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Alon Feuerwerker Por Alon Feuerwerker

O Itamaraty tem o know-how

Se o Brasil precisa dos EUA, estes também precisam do Brasil

Por Alon Feuerwerker Atualizado em 13 nov 2020, 09h12 - Publicado em 13 nov 2020, 06h00

O poder militar depende também da força não propriamente armada. Precisa, antes de tudo, de algum consenso interno. Os pais devem estar convencidos da justeza de mandar os filhos arriscar a vida. E precisa de justificativas morais. Pode ser levar a “civilização” para subjugar a “barbárie”, como foi o caso na expansão colonial. É um exemplo. Há muitos.

Todo país que guerreia procura fundamentar a ação em valores morais, de preferência universais. Chamou atenção no discurso inaugural do presidente aritmeticamente eleito Joseph Biden ele lembrar que os Estados Unidos devem liderar pela força do exemplo, não pelo exemplo da força. O problema é que a primeira costuma precisar do segundo.

Enquanto o imbróglio jurídico-político agita os EUA, sobra nas nossas paragens um tempinho para o Brasil ver como vai navegar nos novos ventos da geopolítica global. E aqui aparece um ponto imediato, diretamente relacionado ao esforço de reconstrução da “superioridade moral” americana, necessário para tentar retomar sua contestada hegemonia.

Biden tem assuntos complicados. O mais visível é a Covid-19. O mais difícil é como impedir a China de continuar abrindo vantagem econômica e tecnológica. O primeiro desafio uma vacina deve resolver, e a dúvida não é “se”, mas “quando”. Já o segundo é bem mais complicado. E Donald Trump terminou ajudando a complicar mais.

“Já fizemos isso em outras épocas, não é preciso inventar. Competição e cooperação não são antagônicas”

A guerra comercial trumpista contra os chineses acabou dando a Pequim um argumento definitivo para buscar o que ainda não possui de autossuficiência tecnológica e científica. E não esqueçamos que a China dispõe de um mercado interno suficiente para resistir ao fechamento de mercados externos. É um adversário cada vez mais duro de roer.

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E tem também as guerras eternas, frias ou quentes, no Oriente Médio. Um mérito de Trump, até o momento em que esta coluna estava sendo escrita, foi não ter começado nenhuma. Haverá na sociedade americana disposição para reenveredar por uma política à George W. Bush? Mesmo sem um novo World Trade Center? Difícil.

Tudo muito complicado. Entretanto, há uma frente mais fácil, na qual Biden enfrentará menos resistência para avançar. Depois que ele arrebatou a decisiva Pensilvânia mesmo com os republicanos acusando-o de querer acabar com os combustíveis fósseis, o caminho está aberto para centrar fogo na política ambiental.

E neste ponto o Brasil arrisca deixar-se encaixotar no papel de sparring. O quadro internacional para nós é ruim. E basta ver a crescente de políticos locais, da esquerda à direita, oferecendo-se a Biden em troca de um eventual apoio, ou simpatia, em 2022, para notar que agora o bolsonarismo precisará travar a guerra em duas frentes. Sempre complicado.

Mas o Brasil tem trunfos. Se precisa dos EUA, estes também precisam do Brasil. E se há uma disputa geopolítica global, os não protagonistas podem e devem usar a inteligência para equilibrar-­se e buscar ganhos. Já fizemos isso em outras épocas. Não precisamos inventar. Competição e cooperação não são antagônicas. O Itamaraty tem o know-how. É só tirar do arquivo morto e usar.

Publicado em VEJA de 18 de novembro de 2020, edição nº 2713

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