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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

‘Tô reclamando do quê?’, por Oswaldo D. Castro Jr

OSWALDO D. CASTRO JR Sou sócio e diretor de uma empresa de transportes e serviços logísticos, em atividade há 20 anos, que emprega mais de 500 funcionários (todos de acordo com a CLT, sem artifícios). Em 2013, a empresa faturou mais de R$ 120 milhões. No mesmo período, “contribuiu” (bonita palavra) com exatos R$ 14.979.773,03 […]

Por Augusto Nunes - Atualizado em 31 jul 2020, 02h49 - Publicado em 19 out 2014, 17h31

OSWALDO D. CASTRO JR

Sou sócio e diretor de uma empresa de transportes e serviços logísticos, em atividade há 20 anos, que emprega mais de 500 funcionários (todos de acordo com a CLT, sem artifícios). Em 2013, a empresa faturou mais de R$ 120 milhões. No mesmo período, “contribuiu” (bonita palavra) com exatos R$ 14.979.773,03 em impostos e tributos diretos. A quantia seria triplicada se considerasse toda a cadeia de impostos indiretos, taxas e contribuições. Detalhe: sou pequeno demais para ser amigo do rei (ou do BNDES) e grande demais para receber as (justas) benesses reservadas aos súditos.

Para tocar esse negócio, trabalho com 15 lideranças na matriz, entre diretores e gerentes, mais 11 gestores que comandam nossas filiais Brasil afora (e bota “fora” nisso…). Esse time todo consome mais da metade do seu tempo resolvendo problemas que não deveriam existir. Por exemplo: a burocracia absurda e o apetite voraz dos governos, todos eles – federal, estaduais e municipais, sejam quais forem os partidos ou a ideologia dos governantes — unidos num objetivo comum: ARRECADAR.

Neste momento eu paro e penso: para onde vai a nossa (somadas a minha e a sua) contribuição, visto que a segurança não existe, a saúde já era e a educação vai mal (pra todos, inclusive para a elite que é míope e egoísta). Sem falar na infraestrutura, que no segmento onde opero, dependente de estradas e portos, é de dar vergonha. Para fechar esse primeiro balanço arrecadação X benefícios, lembro “dela”, a corrupção, operada justamente pelos mesmos agentes que arrecadam muito e devolvem pouco.

Quando estou quase desistindo (não só como empresário, mas como brasileiro), lembro que uma parcela dessa contribuição vai para programas sociais que estão tentando erradicar a miséria, combatendo a fome e ampliando o acesso a moradias minimamente dignas a uma imensa parcela da população. Esses avanços se refletem na melhoria do IDH e na redução da taxa de pobreza. São fatos esses inegáveis. Levando em conta tudo isso, e considerando que “dirijo uma empresa com 20 anos, R$ 120 milhões de receitas e blá, blá, blá…”, alguém pode pensar: tá reclamando do quê?

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Tô reclamando porque nunca esteve tão caro manter um negócio com um nível de produtividade atualmente horrível. Lembra da educação? Pois é, o brasileiro é tão ignorante quanto improdutivo. Lembra da infraestrutura? As estradas não têm mais buracos por falta de espaço. Lembra da segurança? Nossos motoristas também não…

Tô reclamando porque nunca esteve tão caro pagar pela burocracia ridícula que domina nossas instituições públicas,. Recebi mais de R$ 2 milhões em multas no Rio de Janeiro porque não constavam nas notas fiscais dos clientes as placas dos nossos caminhões (se você souber como fazer isso, me ensine). Também recolho taxas absurdas,. No Rio Grande do Sul, por exemplo, um conjunto de licenças ambientais, além de demorar meses para sair, custa mais de R$ 220 mil (se alguém souber pra que servem essas licenças, me diga).

Tô reclamando porque isso tudo ainda acontece numa economia que não empata em crescimento sequer com as “potências” vizinhas, como Paraguai e Bolívia.

Tô reclamando porque essa conta não fecha. Quanto mais se arrecada, menos a economia cresce. Arrecada-se com voracidade de um leão e se devolvem os ossos para serem roídos pelo assistencialismo, que só faz garantir a perpetuação desse sistema perverso, através de um voto quase literalmente “comprado”.

Por fim, tô reclamando porque neste sistema, que transforma a pobreza em profissão, o remédio vai acabar por matar o paciente. Ou aprendemos que podemos criar um modelo em que a troca capital/trabalho se dá de forma construtiva, em que o que se dá (bolsas, casas etc.) implica receber algo me troca (voto não vale), ou todo mundo vai pro buraco. Empresários e miseráveis, todos juntos.

Não invista seu tempo respondendo a mim. Faça como eu e tente deixar de lado a ideologia. Reflita profundamente sobre se não a hora do próprio PT voltar para a oposição e se reinventar, colocando pra fora aqueles que dele se aproximaram com o único objetivo de roubar um pouco mais esse organismo moribundo que virou nossa economia. E também os que brigam pelo poder a qualquer custo e a qualquer preço, com reflexos letais para o conjunto da nossa sociedade.

Bom domingo pra nós todos!

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