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‘O rolezinho da presidente em Lisboa’, por José J. de Espíndola

JOSÉ J. DE ESPÍNDOLA* Dilma Rousseff embarcou em Zurique, na Suíça, e fez escala “técnica’, segundo informa, em Lisboa. A escala foi necessária, informou a presidente, porque o seu avião, o Aerolula (também conhecido como Força Aérea 51), não tem autonomia para voar, sem reabastecimento, de Zurique a Havana. Esta é a história contada. Vamos […]

Por Augusto Nunes - Atualizado em 16 fev 2017, 10h16 - Publicado em 30 jan 2014, 16h04

JOSÉ J. DE ESPÍNDOLA*

Dilma Rousseff embarcou em Zurique, na Suíça, e fez escala “técnica’, segundo informa, em Lisboa. A escala foi necessária, informou a presidente, porque o seu avião, o Aerolula (também conhecido como Força Aérea 51), não tem autonomia para voar, sem reabastecimento, de Zurique a Havana. Esta é a história contada. Vamos aos fatos reais.

O Aerolula é um A319 CJ, jato corporativo fabricado pela Airbus. O modelo do qual deriva é um A319, muito usado pela TAM em voos de curtas e médias distâncias. O modelo A319CJ, corporativo e derivado do A319 comercial, foi adaptado para longas distâncias, pela adição de novos tanques e para um número menor de passageiros.

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Sua capacidade, dependendo do layout adotado, varia de 10 a um máximo de 39 passageiros, ou um pouco mais. Sua autonomia de voo, para o caso de dez passageiros, é de 11.650 km.

Entretanto, a autonomia de voo (MTOW) específica do Aerolula, que se vê informada no site, é de reduzidos (em relação a 11.650 km) 8.500 km. Oito mil e quinhentos quilômetros! Isto significa que o Aerolula foi configurado para um número máximo de passageiros (claro, é assim que as coisas são neste país: turismo e regabofe para o máximo de pessoas, quando quem paga é o contribuinte).

A distância (geodésica, isto é, levando em conta a curvatura da Terra) entre Zurique (Suíça) e Havana (Cuba) é de 8.044,76 km. A diferença entre a autonomia de voo do A319CJ da FAB e a distância geodésica entre Zurique e Havana é: 8.500 – 8044, 76 = 455,24 km (quatrocentos e cinquenta e cinco quilômetros e duzentos e quarenta metros). Isto é mais do que a distância entre Florianópolis e São Paulo (490,11 km).

As informações acima põem sérias dúvidas sobre a veracidade da alegação de que, por falta de autonomia do Aerolula, a escala em Lisboa foi ‘técnica’, isto é, teve de ser feita. Ao menos que a FAB dê uma explicação mais convincente (algo que supere os dados levantados acima), no que não acredito, tendo a pensar que Dilma mente, o governo mente. Certamente mentir não é uma novidade no governo do PT desde 2005, quando Lula começou a alegar que nada sabia do mensalão.

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Mas, por mais esclarecedores que os dados acima possam ser, o mais importante ainda está para ser dito, e aí dou meu testemunho.

Em julho de 1972, aterrissei às 23 horas na mesma Lisboa de Dilma, vindo de Roma. Só que naquela época o avião era um Boeing 707-320 Intercontinental, equipado com quatro motores turbojets da Pratt & Whitney, insaciáveis bebedores de combustível. Os motores do Aerolula são modernas máquinas turbofans, muito mais econômicas em termos de consumo de combustível por quilômetro voado, além de menos ruidosas.

Aqueles Boeings históricos carregavam o máximo (em voos intercontinentais) de 23000 US gallons, ou 87.000 litros de combustível para o transporte de, no máximo, 141 pessoas. Já o Aerolula recebe um máximo de 41.000 litros. Ou seja, o tempo de reabastecimento do Aerolula, em Lisboa, forçosamente foi bem menor do que o do meu Boeing 707-320, de 1974.

Por que faço essas comparações? Só para dizer que o tempo de parada do meu 707–320 no aeroporto de Lisboa foi de aproximadamente uma hora. Ou seja, lá pelas 0h30 estava ele decolando rumo ao Rio. Ora, além da suspeitosa razão ‘técnica’ para a escala do Aerolula, como já demonstrado acima, é preciso registrar que, certamente em menos de uma hora (às 18h30, portanto), a presidente e sua entourage já poderiam estar voando para La Habana, si señor.

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Como a decisão da presidente foi permanecer em Lisboa, em vez de esperar uma hora (quando muito!) para reabastecimento, concluo que só houve realmente uma razão real para isso: abastecer-se a si própria e a sua (come)tiva, em um regabofe fantástico, pago com o dinheiro do contribuinte. Não há como contornar esses fatos aqui arrolados.

O valor gasto nas hospedagens (caríssimas!) e no reabastecimento da presidente e sua (come)tiva não é a razão principal da minha indignação pessoal: o Brasil não irá à falência por causa disso. As despesas decorrentes de sua (sim, sua!) decisão de pernoitar em Lisboa são infinitamente importantes pelo seu simbolismo: foi um  espetáculo de desconsideração de Dilma e seu grupo para com o povo humilde do Brasil. A farra gastronômica foi um deboche jogado na cara do contribuinte. As mentiras para justificá-la apenas agravam a falta de respeito e desconsideração.

Ah, sim, a presidente garante que todos pagaram de seus bolsos as contas, como se a questão do rolezinho em Lisboa se limitasse a isso. Quem acreditar que cada um dos participantes realmente pagou alguma coisa ganha um A319CJ corporativo.

*José J. de Espíndola  é PhD, Dr.h.c, é Professor Titular da Universidade Federal de São Carlos, Departamento de Engenharia Mecânica, aposentado

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