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Alberto Carlos Almeida Por Alberto Carlos Almeida Opinião política baseada em fatos

EUA, Irã e o nosso tribalismo

EUA versus Irã, Europa versus China e Rússia, capitalismo versus ex-comunismo, Ocidente versus Oriente, cristãos versus muçulmanos, Fla-Flu

Por Alberto Carlos Almeida - 8 jan 2020, 12h01

O homem é uma espécie tribal. A primeira cooperação entre os seres humanos foi de irmão com irmão para enfrentar os primos. Em seguida irmãos se uniram com os primos para combaterem os parentes distantes. Depois irmãos unidos com irmãos, primos e parentes distantes passaram a competir contra grupos vizinhos sem parentesco algum. Houve um longo processo de ampliação da cooperação tribal até que fossem formadas nações ou países, dentro dos quais os compatriotas colaboram entre si e entram em conflito com outros países.

O conflito armado, a guerra, explicita como é o ser humano. Temos uma natureza duplex, inserida inclusive em nossa genética. Sobreviveram os seres humanos egoístas, o gene egoísta, aqueles que lutaram com unhas e dentes para passar adiante seus genes individuais. Porém, há também o egoísmo de grupo, o grupoísmo. Isso permitiu que dominássemos o mundo. A partir do momento em que as primeiras tribos foram formadas, aqueles que se tornaram maiores e mais cooperativas venceram as tribos menores e nas quais a cooperação não era cumprida com afinco por todos os seus membros.

O conflito entre Estados Unidos e Irã, entre Ocidente e Oriente, entre cristãos e muçulmanos apenas explicita de maneira cruel como somos. Vivemos conflitos tribais no esporte, quando todas as demais torcidas do Rio de Janeiro querem que o Flamengo seja derrotado tanto na Libertadores quanto no Mundial de Clubes. Toda Olimpíada retrata conflitos tribais: a cada edição há uma disputa para ver qual país ganhará mais medalhas de outro, qual melhorou mais de uma olimpíada para outra, qual é melhor no atletismo, na natação ou nos esportes coletivos.

Vivemos conflitos tribais na política entre direita e esquerda, entre bolsonaristas e petistas, entre os que simpatizam e apoiam a direita populista a lá Boris Johnson e Marine Le Pen e os que preferem a vitória de forças não-populistas como Macron e Angela Merkel. No esporte e na política ambos os conflitos tribais são pacíficos, ainda que na política o resultado de tais disputas defina vencedores e perdedores quanto à melhoria do bem-estar individual e familiar. O fato é que em todo conflito tribal primeiro as pessoas se posicionam, depois justificam racionalmente suas escolhas.

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É justamente por isso que circulam hoje nas redes sociais um discurso de um veterano de guerra dos EUA, de 2010, atacando as intervenções armadas de seu país, e outro vídeo com uma pessoa vestida de árabe jogando um mochila perto de pessoas que, recorrendo ao estereótipo do fundamentalismo religioso terrorista, saem correndo para longe da mochila. Nos dois casos, o segundo por meio de uma piada, são fornecidos argumentos racionais para se apoiar uma tribo contra a outra. No vídeo do veterano de guerra se recorre ao argumento do “cuidar dos outros”, o ex-soldado afirma que seria mais adequado não gastar em guerras, mas sim com redução da pobreza no mundo. No vídeo do terrorista estereotipado se recorre à disputa religiosa entre cristão e mulçumanos, e se afirma que os mulçumanos recorrem à violência terrorista para atingirem seus objetivos.

Ninguém vai persuadir ninguém com argumentos racionais. As posições já estão definidas: os que se alinham do lado dos EUA irão argumentar que os iranianos são contra o ocidente e os valores do cristianismo, que desejam desestabilizar “o mundo livre”. Os que defendem o Irã dizem que os EUA são um país imperialista, explorador, cujo governo age para atender apenas aos interesses de capitalistas inescrupulosos. Há dois alinhamentos claros, de um lado EUA e Europa, de outro Irão, China e Rússia. No Brasil tais alinhamentos ficam evidentes nos posicionamentos de esquerda e direita, a primeira favorável ao Irã e a direita apoiando os EUA.

Reconhecer a natureza tribal de nossos posicionamentos políticos é o primeiro passo para que se torne possível dialogar com o outro lado. É preciso aceitar que somos tribais, que as justificativas racionais não persuadem ninguém – elas apenas reforçam o posicionamento de cada tribo – e que os dois lados acreditam ter bons motivos para fazer o que fazem, ambos se consideram certos. Se não fossemos tribais não teríamos conquistado a Terra, tampouco teríamos aumentado a população humana e seu bem-estar. Mas este mesmo tribalismo nos faz entrar em conflitos, hoje a maioria deles pacíficos, e nos torna cegos para o que leva a tribo adversária a nos atacar. Isso não irá acabar, mas pode ser mitigado se nos reconhecermos assim e buscarmos entender o outro lado.

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