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A Origem dos Bytes Por Filipe Vilicic Crônicas do mundo tecnológico e ultraconectado de hoje. Por Filipe Vilicic, autor de 'O Clube dos Youtubers' e de 'O Clique de 1 Bilhão de Dólares'.

Como pensa o novo mandachuva da Alphabet (Google)?

Sundar Pichai, que já concedeu entrevista a VEJA, assumiu o lugar de Larry Page. O que muda na trajetória de um dos frutos mais icônicos do Vale do Silício?

Por Filipe Vilicic - 4 dez 2019, 16h09

“O Sergey se concentra mais nos projetos do X, nos brinquedinhos que queremos criar para o futuro. Já o Larry é um ícone, um guia, mas na prática ele já está se afastando do dia a dia, ainda mais pelos problemas de saúde”. Ouvi a frase ainda em 2014, de um(a) graúdo(a) da Google (neste, como em outros textos deste espaço, uso o feminino para designar as palavras igualmente femininas “empresa”, “companhia”, “multinacional”; o Google, no masculino, é para o site de buscas; o que é uma diferenciação semântica importante ao raciocínio a ser apresentado) – preservo o nome e o cargo por ter sido durante uma conversa informal. Visitava então a sede do laboratório (digamos que…) semi-secreto X, braço de pesquisas tecnológicas avançadas no qual se desenvolvem iniciativas como balões que espalham sinais de internet pelo planeta, lentes de contato que medem a glicose no sangue, skates voadores, de onde surgiram carros autônomos etc. Semi-secreto pois nem os funcionários regulares da Google lá entram, é só para pouquíssimos convidados. Um dos privilégios subjacentes foi ter acesso a diversos executivos e cientistas que sabem bem o que ocorre nos bastidores não só daquela gigante do Vale do Silício, como de todas as gigantes do Vale do Silício. Incluindo as minúcias do caminho que agora, ontem (3), levou o indiano Sundar Pichai a virar a cabeça de toda Alphabet, a empresa-mãe da Google.

O estadunidense Larry Page, que fundou o buscador Google em 1998, com o colega refugiado (ainda dos tempos de URSS) russo Sergey Brin, então era, naquela visita ao X em 2014, o CEO. Soava estranho, a este estrangeiro naquelas dependências, que este era visto como um “ícone”, um “rei”, um “astro”, um tanto afastado do dia a dia. Após saber mais de seus problemas de saúde, e de outros detalhes do histórico da dupla, ficou tudo transparente.

Larry e Sergey foram e são figuras geniais. Deixaram, indiscutivelmente, marcas na história da civilização. E ponto. Não só com a brilhante ideia do Google, como ao estabelecer o contemporâneo método de administração e inovação que passou a perpassar a enorme maioria dos frutos da indústria digital, de Facebook a Snapchat.

Desde o início da Google, todavia, ambos não eram vistos como CEOs ideais. Uma coisa é ser inventor. Outra, totalmente distinta, é comandar a rotina, muitas vezes burocrática e enfadonha, de um conglomerado de muitas empresas, marcas, empreitadas, que foi no que a Google se transformou.

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Essa análise não é minha. Mas de uma penca de funcionários e ex-funcionários com os quais conversei ao longo dos anos. A exemplo de Douglas Edwards, ex-chefe do departamento de marketing, e com quem papeei em um restaurante russo em São Francisco, quando este lançou o curioso livro Estou com sorte! – confissões do funcionário número 59 do Google, no qual detalha sua entrada e saída (como multimilionário) da companhia, incluindo vários pormenores de sua relação próxima com Sergey. Para Edwards, e tantos outros, foi providencial, efeito natural e necessário, por exemplo, que ambos fossem afastados da gerência rotineira, logo no início, para dar lugar ao experiente Eric Schmidt, que permaneceu como CEO entre 2001 e 2011.

Quando Schmidt saiu, concedeu a cadeira a Larry Page. Investidores, assim como o alto escalão, o viam como preparado. E deve ser mesmo, isso é quase 100% certo . Por que negar? Basta ver os ótimos resultados do barco que capitaneou. Além de visionário, sempre foi bem-visto por funcionários diversos – diferentemente de Sergey, tido como irascível, com o hábito de desprezar até cumprimentos de membros da equipe, e isso sem mais ser tão central assim aos negócios. Um CEO ideal, era Larry Page. Só que até a segunda página; e faltava que combinassem com ele próprio.

Na segunda página da história vieram os problemas de saúde. Não só eles. Contava-se que parecia lhe faltar a total disposição, 24 por 7, que costuma ser exigida de um CEO. Dentre outros atributos que são compreensíveis de faltar a um multibilionário visionário que talvez não tenha aquela paciência para lidar com questões de relações públicas, contabilidade etc. Talvez à sua mente se reservem reflexões ainda mais ambiciosas.

Aí que ascendeu Sundar Pichai. Empregados já o viam como o real chefe da corporação. O indiano, de palavras calmas, centradíssimo, e tudo sem deixar de ser engraçadíssimo, simpático e determinado (numa soma), tem aquele porte que se espera de um alto-executivo à frente de um dos maiores impérios privados já construídos na história. Não carece de qualidades para ser CEO. Até 2015, só lhe faltava o cargo. O que ganhou, substituindo Larry Page.

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Todavia, Larry não foi afastado. Ele assumiu uma empresa-mãe, que então foi criada para separar os negócios do site Google (e derivados), das iniciativas mais arriscadas, de outras marcas – como o que ocorria naquele laboratório X. Na prática, tornou-se o ícone visionário, como já o viam. Sundar Pichai guiava a nau. Larry Page ficou com a inovadora Alphabet.

Logo, o anúncio de ontem (3), de que Larry saiu praticamente de vez, e Sundar assumiu a Alphabet (e não só a Google), não causa qualquer espanto. Por isso que pouco mexeu (praticamente nada) nas ações da companhia na bolsa, por exemplo. Até porque, na prática Larry continuará a ser o que é. Ele e Sergey detêm a maior parte das ações com direito a voto e podem, em tese, retirar Sundar do comando quando bem quiserem. Não farão isso, ao que se indica. Afinal, ambos parecem mais confortáveis no papel de referências icônicas, de visionários, e menos no de CEO, COO, ou qualquer outro “C”.

Se não muito vai se alterar na trajetória da Alphabet / Google, qual é essa trajetória? Como pensa Sundar, o mandachuva?

“Desde que o Google foi lançado, nós nos motivamos a inventar produtos úteis a todos. É essa postura que fará com que os 3 bilhões de hoje (de pessoas conectadas à internet) logo virem 4, depois 5 bilhões, e assim por diante” (…) Sabemos que o próximo bilhão que se conectará virá de camadas mais pobres da sociedade (…) se fizermos esse avanço em países como Índia, Indonésia e Brasil (…) ampliaremos esse sucesso para o mundo”.  Essa foi uma das frases que ele mesmo me disse – em meio a uma conversa leve, temperada por piadas nerds, como uma em torno de um jargão presente nas HQs do Homem-Aranha –, em 2017, já no cargo de CEO da Google.

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Sundar Pichai possui diferenciais evidentes, em comparação com a maior parcela dos maestros que regem as sinfonias do Vale do Silício. Ele não tem o cérebro focado apenas nos interesses dos EUA (ou cegado pelos mesmos). Pelo contrário. De origem indiana, por muito tempo não teve acesso a computadores, em sua infância numa família de classe média baixa. Sua vivência lhe permitiu abrir a visão para o restante do planeta. Hoje em dia, como ele mesmo pressupõe, é justamente no restante do planeta, como na Índia, que restam territórios ainda a ser melhor explorados, sendo alguns totalmente inóspitos, pela indústria da internet, dos smartphones, dos tablets. Sundar saberá caminhar, com a Alphabet, por tais regiões.

Indo além, tem ciência das necessidades dos mais pobres. Isso é ótimo para os negócios (e não só a eles, convenhamos)! Em relação a gadgets, um smartphone representa muito, de acesso a educação e informação, até informações sobre lojinhas locais, em meio a favelas indianas. Na África, ele sabe bem como a Google, ou o YouTube, podem agir de forma determinante para facilitar o crescimento de diversos campos econômicos. E aqui não se fala de coisas como carros que se dirigem (ou que voam; e esse é um próximo projeto de Larry Page). Mas, sim, de elementos básicos: ampliar o acesso a recursos financeiros, promover a transparência de empresas públicas, e por aí vai.

Tino para esses negócios, para essas visões, fora das fronteiras da América do Norte, ele tem. Não só isso. Sundar é entusiasta da inteligência artificial e vislumbra um futuro no qual a Alphabet girará em torno dessa tecnologia. Bola dentro. Golaço! O novo CEO ainda é diplomático, e compreende os anseios à la Yuval Noah Harari (do incrível e assustador Homo Deus) que tem surgido frente às inovações do século XXI. Duas características essenciais para lidar com graves problemas nascentes para um dos maiores colossos da era digital. A exemplo das acusações em torno de ferir a privacidade de usuários, ou em direção às estratégias supostamente monopolistas, e por aí vai.

A ascensão de Sundar apenas o formalizou como o estilo de líder que o Vale do Silício hoje necessita. Não se trata mais de um território desbravado por ilustres visionários. Lá agora é um centro de reinados estabelecidos, guiados por executivos.

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Enquanto Sundar se torna o rei que se precisa atualmente por lá, o que mais desperta curiosidade é outra história: o que farão Sergey e Larry com a mais de uma centena de bilhões de dólares que ambos possuem em mãos, sendo respectivamente sexto e sétimo indivíduos mais ricos do planeta? Vão seguir a filantropia, como Bill Gates? Dedicarão tempo a inovações incríveis que vão surpreender a todos? Terá uma pausa para se dedicarem a questões pessoais? Vão incentivar a abertura de “novos” Vales do Silício, que, ao contrário do atual, poderão abrir portas a novatos visionários? Vai saber. O certo: tem tudo para ser bem interessante de se testemunhar.

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