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O conservadorismo de colarinho azul

A volta do "conservadorismo popular" renova a direita e ameaça a esquerda identitária e pós-modernista

Por Alexandre Borges - 17 dez 2019, 15h58

O ex-senador republicano Rick Santorum, católico, filho de um imigrante italiano e pai de oito filhos, participou das primárias do partido para a eleição presidencial de 2012 com uma proposta aparentemente radical: um conservadorismo popular, conectado com o sentimento dos “colarinhos azuis”, os operários e trabalhadores que sofriam com a desindustrialização acelerada, a invasão sem controle de mão-de-obra barata via imigração ilegal e o desemprego galopante em diversos setores do país. Sua campanha não decolou, o escolhido na época foi o milionário “moderado” Mitt Romney, mas uma semente foi plantada.

Em meados de 2014, Santorum foi convidado para uma conversa particular em Manhattan com Donald Trump. Ao entrar na principal sala da Trump Tower, uma cópia do seu recém-lançado livro “Blue Collar Conservatives” estava na mão do homem do topete laranja. “Li seu livro”, disse Trump arrancando uma gargalhada incrédula: “leu nada!”, retrucou. Trump não apenas leu como comentou as principais passagens com Santorum e terminou com um elogio: “é um grande livro”. Um ano depois, o bilionário se lançou pré-candidato republicano com um discurso alinhado às principais teses de Santorum e o resto é história.

Em “Blue Collar Conservatives”, Santorum defende que “não adianta ganhar a discussão em temos de filosofia política, capacidade de liderança e competência gerencial se os eleitores não sentem que você realmente se preocupa com eles”. Conservadores, para ele, adoram repetir a frase de John Kennedy “a maré alta eleva todos os barcos” esquecendo que muitos destes barcos “têm furos no casco”. O ex-senador acredita que “se não mostrarmos ao desempregado e ao trabalhador que passa necessidade que estamos com ele e vamos ajudar sempre que possível”, que eles são “a espinha dorsal da América”, é quase impossível vencer eleições.

A direita britânica começou a abandonar o tom elitista e retornar ao conservadorismo raiz de Benjamin Disraeli e Margareth Thatcher em 2015 quando o primeiro-ministro David Cameron, um ex-aluno de Oxford e descendente do rei Guilherme IV, num arroubo de confiança depois de uma vitória consagradora na eleição geral daquele ano, decidiu promover um referendo sobre a permanência do Reino Unido no Leviatã da União Européia.

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O bloco europeu é um corpo alienígena de burocratas sem rosto que, na visão dos defensores do Brexit, usurpa o poder de decisão sobre economia, política, imigração, meio ambiente, entre outros itens que definem a soberania das nações que compõem o bloco. Cameron estava tão certo do resultado que desafiou: se o eleitor decidisse sair da União Européia, ele entregaria o cargo. Sua renúncia foi confirmada em julho de 2016.

A vitória avassaladora de Boris Johnson e novamente do Brexit na semana passada foi comemorada, entre outros, pelo ex-estrategista de campanha de Trump, o polêmico Steve Bannon, que anda em baixa mas ainda tenta voltar ao centro do palco político mundial. “É uma vitória do populismo”, diz Bannon numa entrevista recente ao jornal britânico The Guardian, tentando tirar uma casquinha indevida do êxito de Boris Johnson. Populismo é um termo demonizado por muitos mas festejado pelos seguidores de Bannon que entendem a idéia como uma conexão direta entre representantes e representados contra elites e corporações cada vez mais alienadas do sentimento geral da população.

O discurso popular (e nada populista) de Johnson contrastava com seu detestável opositor Jemery Corbyn, um comunista ligado a grupos islâmicos radicais que, entre outros absurdos, tinha dificuldades de condenar publicamente o antissemitismo crescente no próprio partido, cada vez mais extremista. O resultado da última eleição foi a pior derrota dos trabalhistas desde 1935. Como previu Tony Blair em 2015, quando o novo líder do partido foi anunciado, “a escolha de Corbyn será a morte do Partido Trabalhista”.

O renascimento de um “conservadorismo popular” no mundo e a reconexão explícita da direita ocidental com os valores mais caros da população preenche um espaço deixado pela esquerda contemporânea, cada vez mais hipnotizada por pautas elitistas como o alarmismo ambiental, políticas de imigração sem controle, abolicionismo penal e certa leniência com o crime, o combate à “desigualdade” com aumento da carga tributária e do intervencionismo estatal que tira o foco da geração de oportunidades e crescimento econômico, além da promoção de um certo hedonismo niilista que quer, basicamente, fazer do mundo uma nova corte de Calígula.

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Quanto mais a esquerda insistir na radicalização ideológica com pautas que interessam apenas a uma certa elite urbana, os conservadores terão motivos para comemorar.

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