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‘Tuma lá, dá cá’, de Carlos Brickmann

Publicado no Observatório da Imprensa CARLOS BRICKMANN O debate jornalístico sobre o livro-depoimento do delegado Romeu Tuma Jr., Assassinato de Reputações – um crime de Estado, abandonou a pesquisa e a reportagem e mergulhou fundo no clima de campanha eleitoral, como se tornou habitual nos últimos tempos. Tuma Jr. fez uma série de denúncias em […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 04h46 - Publicado em 19 dez 2013, 09h49

Publicado no Observatório da Imprensa

CARLOS BRICKMANN

O debate jornalístico sobre o livro-depoimento do delegado Romeu Tuma Jr., Assassinato de Reputações – um crime de Estado, abandonou a pesquisa e a reportagem e mergulhou fundo no clima de campanha eleitoral, como se tornou habitual nos últimos tempos. Tuma Jr. fez uma série de denúncias em mais de 500 páginas; o correto é analisá-las e desmenti-las, ou confirmá-las, ou reconhecer o que há de preciso ou impreciso em cada uma.

Algumas denúncias, em princípio, são graves – por exemplo, a de que o então líder sindical Luiz Inácio da Silva, que ainda não havia incorporado Lula a seu nome, era informante da polícia política. Há aí três possibilidades:

1. A informação é verdadeira – e, nesse caso, exige aprofundamento, com abertura de espaço ao ex-presidente Lula para que apresente sua posição;

2. A denúncia é falsa – e, nesse caso, abre-se a possibilidade de processo contra o denunciante e investigação dos motivos que o levaram a inventá-la;

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3. Questão de interpretação: tanto Lula quanto o delegado Romeu Tuma, pai de Tuma Jr., eram afeitos ao diálogo, e podem perfeitamente ter combinado os limites da atuação de cada um, trocando informações, para evitar choques que poderiam piorar o clima entre governo e os sindicalistas mais organizados.

Há muitos pontos a esclarecer nas narrativas de Tuma Jr.: o caso Celso Daniel, por exemplo – ele era o delegado de Taboão da Serra (SP) e conduziu as primeiras investigações sobre o assassínio do prefeito de Santo André, chegando a conclusões opostas à de seus colegas de Polícia Civil. Para ele, foi um crime político; para os delegados que comandaram duas outras investigações, foi um crime comum, assalto e sequestro seguido de morte. A conversa que diz ter tido com o hoje ministro Gilberto Carvalho, que teria lhe dito que o dinheiro arrecadado ilegalmente em Santo André era destinado exclusivamente ao partido, às campanhas, e entregue diretamente a José Dirceu. O episódio da prisão do milionário russo Boris Berezovski, que tinha vindo ao Brasil a convite do governo. Sua atuação no Corinthians, onde é um dos destaques da oposição ao grupo do ex-presidente Andrés Sanchez, ligado ao ex-presidente Lula.

Enfim, material é o que não falta. E, no entanto, o que se tentou fazer foi discutir besteiras: desmentir que Tuma Jr. estivesse na polícia na época em que Lula foi preso e ficou sob a guarda de seu pai, Romeu Tuma; negar, com base num erro da Wikipédia, que Tuma Jr. tivesse idade para pertencer à polícia; desmentir sua presença junto a Lula, quando há até fotos dos dois nessa época.

O entrevistador de Tuma Jr., Cláudio Tognolli, que deu o texto ao livro, é um ótimo repórter, investigativo, de grande currículo, ex-correspondente internacional, professor de duas universidades, extremamente cuidadoso na avaliação dos dados a que tem acesso. Levou algo como dois anos entrevistando o delegado e examinando sua narrativa. Pronto o livro, Tuma Jr. procurou seus advogados, que leram tudo com muito cuidado, até atrasando o lançamento nas livrarias. Tuma Jr. se compromete a esclarecer qualquer dúvida, a rebater quaisquer desmentidos e ainda garante que tem material para outro livro.

OK, Tuma Jr. não é um campeão de popularidade. Dizem que é pessoa de trato difícil, participou de episódios controvertidos, colocou-se contra colegas respeitados em investigações importantes. Num episódio triste, trabalhou em dupla com o então presidente da Câmara Municipal de São Paulo, José Eduardo Martins Cardozo, do PT, hoje ministro da Justiça. Cardozo interrogava testemunhas durante doze ou mais horas e, em seguida, as entregava a Tuma Jr., que as levava, já exaustas, para ser ouvidas na polícia.

Mas não se trata de analisá-lo como santo ou demônio, como petista, tucano ou PFL (que foi por muito tempo o partido de seu pai), nem de elegê-lo Mr. Simpatia, nem de discutir sua idade – até porque, se comprovadas, suas informações demonstrarão que tem idade suficiente para causar um terremoto político. E, se desmentidas, não haverá como recuperar sua imagem, seja qual for sua data de nascimento, por muitos e muitos anos.

É um livro a ser lido com calma. E a ser dissecado pela imprensa fato por fato, frase por frase. O importante não é ser amigo ou inimigo de Tuma Jr. É verificar se aquilo que ele conta é verdade ou mentira. E daí tirar as consequências.

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