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‘O bonde não para’, por J.R. Guzzo

PUBLICADO NA EDIÇÃO IMPRESSA DE VEJA J.R. GUZZO Que sina infeliz é essa que parece perseguir sem descanso o ex-ministro, ex-deputado e ex-todo-poderoso José Dirceu? O homem não tem sossego. Passou a vida inteira numa luta desesperada para chegar ao poder: quando chegou, enfim, não conseguiu ficar lá mais que dois anos, quando foi jogado […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 07h17 - Publicado em 4 dez 2012, 14h51

PUBLICADO NA EDIÇÃO IMPRESSA DE VEJA

J.R. GUZZO

Que sina infeliz é essa que parece perseguir sem descanso o ex-ministro, ex-deputado e ex-todo-poderoso José Dirceu? O homem não tem sossego. Passou a vida inteira numa luta desesperada para chegar ao poder: quando chegou, enfim, não conseguiu ficar lá mais que dois anos, quando foi jogado para fora sem a menor cerimônia pelo ex-presidente Lula, em quem tinha apostado até seu último tostão. Tudo dá errado para ele. Lula, conforme os fatos não param de provar, trouxe para o centro do governo brasileiro, dez anos atrás, uma tropa de batedores de carteira como raramente se viu neste país: qualquer exame de laboratório mostra que está aí, quando se raspa o verniz da propaganda, o DNA de sua passagem pela política nacional. Esse bonde não para. Começou a andar em 2003, antes de se completar o primeiro mês do governo Lula, com a dupla Marcos Valério-Delúbio Soares já funcionando a toda na montagem da coleção de crimes à qual se deu o nome de mensalão. Continua andando até hoje: sua última aparição é neste miserável escândalo dos “bebês de Rosemary”, episódio que serve como uma das melhores fotografias jamais tiradas do dia a dia da governança petista, tal como ela é na vida real. Mas a verdade é que vivemos num mundo imperfeito. Lula conserva seus belos 100% de popularidade, já é apontado como o próximo governador de São Paulo e continua sendo considerado por seus admiradores como o homem mais perfeito que o mundo conheceu desde Adão e Eva. Já o seu sócio Dirceu, que não fez nem mais nem menos do que ele, hoje é apenas um cidadão condenado por corrupção ativa e formação de quadrilha, com uma sentença de onze anos de cadeia nas costas. Mal pode sair à rua. Sua prioridade, no momento, é tentar manter-se do lado de fora do sistema penitenciário.

A última coisa de que Dirceu precisava, a esta altura, era mais um caso de ladroagem no governo ─ mas é justamente o que acaba de lhe acontecer, ao ver seu nome metido logo na cena inicial do escândalo do dia. A Rosemary dessa história é uma certa Rosemary Nóvoa de Noronha, chefe do gabinete da Presidência da República em São Paulo até ser posta na rua dias atrás, e seus bebês são os irmãos Paulo e Rubens Vieira, que encaixou em cargos com alto potencial de rentabilidade no governo e hoje estão no xadrez — todos indiciados pela Polícia Federal por grossas suspeitas de corrupção, tráfico de influência, falsificação e sabe-se lá o que mais ainda. Rosemary, ou Rose, é produto de procedência garantida: trata-se de puro Lula, que a nomeou para o cargo em 2003, levou consigo em trinta viagens internacionais e aceitava suas indicações para empregos gordos na administração pública. Sua traficância não se fazia num subúrbio remoto do poder, mas praticamente dentro do gabinete de Lula e da presidente Dilma Rousseff. Nesses dez anos de bonança, junto com a dupla de irmãos, transformou o escritório paulista da Presidência num bazar de compra e venda onde oferecia à sua clientela uma extensa gama de mercadorias ─ licenças, pareceres, cargos, senhas de acesso, verbas, documentos falsos e por aí afora, em troca de dinheiro ou de presentes como cirurgias plásticas, camarotes de Carnaval ou cruzeiros marítimos. Era uma operação multimarcas: negociava-se ali com contêineres, celulose, privatização de ilhas, faculdades particulares, terminais portuários. Rose também não se esqueceu, é claro, de socar uma penca de parentes em empregos no governo.

Quem diz Rose diz Lula, mas sobrou, como de costume, para José Dirceu. Mal se falou o nome dessa nova heroína do PT e já vinha junto o carimbo “J.D.” ─ a moça trabalhou doze anos na copa e cozinha de Dirceu, e foi ele o primeiro protetor a quem Rose telefonou quando apareceu a polícia. Desta vez o ex-homem forte nem teve ânimo para fingir que continua forte: disse apenas que não podia ajudar em nada. E Lula? Como sempre acontece nessas horas, ele sumiu do mapa e deixou claro que a amiga deve se virar sozinha: não pediu que Dilma a segurasse na cadeira, e se pediu não foi atendido, nem insistiu. Por que haveria de fazer algo diferente? Vai ficar tudo na conta de Zé Dirceu, ou da “mídia golpista”, embora, desta vez, a mídia golpista não tenha tido a menor ideia do que estava acontecendo ─ foi a própria presidente quem fez o rapa na área, antes que saísse uma única palavra na imprensa. Tanto faz. O que interessa a Lula é uma coisa só: que todos continuem fazendo de conta que ele não tem nada a ver com a usina de corrupção inaugurada no Brasil em janeiro de 2003. É tudo culpa do Zé.

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