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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

‘A falsa boa ideia’, por Carlos Brickmann

Publicado na Coluna de Carlos Brickmann Hemingway dizia que, para escrever um livro, levava determinado tempo; e, para cortar o texto até chegar à versão definitiva, um tempo muito maior. Uma reportagem não é um apanhado de fatos que se passam por realidade; uma reportagem é algo trabalhado, pensado, articulado, hierarquizado, com mais espaço para […]

Por Augusto Nunes - Atualizado em 17 fev 2017, 09h18 - Publicado em 14 ago 2013, 17h34

Publicado na Coluna de Carlos Brickmann

Hemingway dizia que, para escrever um livro, levava determinado tempo; e, para cortar o texto até chegar à versão definitiva, um tempo muito maior. Uma reportagem não é um apanhado de fatos que se passam por realidade; uma reportagem é algo trabalhado, pensado, articulado, hierarquizado, com mais espaço para o que é mais importante, tudo dentro do panorama geral dos acontecimentos. Como ensinava o Jornal do Brasil dos bons tempos, o fato mais importante vinha no lead, o segundo no sub-lead, e a história se seguia no restante da matéria. Fazer uma reportagem não é amontoar fatos, mas dar-lhes sentido.

E os ninjas? Os ninjas são um fenômeno relativamente novo (os repórteres-abelha, lançados por Fernando Meirelles no TV-Mix, da TV Gazeta, faziam algo semelhante, embora mais bem trabalhado, mesmo não dispondo dos equipamentos hoje existentes). Foram importantíssimos para mostrar as imagens das manifestações de rua, num momento em que as principais tevês, por motivos diversos, não conseguiam cobri-las; levaram grandes emissoras a trabalhar mais ou menos da mesma maneira, com repórteres utilizando câmeras leves e links nas mochilas; mas, excetuando-se os maníacos da telinha, que ficavam horas assistindo às passeatas, era difícil encontrar muita gente com disposição para assistir à movimentação constante, aos ruídos, à gritaria ─ e, especialmente, à quantidade de informações partidárias com rótulo de apartidárias.

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Nada contra os ninjas: que busquem seu lugar ao sol, abrindo possivelmente uma nova fórmula, que ainda será preciso desenvolver, de telejornalismo. Mas tudo a favor da reportagem que, feita por profissionais talentosos e bem equipados, possam mostrar não apenas as imagens da correria, mas o que está de fato acontecendo. A cobertura ninja não mostrou, por exemplo, nem poderia mostrar, quais correntes políticas apoiavam cada uma das manifestações, e com que interesses. Mostrou, o que foi ótimo, várias tentativas de policiais de incriminar manifestantes; mostrou, o que foi ainda melhor, pelo menos um manifestante que, depois de jogar coquetéis Molotov e provocar incêndios, correu em direção aos policiais, foi recebido por eles, que lhe deram um uniforme para cobrir as roupas civis, e misturou-se ao grupo que reprimia a manifestação. Ficou claro, ali, algo que parecia evidente, mas que ainda não havia sido comprovado: a presença de agentes provocadores, sabe-se lá com que objetivos. Mas, muitas vezes, a cobertura ninja lembrou um famoso juiz de futebol, Alcebíades de Magalhães Dias, que virou uma lenda no nosso futebol.

Num jogo há muitos e muitos anos entre o Botafogo do Rio e seu time de coração, o Atlético Mineiro, o botafoguense Santo Cristo e o atleticano Afonso discutiam quem tinha direito a repor a bola que saíra pela lateral. O juiz decidiu: “Bola nossa! Afonso, é bola nossa”. Ficou conhecido como Cidinho Bola Nossa.

No caso dos ninjas, não há dúvida sobre o partido que apoiam, embora insistam (tanto eles quanto seus financiadores, o grupo Fora do Eixo) em garantir que não têm qualquer ligação com partido algum.

Mas não desviemos o assunto: independentemente de quem apoiem ou não, o problema é que a exibição desordenada de imagens e fatos pode até representar uma franja do jornalismo, mas definitivamente não é nem revolução nem tendência a ser seguida.

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Da mesma forma que dicionário, embora contenha milhares de palavras, mais palavras do que qualquer outro livro, não é literatura.

A força da marca
A família Graham, que nos tempos da matriarca Katherine desafiava o The New York Times e o Wall Street Journal com seus Washington Post e Newsweek, chegou à conclusão de que não tem condições de manter-se na luta dos jornais impressos. “Depois de anos de desafios como indústria familiar de jornais, imaginamos que um novo proprietário seria melhor para o Post“, disse Donald Graham, supremo dirigente da empresa, da quarta geração de donos do jornal. “A tecnologia e o talento para negócios do sr. Bezos, sua visão de longo prazo e sua honradez pessoal o tornam um proprietário ideal para o Washington Post” .

Mas, se a coisa está tão complicada, por que Jeff Bezos, criador e comandante da Amazon, a rede virtual de livrarias que revolucionou o mercado, decidiu entrar no negócio? Para perder dinheiro, mesmo em nome da preservação de um patrimônio do jornalismo mundial, do jornal que revelou o caso Watergate e foi o principal responsável por Richard Nixon ter deixado a Presidência americana, é que não é. E por que justo ele, que mostrou que é possível vender livros que não usam papel, investe num jornal impresso, cuja circulação caiu 7% neste primeiro semestre, cuja receita operacional caiu 44% nos últimos sete anos?

Ao que tudo indica, Bezos pensa em manter e fortalecer ao máximo a edição impressa do Washington Post ─ menos pelo potencial de gerar receita do jornal, mais pela utilização de uma das marcas mais valiosas do mercado jornalístico internacional. E como irá ele utilizar essa marca? Excelente pergunta ─ e, se este colunista soubesse respondê-la, certamente estaria em situação financeira bem melhor que a atual (e não esqueceria nenhum de seus amigos, claro). Mas, com certeza, ao remar na direção oposta à que quase todos dizem ser uma tendência de mercado, Bezos acredita na sobrevivência do jornal de papel por tempo suficiente para, pelo menos, recuperar o investimento e ganhar alguma coisa.

A propósito, esta é a segunda vez em que o Washington Post enfrenta uma crise que o obriga a trocar de donos. A última ocorreu em 1933, quando o jornal, falido após a grande crise de 1929, foi a leilão. O financista Eugene Meyer o comprou por pouco mais de US$ 800,00. Não dá nem dois mil reais.

Batendo duro
O jornalista e professor Cláudio Tognolli, observador atento do panorama jornalístico, acha que empresários como Jeff Bezos vão cada vez mais comprar jornais. “Vão ser a garantia de imparcialidade contra a compra de blogs por governos”.

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