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‘O reverso da moeda’, por Dora Kramer

Publicado no Estadão deste domingo DORA KRAMER Recolhidas de volta às redes sociais, as manifestações que reivindicam com clareza melhoria nos serviços e decência na conduta de governantes deram lugar nas ruas a grupos cuja expressão de violência só não pode ser chamada de gratuita porque custa caro. Seja pela conta alta a ser paga […]

Publicado no Estadão deste domingo

DORA KRAMER

Recolhidas de volta às redes sociais, as manifestações que reivindicam com clareza melhoria nos serviços e decência na conduta de governantes deram lugar nas ruas a grupos cuja expressão de violência só não pode ser chamada de gratuita porque custa caro.

Seja pela conta alta a ser paga pelo contribuinte para recuperação de depredações a prédios públicos ou pelos prejuízos impostos por ataques a estabelecimentos privados destruídos e até saqueados quando delinquentes se juntam aos ditos anarquistas.

Custam caro também os transtornos impostos aos cidadãos que precisam todos os dias dar conta de seus afazeres. Manchete da edição de sexta-feira de O Globo retratava bem o drama: “Duzentos param o Rio por sete horas”.

Tratava-se de um ato na Câmara dos Vereadores onde nove jovens estão acampados há dias do lado de dentro enquanto de fora um grupo agride quem acha que deve agredir ─ políticos, funcionários e jornalistas que lhes desagradam, embora deem repercussão ao movimento.

Fechada a principal avenida do centro da cidade de manhã até de tarde, os engarrafamentos se espalharam por bairros nas zonas sul e norte. Repetição do transtorno geral visto também em outras cidades e ocasiões para a população que apoia reivindicações por melhorias.

E aí se estabelece uma nítida diferença entre o óbvio direito ao protesto e o tipo de ação a que o ex-prefeito do Rio e hoje vereador Cesar Maia dá o nome de guerrilhas urbanas. Não assaltam, como na luta armada, mas atacam agências bancárias a título de atingir um dos símbolos do capitalismo.

Radicalizam, pegam o poder público de calças curtas, são vistas com benevolência, pois supostamente têm o mesmo caráter das manifestações que levaram milhões às ruas em junho e podem voltar a qualquer momento quando algum fato, evento ou data acender a fagulha que faz a massa sair de casa. Estas não têm a motivação daquelas.

Apenas aproveitam-se delas. Da seguinte maneira: como os governantes se assustaram, saíram cedendo tudo sem negociação ─ até por ausência de instância de mediação ─ fragilizaram-se, passaram a mensagem de que é batendo que se recebe e não sabem como reagir.

As polícias ou exorbitam ou se intimidam e, assim, tem-se um poder público completamente acuado ante a balbúrdia. Aí incluídos partidos e políticos que evitam criticar para não parecer que estão contra o direito ao protesto. Ademais, não sabem o que dizer. Parados e calados esperam a poeira baixar.

E aqui voltamos a Cesar Maia, que desde 1997 se movimenta na esfera da internet. Ele considera que a explosão de junho era tão previsível como inevitável, faz interlocução política por meio das redes e está convicto: a poeira não baixa.

“A sociedade civil organizada foi substituída pela sociedade civil mobilizada e os governantes, partidos e políticos não sabem como dialogar com ela.” De onde não separam manifestações de atos meramente desordeiros. Ficam reféns destes e os excessos prosperam.

Na visão dele, a radicalização da desordem pode levar ao reforço de um discurso conservador sustentado pelo clamor popular pelo estabelecimento da ordem e a defesa do conceito de autoridade.

Isso na melhor das hipóteses, porque a depender do desenrolar dos acontecimentos, se a democracia representativa não se atualizar, acabará dando margem a demandas autoritárias. Nisso é que Cesar Maia enxerga riscos, não no pensamento dito de direita. Ele mesmo um representante desse segmento e já eleito prefeito com a bandeira da ordem numa época em que o Rio era assolado por arrastões.

Para a solução autoritária, diz, falta o personagem. Mas o caldo de cultura estará pronto se o poder público não sair da paralisia, buscar entender o processo, diferenciar confronto de manifestação e saber dar a cada qual o tratamento adequado.

Comentários
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  1. Comentado por:

    DAVID

    Estes grupos radicais certamente estão a soldo de algúem,bastaria a imprensa do oba oba fizesse seu trabalho de casa e expusesse os fatos de direito e não esta vergonha nacional do adesismo em que em grande parte da imprensa fez, mídias ninjas, passes livres, foras dos eixos, nenhum é independente, o mantra ” A manifestação começou pacífica e terminou com vândalos” é de uma vigarice intelectual que francamente é de chorar

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  2. Comentado por:

    Alexandre

    Dificil a maioria diferenciar enquanto a Globo teima em mostrar a manifestação como confronto. Aliás, citar reportagem do Globo é desqualificar qualquer materia, o Globo dá – sem exagero – 10 vezes mais espaço ao vandalismo do que as manifestações reais. Vandalismo é bandidagem e devem ser tratados como tal. Mas seria bom a impressa como um todo o mesmo tratamento aos vândalos misturados as manifestações e aos políticos vândalos de cada dia.

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  3. Comentado por:

    Renato Carvalho

    É claro, óbvio, cristalino, que essas milícias que querem parecer “protestantes” estão a soldo do governo. Posso provar? Não, mas tenho uma certeza inabalável. A diferença de atitudes entre os verdadeiramente indignados e os brucutus alugados é evidente demais pra que se tente enfiar os 2 no mesmo saco. Para as pessoas comuns, normais, a confrontação física, o quebra-quebra, a violência, são insuportáveis, tanto ou mais do que a própria corrupção, que é, em essência, a reclamação-mor na casa da mãe joana, também conhecida como brasil.
    Vi há poucos dias um vídeo sobre 2 prefeitos que fizeram acontecer em Bogotá, em governos sucessivos (1º um, depois o outro, sem serem aliados, sem fazer acordos), mostrando que a melhora das condições de vida da população depende única e exclusivamente de QUERER, de ser honesto – QUE NADA MAIS É DO QUE OBRIGAÇÃO -, de assumir o compromisso de beneficiar e facilitar a vida de TODOS, SEM DISTINÇÃO E PRIVILÉGIO. Resumindo: qualquer coisa que não seja simples e direto ao ponto assim, é papo furado e tem pilantragem e interesse pessoal se insinuando logo de cara. É o berço da corrupção. Os assim chamados “homens brasileiros” são vergonhosamente poucos e pequenos. Não tem rigorosamente nenhum que mereça um olhar de respeito e admiração além do Romário, por quem sempre tive. Personalidade independente e caráter inatacável (sempre assume tudo de frente e cabeça erguida), Romário é, entre os parlamentares, a única voz a atravessar a entediante lenga-lenga monocórdia dos políticos experts em dizer nada sobre qualquer coisa. Eles sabem o que precisa ser feito e como. Só que, paradoxalmente, não têm tempo nem pressa. Tempo porque todo ele é pouco e precioso quando se trata dos seus interesses pessoais, única razão para investirem na carreira. E nenhuma pressa pra fazer o que tem que ser feito, única razão pela qual o eleitor o colocou no lugar que está. Mas o que tem que ser feito não necessariamente é do seu interesse pessoal, quer dizer, ele não vai ganhar uma gorda comissão. E todos sabemos que a maioria dos que ocupam os ditos cargos importantes são bandidos da pior laia e que estão roubando descaradamente – vide Sarney, Lula, Barbalho, Sergio Cabral, Calheiros, Henrique Alves, Arruda, Roriz, Agnelo Queiroz, os mensaleiros todos, um juiz da Suprema Corte que advoga em defesa e faz chicanas sem o menor pudor e vergonha na cara, um ministro que dá asilo a assassino, uma presidente que envergonha qualquer pessoa sensível pra quem a beleza é um presente dos deuses e a estética um valor fundamental inseparável da essência da vida, uma figura nojenta e asquerosa como o Lula iludindo zilhões de idiotas de beiço caído, e por aí vai. Que raio de país é esse? Que realidade é essa que querem nos impor como se fosse normal e corriqueira e devêssemos a ela nos acostumar? E a própria imprensa se encarrega de cristalizar essa situação ao comentar fatos inadmissíveis como sendo, apenas, parte de um jogo em que as regras não podem ser mudadas. Ou seja, é ruim, mas não tem outro melhor. Balela! Tem, sim, é só querer. Mas qual dos ases do jornalismo está disposto a arriscar sua bem sucedida carreira em prol de uma possibilidade nova mas desconhecida?
    Falta homem (e mulher) de coragem nesse país. É um povo de caráter duvidoso, inseguro, intelectualmente preguiçoso e irresponsável que faz do papel de vítima o seu personagem constante. Não é surpresa que a figura do Joaquim Barbosa tenha se tornado tão emblemática. Em terra de cego…

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  4. Comentado por:

    José

    Na minha opinião, só há uma maneira. Identificar e fichar. Processar por formação de quadrilha, depredação de patrimônio e algo que doa no bolso deles e leve-os à cadeia. Depois antecipar as eleições. Colocar quem se acha com legitimidade para lidar com esse povo. Basicamente os atuais governantes só pensam em reeleição e por conta disso não agem. Com o tempo provavelmente não farão nada também, pois só pensarâo na reeleição. O grande mal que Lula e Cia trouxeram, não foi a corrupção, mas o vale tudo geral. A mentira e o aparelhamento rasteiro da Administração Pública levou a esta situação. Precisamos reabilitar o compromisso com a verdade. O que pensam verdadeiramente nossos candidatos? Hoje tudo se resume ao discurso fácil de dar dinheiro para educação e para saúde.

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