Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Netflix: ‘Big Mouth’ (ótima!) e o vício em celulares e outras tecnologias

Em nova temporada de uma das séries mais ousadas da atualidade, a saga animada sobre a vida de jovens vai além ao realizar uma metacrítica da Netflix

Tá difícil de compreender os jovens de hoje? Ou mesmo: você é um jovem e tem sentido também dificuldade de se compreender? Recomendo imensamente: assista a Big Mouth, na Netflix. Esqueça 13 Reasons Why (bom, mas não no mesmo patamar), Euphoria (idem)… a melhor série sobre os adolescentes de hoje é a animação Big Mouth. Não por acaso registra 100% de aprovação entre críticos no Rotten Tomatoes, e nota 8,6 (de 10) no Metacritic.

A brilhante série – sim, brilhante, principalmente no significado mais espetacular da palavra (“reluzente, cintilante”) – contempla diversos aspectos da vida de pré-adolescentes, adolescentes e de seus pais. Alerta: legalmente, ela é recomendada a maiores de 18 anos de idade; contudo, convenhamos, certamente grande parcela (aposto que a maior) do público é composta por jovens; não sejamos hipócritas.

O diferencial está no tratamento do roteiro. Não há dedos, caretices e, principalmente, obtusidades na abordagem. Também não se fecha, em nenhum momento, à discussão de problemas reais, diários, enfrentados pela juventude – mesmo que muitas e muitas vezes alguns pais queiram cerrar os olhos, fingindo que seus filhos vivem em contos de fadas dos anos de 1930.

Logo, contemplam-se temas como sexualidade, identidade, narcisismo, depressão, descobertas hormonais etc. Tudo de forma divertida, leve, instigante. Faltaria espaço neste texto para tecer elogios. Aviso: evidentemente, e como seria o preconizado, Big Mouth, por sua ousadia, honestidade, realismo e qualidade, acabou por irritar indivíduos que repudiam a abertura de temas destacados (de neonazistas a associações de pais daqueles que cerram os olhos às reais agruras de seus filhos).

Mas este blog trata de nossa relação com as máquinas, nas vidas virtuais e reais (mesclando-se). Logo, ressalto aqui a forma como Big Mouth se debruça sobre o assunto.

Assim como é com as duas últimas gerações (digo, na vida real), a tecnologia perpassa todos os temas levantados pela série da Netflix. Destacam-se, todavia, dois episódios da última temporada, a 3ª, lançada há pouco na plataforma de streaming. São eles: Celular (3º episódio da 3ª temporada) e Obsessão (4º).

Como é durante todo Big Mouth, revelam-se os benefícios e malefícios da(s) tecnologia(s). Nos episódios, um dos garotos usa várias ferramentas possibilitadas pelo celular – WhatsApp, redes sociais, Google – para descobrir a própria identidade sexual, e explorá-la, de maneira saudável (pelo ponto de vista da psicanálise, da ciência, não pela noção de “saudável” daqueles pais fanáticos já citados acima). Já outro menino descobre, pelo on-line, uma série da Netflix que o auxilia a se sentir firme em sua vida, em suas descobertas, em sua passagem pela adolescência. Em uns momentos, a série que ele vê na própria Netflix só lhe faz bem; noutros, acaba por exagerar no tempo dedicado ao streaming – e há até um momento em que se tira sarro com o algoritmo de sugestões do site que, convenhamos, não costuma ser tão efetivo assim em suas indicações (algo como: “se você gostou de Rambo… aposto que adorará Queer Eye for the Straight Guy” – !?!?!).

Em paralelo, explora-se como outro jovem abusa do YouTube para espalhar mentiras sobre os colegas; mas, depois, usa o mesmo recurso para pedir desculpas e anunciar que irá maneirar mais no vício em apps e redes sociais. Ao longo das temporadas há diversas focos extras dados à forma como se encaram as tecnologias.

Todavia, destaca-se, nesse ponto, a história do adolescente Nick Birch. Em Big Mouth, ele se torna um viciado em seu celular – para fazer de tudo nele. Nick esquece dos colegas, não dá bola para conselhos dos pais, substitui o melhor amigo pela companhia de seu smartphone novinho (este é exibido, na animação, como se fosse uma mulher sensual que o atrai; no estilo do que propõe também o filme Her, ou Ela, de Spike Jonze e protagonizado por Joaquin “o novo Coringa” Phoenix).

Não por acaso, a mãe de Nick também exagera no tempo gasto com a internet, as redes sociais (e serve assim de péssima influência / referência). Chega ao ponto de arriscar o casamento e a relação com os três filhos – um deles, uma menina, também mergulhada no vício no smartphone. Os dois únicos da família que escapam: o primogênito, que está nem aí para a coisa toda; e o pai, que procura mostrar à sua esposa, assim como ao caçula, os perigos dos exageros ao celular.

A abordagem da Netflix é incrível justamente por conseguir discutir tanto o lado bom quanto o danoso do advento de tecnologias que tomaram o cotidiano do século XXI. Big Mouth não é nem tecnofóbico – com medo das inovações, mostrando-as como se dessem início a um Apocalipse –, nem tecnofílico – quando se aprova tudo, de forma acrítica, do que surge do Vale do Silício. Acha-se um adequado balanço ao se sugerir uma conversa inteligente acerca do tema. Tanto que, no fim, os viciados em tecnologia têm um desfecho, digamos assim, feliz.

Entretanto, isso não quer dizer que jogaram seus celulares no lixo e deletaram perfis em redes sociais. Pelo contrário, continuaram a utilizar as tecnologias. Todavia, tornaram mais consciente, produtivo, saudável, o hábito. Em outras palavras: dominaram as máquinas, em vez de se deixarem ser dominados pelas máquinas.

Também deste blog:
Por que Preta Gil deu ‘parabéns’ no post da morte do filho de Lucas Lucco?
A teoria por trás dos ataques grosseiros a Greta Thunberg
A incoerência da guerra de Eduardo Bolsonaro contra Instagram e Facebook

Em tempo: há variados dados que revelam a importância de se discutir o vício em tecnologias, de celulares e videogames, a namoradas virtuais e outros elementos dessa linha; o assunto é tratado em outros textos deste blog (neste vídeo, por exemplo), assim como também em entrevista que fiz com o psicólogo Adam Alter, autor do livro “Irresistível” (confira neste link).

Para acompanhar este blog, siga no Twitter, em @FilipeVilicicno Facebook e no Instagram.

Comentários
Deixe um comentário

Olá,

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s