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‘Pensamentos simples’, por J. R. Guzzo

Publicado na edição impressa de VEJA J. R. GUZZO O papa Francisco foi-se embora do Brasil, levando consigo a sensacional simpatia que promete fazer dele uma estrela internacional. Deixou para trás aquele sorriso capaz de desmanchar uma pedreira de granito, e lembranças que muita gente guardará para o resto da vida. O mais importante para o […]

Publicado na edição impressa de VEJA

J. R. GUZZO

O papa Francisco foi-se embora do Brasil, levando consigo a sensacional simpatia que promete fazer dele uma estrela internacional. Deixou para trás aquele sorriso capaz de desmanchar uma pedreira de granito, e lembranças que muita gente guardará para o resto da vida. O mais importante para o futuro, porém, são as primeiras pistas que Francisco foi colocando aqui e ali, muito discretamente, sobre suas ideias gerais a respeito de como enfrentar a ameaça mais perigosa que a Igreja Católica tem pela frente hoje: a perda lenta, gradual e segura de fiéis pelo mundo afora, cada vez mais desinteressados em questões de fé religiosa como um todo, e da fé cristã em particular.

Essa vazante é mundial ─ inclusive no Brasil, o país que a tradição diz ser o mais católico do mundo. Ano após ano, a Igreja de Roma vem perdendo fiéis brasileiros para religiões concorrentes, como os chamados cultos evangélicos, ou para a indiferença de um público muito mais interessado nas coisas materiais, que podem ser compradas com dinheiro e consumidas de imediato, do que nas coisas do espírito. Os seminários andam com taxas de ocupação abaixo do necessário, e em alguns dos países mais católicos da Europa já começa a haver mais igrejas do que padres.

Francisco, em sua visita ao Brasil, não tem uma solução clara para isso, nem para o caminhão de outros problemas que a Igreja Católica carrega hoje nas costas ─ da pedofilia, que leva cada vez mais famílias a não colocar seus filhos em colégio de padre, à corrupção vulgar de qualquer república bananeira. Nem Jesus Cristo em pessoa, se pudesse descer hoje à terra, conseguiria destrinchar a horrorosa variedade de estorvos que seus pastores foram criando ao longo de vinte séculos ─ não nos sete dias que Deus precisou para construir o mundo. O que pode fazer, diante disso tudo, um homem só, por mais papa e mais infalível que seja? Pode, para começo de conversa, mostrar uma qualidade preciosa em situações como essa: a capacidade de encarar situações complicadas com pensamentos simples. O papa Francisco parece capaz de fazer isso.

“Se uma pessoa é gay, procura o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?”, disse Francisco pouco depois de deixar o Brasil. Ele reclamou, é verdade, dos grupos gays que se formam para influir no Vaticano. Mas o que vale, mesmo, é a essência de sua convicção: sim, afirmou o papa, a pessoa pode ser gay e cristã ao mesmo tempo. Por que não? É o contrário do que sustenta há séculos a doutrina da Igreja, numa resistência teimosa, mesquinha e inútil à liberdade de costumes no mundo de hoje. Mas Francisco parece estar avisando que não pretende rezar exatamente por esse catecismo ─ e que não considera inteligente estreitar a porta de entrada na Igreja num momento em que o catolicismo perde um número cada vez maior de seguidores. Não parece fazer muito sentido, de fato, ficar com tanto enjoamento, numa hora dessas, para dizer quem está ou não qualificado para ser católico. Pelos critérios vigentes, um católico não pode ser gay, nem divorciado, nem casado com uma segunda mulher. Não pode usar camisinha. Não pode casar se quiser ser padre, e tem de casar se quiser viver com uma pessoa de outro sexo. Não pode aceitar o aborto, trabalhar em pesquisas com células-tronco ou descrer de milagres e de outras coisas que ofendem a lógica mais elementar. Não pode achar que o homem vem do macaco, nem que as espécies evoluem e se transformam com o passar do tempo. Não pode isso, não pode aquilo — são exigências demais. Pior: todas essas exigências não têm absolutamente nada a ver com nenhum valor moral. Uma pessoa pode levar uma vida perfeitamente exemplar, do ponto de vista moral, e ser divorciada, por exemplo. Por que, então, deveria estar excluída do catolicismo?

Eis aí o desafio real para a Igreja Católica de hoje: aceitar como cristã toda pessoa que viva com decência, tenha valores e se comporte segundo um código moral. Está tudo explicado no Sermão da Montanha, o texto mais importante do Evangelho e o primeiro guia de conduta apresentado à humanidade, junto com os Dez Mandamentos; é nele que Cristo ensina que o homem tem de ser honesto, tolerante e generoso, tem de dizer a verdade, saber perdoar e buscar a justiça, viver em paz e amar o próximo. Basta fazer o que está escrito lá ─ o que, por sinal, é muito difícil. Lembrar o Sermão da Montanha, que a Igreja jamais seguiu, poderia ser um bom começo para salvar o catolicismo no século XXI.

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  1. Comentado por:

    Antonio Aprisidio

    O cristianismo não é só a Igreja do Papa. Para qualquer cristão embasado nas Sagradas Escrituras este artigo são meras palavras ao vento que em nada acrescentam. Cristianismo é vivência e intimidade com uma Pessoa mui peculiar, JESUS CRISTO, o DEUS Criador, Autor e Consumador da Vida. Quanto à moral cristã, é baseado nela que as constituições dos países mais importantes do mundo foram elaboradas. “Modernidade” hoje, seria preterir destas máximas que têm segurado à humanidade por séculos ainda, embora em pilastras bambas sobre o alicerce da ROCHA Verdadeira. Muitas estruturas ruirão, entretanto quem permanecer na VIDEIRA VERDADEIRA herdará a Vida Eterna. Que DEUS tenha misericórdia de todos nós.

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  2. Comentado por:

    Carlos Caldas

    Os argumentos apresentados para mostrar as “proibições” da Igreja, relatando que essas pessoas são excluídas da Igreja, mostra que o autor não tem conhecimento do que está falando.
    È Necessário ler os documentos oficiais da Igreja para saber o que ele está falando.Infelizmente muitos falam da Igreja como “papagaio” repete o que ouve ou ler pensamentos não oficiais da Igreja, e sai falando ou escrevendo sem as informações corretas. O grande Papa Francisco, além do seu sorriso maravilhoso, não trouxe nada de novo para a Doutrina. Tudo que ele fala e vive são os ensinamentos deixados e vividos pelos católicos do mundo inteiro, pelo menos daqueles fiéis à Igreja de Roma. Para sermos justos devemos,pelo menos, divulgar as ideias da Igreja, do jeito que ela escreve e pensa e não do jeito de pessoas que “imaginam” o que a Igreja pensa e escreve.

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  3. Comentado por:

    Thales

    Isso mesmo! O problema da Igreja Católica é exatamente este: ela fica insistindo em ensinar os ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo!
    A Igreja e Sua Santidade têm que parar de condenar o aborto, a promiscuidade , a desintegração da família e todos estas tentações tão difíceis, tão complicadas de ser combatidas…
    Têm também de parar de dar graças pelos inúmeros milagres documentados, como as aparições da Santíssima Virgem Maria , as hóstias que sangram, as curas inexplicáveis, os estigmas, etc.
    Os padres deveriam poder casar e ter amantes, inclusive do sexo oposto!
    Deveriam ensinar também que os valores morais são todos bem relativos, que a consciência de cada um basta. O importante é dormir à noite tranqüilo, sabendo que fez seu melhor.
    Sinceramente, sr. Guzzo, sua opinião sobre o tema esta semelhante a que Frei Betto escreveu em O Globo e, perdoe a sinceridade, a que Leonardo Boff emitiu em seu blog.

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