercado interno – um objetivo importante, mas insuficiente quando tratado de forma isolada.

Inflação, descompasso entre importações e exportações e erosão das contas externas foram as consequências mais visíveis desse erro. Em vez de atacar a inflação, o governo manteve a gastança, tentou maquiar os preços e ainda promoveu de forma voluntarista uma prolongada redução dos juros.

Uma política mais prudente, mais corajosa e mais voltada para o longo prazo teria tornado a economia nacional mais eficiente e menos dependente do câmbio para a competição global. Ao mesmo tempo, uma inflação mais baixa, como em outras economias emergentes, tornaria mais fácil absorver os efeitos da depreciação do real.

Como toda a política foi errada, também nesse caso a escolha é muito custosa: o País fica mais competitivo com o dólar bem mais caro, mas o combate à inflação, nesse caso, tem de ser mais duro.

Não há decisão fácil e confortável num ambiente de erros acumulados por muito tempo. Com a aproximação das eleições, quantos erros o governo estará disposto a atacar seriamente, em vez de apenas continuar disfarçando?

Comentários
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  1. Comentado por:

    jandira gomes

    Em resumo, de tudo o que foi dito, só tem um nome para definir o governo desta “Pinóquia” e desta praga chamada PT : megalomaníaco. E tem mais, não satisfeitos em cometer tanta burrice e trapalhada, eles ainda vão acabar com a Petrobras. E a criatura é só distribuindo dinheiro a rodo.

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  2. Comentado por:

    Marcia

    O PT vive de propaganda enganosa. Vai divulgar a ascenção da aprovação dela, vai reinaugurar as placas de lançamento de obras do PAC que nunca sairão do papel, vai comprar toneladas de mortadela pra claque amestrada aplaudi-los diante e palanques e vai levar a reeleição, porque estamos no Brasil.

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  3. Comentado por:

    Renan

    JÁ PENSOU NO “SR. MINISTRO CAPILÉ”?
    DEPOIS DOS AGITADORES PROFISSIONAIS BLACK BLOCS, NINJAS, QUEBRADEIRAS E A PRESENÇA DO CAPILÉ…
    Estando os acima ao lado do PT mais crescem as antipatias e aversões ao partido, ajuntando-se a isso a inflação galopante, o descontrole dos gastos públicos, o país andando para trás, a saúde e educação em péssimo estado o prestigio de Dilma só caindo no meio do povo, tenho notado que alguns interlocutores do partido chegam levemente a transparecer que a reeleição de Dilma em 2014 tá difícil!
    Uma seria certa: se Dilma se reelegesse, não duvide que desse um ministério ao Capilé!
    Já pensou v dar uma força no falido esquema dos comunistas do PT com seu voto, mantendo ainda o Lula-Ze Dirceu-Collor-Renan-Maluf etc., hem?

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  4. Comentado por:

    GEROLDO ZANON

    Ela debocha do brasileiro na cara dura nem disfarça mais na foto da para ver

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  5. Comentado por:

    GEROLDO ZANON

    Se todos os eleitores do Sr AUGUSTO e do Sr REINALDO tivessem oportunidade de ler seus comentários até o bolsa votos ia terminar

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  6. Comentado por:

    GEROLDO ZANON

    Errei leitores é o certo

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  7. Comentado por:

    Rodrigo

    A conta da Década Perdida, na qual a Era da Mediocridade foi instaurada no Brasil pelo Partido das Trapaças, finalmente está chegando e, surpresa, ela aponta para um país quebrado em sua infraestrutura e falido em termos morais. Quem sabe se gastarmos um pouco mais em maquiagem e em “contabilidade criativa” as coisas não se resolvam, não é mesmo?
    Que orgulho eu tenho de NUNCA ter votado em ninguém dessa quadrilha. E que tristeza sinto por saber que o Brasil está condenado, infelizmente… Cada povo tem o governante que merece e, como tudo leva a crer, estamos fadados a repetir o erro uma vez mais em 2014.

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  8. Comentado por:

    Samuel Gueiros Jr

    Dilma pensava que o governo funcionaria como um sistema operacional, que após instalado, funciona com certa autonomia. Ao herdar esse sistema de Lula, ela pensou que era só colocar “drivers” novos (ministros incompetentes) e o sistema continua funcionando. Se deu mal, os drivers não são adequados, sistema trava, reinicia, dá pau, não abre certos programas, é vulnerável a virus. É uma cópia não autorizada, pirata, e o operador é incompetente. Não há jeito, nem a recuperação do sistema vai mais funcionar. O disco rígido do Governo vai ter que ser “formatado” nas próximas eleições.

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  9. Comentado por:

    caio

    Depois de enganar mais uma vez os trouxas para votarem nesta incompetente chamada Dilma Ruinself ou Lulla a besta do apocalipse ,aí vão ajoelhar e rezar como manda a cartilha ou mirar num futuro como eu diria? Mais Venezuelano onde teríamos que economizar no papel higiênico,e mais comida é o caminho que nos espera ou ferrar o pais e voltar ao final dos anos oitenta um recessão brabissima ,ou soltar de vez e virar Venezuela a decisão esta nas ruas ,e o prazo limite da gastança é as eleições 2014 ,e quanto o povo quer se enganar.

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