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Instagram começa a checar a veracidade de posts publicados

A rede concede ainda maior força à guerra contra o obscurantismo, também guiada por Facebook e YouTube, e que procura derrubar de fake news a terraplanismo

Se um indivíduo que nasceu em 2004, quando surgiu o Facebook, cresceu apenas se informando pelos posts que vê em redes sociais, e vídeos de YouTube, é capaz que ele acabe por achar: que a Terra é plana; que não haveria provas para o evolucionismo; que o Big Bang seria uma farsa; que existira uma ditadura gay em algum lugar do planeta (em tempo: se houvesse mesmo, mudaria-me para lá, pois certamente seria mais pacífico e divertido do que tem sido por aqui); que refrigerantes seriam feitos com fetos humanos abortados; que o nazismo seria uma manifestação de esquerda; que figuras repugnantes da história, como Stalin, teriam ganhado não um, mas vários Nobel da Paz.

Ou seja, que estaríamos vivendo em uma realidade paralela cheia de tramoias LGBTQ+ com o fim de fingir que o homem teria pisado na Lua (e com a meta de conquistar o mundo sei lá com qual método; o modo varia de acordo com a tese lunática da vez). Algo desse gênero.

É essa onda de obscurantismo, que em parte é culpa das novas mídias, que agora as próprias redes sociais começam a combater. Com um novíssimo movimento do Instagram.

Essas plataformas fizeram bem à civilização, sim. Não vamos nos esquecer disso. Muito bem. Conectaram o planeta, desafiaram ditaduras (reais, não as frutos de teorias da conspiração), foram ferramentas essenciais em meio a catástrofes ambientais e sociais, incluindo guerras (não as culturais do YouTube, mas as bélicas do Oriente Médio).

Contudo, como conversei com Nick Clegg, vice-presidente de políticas públicas do Facebook – e que já foi vice-premiê do Reino Unido –, essas glórias agora são abafadas pelas graves consequências negativas do advento dessas novas tecnologias. Perguntei a ele: “Há risco de todos esses problemas fazerem com que o público passe a ver apenas o lado negativo das rede sociais?”. A resposta: “Sim. Ao focar no ruim, podem esquecer do bom. Para ilustrar, as novas mídias também tiveram impacto extremamente benéfico na economia” (confira a entrevista completa com ele na seção Amarelas desta semana, na revista e neste link).

A questão é que o “ruim” está, digamos assim, cada vez pior. E bote pior nisso. Além de todos os casos de invasão de privacidade que tem pipocado, aí por parte de deslizes das empresas, há a ascensão do obscurantismo – num estilo bem Idade das Trevas.

Então, surge como alívio uma nova medida que acaba de ser anunciada pelo Instagram. Nos Estados Unidos, uma atualização do app permite denunciar conteúdos tidos como “inapropriados”, ou de “informação falsa(razão das aspas: assim a própria plataforma os define). Conforme apurado por este blog, o recurso também começa a ser disponibilizado no Brasil e em outros países.

No entanto, há um diferencial nos EUA: após a denúncia, empresas terceirizadas, com funcionários treinados para tal, verificam cada post reportado pelas pessoas. Se realmente for enquadrado como “inapropriado” ou “informação falsa”, o que ocorre? O Instagram limita, e muito, a disseminação da mensagem. Assim, o post não aparece mais na aba “Explorar”, não pode ser mais associado a hashtags e ganha menor relevância na timeline. Em suma, basicamente só quem entrar no perfil do ser mentiroso poderá ver o conteúdo – isso se o mesmo não ferir de vez as regras da rede (como ao espalhar discursos de ódio), o que acarretaria em apagar o mesmo.

No Brasil, tudo indica que o mesmo procedimento pode ser instalado, com o apoio de especialistas terceirizados. Contudo, ainda não há prazo para o início. Por enquanto, os posts poderão ser denunciados e, quando isso ocorrer, também poderão, em certas circunstâncias, ter a disseminação diminuída.

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A novidade do Instagram é muito parecida com o que já faz o Facebook. Também se assemelha a medidas recentes do YouTube. E ainda a atualizações do Twitter. Há, portanto, um claro movimento de limpeza das redes sociais, coordenado por essas próprias plataformas.

Para acompanhar este blog, siga no Twitter, em @FilipeVilicicno Facebook e no Instagram.

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