Perito Moreno, geleira símbolo da Patagônia, entra na lista das grandes vítimas do aquecimento global
Estudos mostram que a maior retração registrada na geleira argentina marca o fim de uma estabilidade que durou décadas
Por Ernesto Neves
Por décadas, a geleira Perito Moreno, na Patagônia argentina, foi tratada como uma exceção em meio ao avanço das mudanças climáticas.
Enquanto centenas de geleiras ao redor do mundo perdiam massa e recuavam ano após ano, ela mantinha uma posição relativamente estável, tornando-se um dos principais símbolos da resistência do gelo ao aquecimento do planeta.
Esse cenário mudou.
Em 2025, a geleira recuou cerca de 385 metros, a maior retração registrada desde o início do monitoramento por imagens de satélite, há 27 anos.
Os dados reforçam uma tendência observada ao longo da última década: a Perito Moreno deixou de apresentar o comportamento atípico que a diferenciava das demais geleiras da região.
Pesquisas publicadas nos últimos dois anos indicam que o fenômeno não representa uma oscilação temporária, mas uma mudança consistente em sua dinâmica.
O que mudou na Perito Moreno
Um estudo publicado em 2026 na revista Progress in Physical Geography identificou que a frente da geleira entrou em retração contínua a partir de 2016, chegando a perder até 55 metros por ano em alguns períodos. Desde 1997, a área da geleira diminuiu cerca de três quilômetros quadrados, sendo que quase dois terços dessa perda ocorreram nos últimos anos.
Outra pesquisa, divulgada em 2025 na revista Communications Earth & Environment, apontou uma aceleração ainda mais expressiva no afinamento do gelo. Entre 2000 e 2019, a superfície frontal perdia, em média, 34 centímetros de espessura por ano. Entre 2019 e 2024, essa taxa saltou para aproximadamente 5,5 metros anuais.
Os trabalhos analisam parâmetros diferentes, mas chegam à mesma conclusão: a geleira entrou em uma nova fase de evolução.
Por que ela resistiu por tanto tempo
A estabilidade histórica da Perito Moreno nunca significou ausência dos efeitos das mudanças climáticas.
Segundo os pesquisadores, a geleira possuía características geológicas que retardavam sua resposta ao aumento das temperaturas.
Uma elevação rochosa localizada sob o gelo e uma moraina submersa, formação composta por sedimentos deixados pelo próprio avanço da geleira, funcionavam como pontos de sustentação, reduzindo a velocidade do recuo.
Esse mecanismo natural fez com que ela permanecesse praticamente estável enquanto outras geleiras da Patagônia já apresentavam perdas significativas de área e volume.
Com o aquecimento contínuo da atmosfera e dos corpos d’água da região, porém, essa proteção deixou de ser suficiente.
Derretimento acelera em diferentes partes do planeta
A mudança observada na Patagônia acompanha um processo muito mais amplo.
O relatório mais recente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) conclui que é “muito provável” que a influência humana seja a principal responsável pelo recuo quase generalizado das geleiras desde a década de 1990.
Na Europa, os Alpes vivem uma das fases mais críticas desde o início das medições. A perda acelerada de gelo reduziu significativamente o volume de geleiras na Suíça, Áustria, França e Itália.
Apenas entre 2022 e 2023, as geleiras suíças perderam cerca de 10% de seu volume, resultado considerado sem precedentes pelos cientistas.
Na Escandinávia, geleiras da Noruega também registram retração contínua, enquanto, na Islândia, diversas formações perderam espessura suficiente para alterar paisagens que permaneceram praticamente inalteradas durante séculos.
Na América do Norte, geleiras das Montanhas Rochosas, do Alasca e do oeste do Canadá apresentam redução acelerada de massa, afetando rios alimentados pelo degelo e aumentando riscos para comunidades locais.
Já na Groenlândia, o derretimento da camada de gelo contribui diretamente para a elevação do nível dos oceanos.
Estudos internacionais apontam que a ilha perdeu milhares de bilhões de toneladas de gelo nas últimas décadas, tornando-se uma das principais fontes do aumento global do nível do mar.
Na Ásia, o chamado “Terceiro Polo”, conjunto de geleiras distribuídas pelos Himalaias e pelo planalto tibetano, também sofre perdas constantes.
A região abastece grandes rios responsáveis pelo fornecimento de água para centenas de milhões de pessoas.
Impactos vão além da paisagem
O desaparecimento gradual das geleiras não representa apenas uma mudança visual.
Essas massas de gelo funcionam como importantes reservatórios naturais de água doce, regulando o fluxo de rios durante os períodos mais secos. Sua redução afeta o abastecimento humano, a agricultura, a produção de energia hidrelétrica e diversos ecossistemas.
Em regiões montanhosas, o degelo também aumenta o risco de deslizamentos, avalanches e rompimentos de lagos glaciais, fenômenos que vêm sendo registrados com maior frequência em diferentes continentes.
Além disso, a perda de gelo contribui para a elevação do nível dos oceanos, ampliando a vulnerabilidade de cidades costeiras e pequenas ilhas.
O futuro da Perito Moreno
Os pesquisadores destacam que a retração atual não significa um colapso imediato da geleira.
Modelos indicam que sua evolução dependerá da interação entre fatores como profundidade do lago, relevo sob o gelo, velocidade do fluxo glacial e intensidade do aquecimento nas próximas décadas.
Ainda assim, o fato de uma geleira considerada durante anos uma exceção passar a apresentar perdas aceleradas altera a forma como os cientistas interpretam sua evolução.
Mais do que um dos principais cartões-postais da Argentina, a Perito Moreno passa a integrar o conjunto de evidências de que o recuo das geleiras deixou de ser um fenômeno localizado e se tornou uma característica observada em praticamente todas as grandes regiões glaciais do planeta.







