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Um futuro eletrizante: a expansão dos combustíveis livres de carbono

Os carros elétricos avançam no mercado internacional de automóveis e novas tecnologias como a do hidrogênio verde prometem acelerar a tendência

Por Nathan Fernandes Atualizado em 20 out 2021, 16h00 - Publicado em 22 out 2021, 06h00

O carro preferido de Clara Ford, esposa de Henry Ford, não era nenhum dos produzidos pelo marido. Durante a década de 30, o modelo que ela dirigia pelas ruas era um Detroit Electric, fabricado em 1915 pela Anderson Electric Car Company. Assim como Clara, várias outras mulheres faziam a mesma opção, uma vez que a publicidade da empresa na época ressaltava que o modelo era perfeito para o público feminino, por ser extremamente fácil de dirigir. Se no passado o apelo dos carros elétricos resvalava no machismo, nos dias de hoje os argumentos são bem mais universais. É a preocupação com o futuro do planeta e com a redução da emissão de carbono que embala as vendas das dezenas de modelos atuais.

Um bom exemplo de como esse apelo tem funcionado foi demonstrado na mais recente edição do Internationale Automobil-Ausstellung (IAA), o Salão do Automóvel de Munique (que antes era realizado em Frankfurt). Toda a mostra foi dedicada aos carros elétricos, em um reflexo de como a indústria automobilística tem se esforçado para se adequar aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, da ONU. Não por acaso, Volvo, Ford e Mercedes já anunciaram que pretendem deixar de vender carros movidos a gasolina e diesel a partir de 2030. A GM estipulou 2035 como prazo, enquanto a Volkswagen pretende fazer com que os elétricos representem 70% de suas vendas na Europa e 50% nos Estados Unidos e na China nos próximos anos. No Brasil, a transição para os carros totalmente elétricos ainda engatinha. Os motivos são os preços proibitivos dos automóveis — o mais barato, o minúsculo eJS1, da chinesa Jac Motors, custa 150 000 reais — e a rede de pontos de abastecimento ainda é restrita.

ALTA VOLTAGEM - Ponto de abastecimento de carros elétricos na Europa: transição para o modelo limpo de mobilidade -
ALTA VOLTAGEM – Ponto de abastecimento de carros elétricos na Europa: transição para o modelo limpo de mobilidade – Andrew Aitchison/In pictures/Getty Images

Atualmente, há dois tipos de carro totalmente elétricos em circulação nas ruas das cidades (os híbridos, mais comuns no Brasil, são uma categoria à parte). O primeiro — e mais comum — é o movido a bateria recarregável em tomadas especiais. São assim os carros produzidos pela americana Tesla, companhia que revolucionou a indústria automobilística mundial com seus carros dotados de componentes de alta tecnologia. A empresa tem sido tão bem-sucedida que hoje tem um valor de mercado de 630 bilhões de dólares, o que equivale à soma do valor das nove maiores montadoras do planeta. O outro tipo é o que se vale das chamadas células de combustível, cuja energia é gerada a partir de hidrogênio injetado por bombas especiais. Esse tipo de tecnologia é comum principalmente no Japão e na Coreia do Sul.

EXPANSÃO - Parque de painéis solares: substituição do petróleo nos automóveis por fontes livres de carbono -
EXPANSÃO – Parque de painéis solares: substituição do petróleo nos automóveis por fontes livres de carbono – Egberto Nogueira/imãfotogaleria/.

Até pouco tempo atrás, o processo de obtenção de hidrogênio para uso como combustível era considerado complexo e pouco vantajoso do ponto de vista ambiental, situação que começa a mudar com a chegada do chamado hidrogênio verde. “O hidrogênio verde é interessante porque dispensa o uso das baterias nos carros elétricos, já que existe um processo de geração de energia interna”, afirma Julio Meneghini, diretor científico da Fapesp Shell Research Centre for Gas Innovation (RCGI). As baterias dos automóveis elétricos atuais são hoje a maior fonte de preocupação da indústria, seja por seu custo elevado (são responsáveis por cerca de 40% do valor dos carros), seja pela indefinição do que fazer com elas depois que perdem sua capacidade de armazenar energia.

NAS ALTURAS - Turbina eólica: hidrogênio verde é produzido a partir do uso de energia limpa -
NAS ALTURAS - Turbina eólica: hidrogênio verde é produzido a partir do uso de energia limpa – Sean Gallup/Getty Images

O hidrogênio verde é produzido a partir da energia elétrica gerada por fontes renováveis, como eólica e solar. A receita é simples: através de uma corrente elétrica, a água tem seu hidrogênio separado do oxigênio. O hidrogênio que se solta é capturado e comprimido. Na forma tradicional, o hidrogênio é obtido a partir do gás metano, o CH4, e gera emissões de carbono. Em setembro, quinze grandes empresas sul-coreanas, entre elas o gigante Hyundai, se uniram em um conselho para pensar em formas de promover a indústria do hidrogênio verde do país, uma área na qual a União Europeia já se comprometeu a investir 430 bilhões de dólares até 2030. Não à toa o banco de investimento Goldman Sachs estima que essa é a próxima fronteira do setor energético e movimentará 11 trilhões de dólares em 2050. Movido a hidrogênio, o futuro promete ser eletrizante.

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