Um terço dos imóveis e instalações de grandes empresas está sob alto risco climático
Levantamento da C-More indica que enchentes, secas e ondas de calor já representam risco elevado para 35% dos ativos monitorados
Por Ernesto Neves
-
Eventos climáticos extremos se tornaram uma preocupação estratégica para empresas. Um levantamento da C-More revela que 35% dos ativos físicos de grandes companhias brasileiras estão altamente expostos a fenômenos como enchentes e secas, gerando prejuízos bilionários. A matéria discute como essa variável econômica exige novas abordagens na gestão de riscos e investimentos.
-
Este resumo foi útil?
Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Os eventos climáticos extremos deixaram de ser uma preocupação restrita à área ambiental e passaram a ocupar espaço crescente nas estratégias de negócios das empresas.
Um levantamento da empresa de inteligência em riscos C-More mostra que 35% dos ativos físicos de grandes companhias brasileiras já apresentam alta exposição a fenômenos como enchentes, secas, ondas de calor e tempestades severas.
O estudo foi elaborado a partir de uma base de dados com mais de 10 mil empresas monitoradas pela plataforma.
Segundo a companhia, a análise considera indicadores de exposição física e vulnerabilidades operacionais para identificar instalações sujeitas a interrupções provocadas por eventos climáticos.
A empresa, porém, não detalha quantos ativos foram avaliados nem os critérios utilizados para classificar a exposição como elevada.
O resultado aparece em um momento de aumento da frequência e da intensidade dos eventos extremos no Brasil.
Um estudo publicado neste ano por pesquisadores do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) estimou que desastres relacionados à água provocaram prejuízos superiores a R$ 740 bilhões entre 1991 e 2024, além de afetarem quase 130 milhões de brasileiros.
Nos últimos anos, empresas de diferentes setores tiveram suas operações afetadas por enchentes no Rio Grande do Sul, estiagens prolongadas na Amazônia e no Nordeste e sucessivas ondas de calor registradas em praticamente todas as regiões do país.
Além dos danos diretos à infraestrutura, esses eventos provocaram atrasos logísticos, interrupções na produção, perdas agrícolas e aumento dos custos com energia, seguros e transporte.
Para André Veneziani, vice-presidente da C-More para a América Latina e Brasil, a principal mudança é que o risco climático passou a ser tratado como uma variável econômica.
“Quando um ativo é atingido por uma enchente, uma seca ou uma onda de calor, o problema não se limita ao dano físico. Há interrupção das operações, aumento de custos, impactos na cadeia de suprimentos e reflexos sobre investimentos”, afirma.
Na avaliação do executivo, muitas empresas ainda concentram esforços na resposta aos desastres, em vez de investir na antecipação dos riscos. Segundo ele, o país já dispõe de informações climáticas suficientes para identificar áreas mais vulneráveis e planejar medidas de adaptação.
O conceito de ativo físico inclui fábricas, centros de distribuição, armazéns, escritórios, usinas, portos e outras instalações utilizadas pelas empresas. Dependendo da localização e da atividade desenvolvida, esses empreendimentos podem estar mais sujeitos a enchentes, deslizamentos, incêndios florestais, estiagens ou temperaturas extremas.
Os efeitos também se espalham para além das instalações diretamente atingidas. Um fornecedor localizado em uma área afetada por enchentes, por exemplo, pode interromper o abastecimento de uma indústria instalada em outro estado, enquanto problemas em rodovias, portos ou aeroportos afetam toda a cadeia logística.
O avanço desses riscos tem aumentado a pressão de investidores, bancos e seguradoras para que empresas incorporem cenários climáticos em seus processos de gestão. Além dos impactos operacionais, a exposição crescente a eventos extremos pode influenciar o custo do crédito, o valor de ativos e até decisões sobre novos investimentos.
Relatórios recentes do Cemaden mostram que os impactos econômicos dos eventos hidrometeorológicos continuam elevados. Apenas em 2025, os prejuízos registrados chegaram a R$ 3,9 bilhões, enquanto centenas de milhares de pessoas foram afetadas por desastres climáticos no país.
Embora o levantamento da C-More tenha caráter privado, seus resultados reforçam uma tendência observada por pesquisadores e órgãos públicos. As mudanças climáticas passaram a representar um risco crescente para a atividade econômica, exigindo que empresas incorporem critérios de adaptação e resiliência ao planejamento de longo prazo.






