Oceanos registram recorde histórico de temperatura em meio a alerta de El Niño extremo
Média diária global da superfície marítima atingiu 21,1 °C em agosto, superando marca histórica e acendendo alertas científicos sobre estresse climático
No dia 22, a temperatura média global da superfície do mar — excluindo as regiões polares — atingiu a marca histórica de 21,1 °C, segundo dados divulgados pelo Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus (C3S), da União Europeia. O novo patamar supera o recorde anterior, de 21,09 °C, registrado em março de 2024. A ocorrência preocupa cientistas por acontecer em agosto, mês em que as temperaturas oceânicas costumam ser mais baixas do que em março e abril. O fenômeno combina o aquecimento global de longo prazo, de origem humana, com o rápido desenvolvimento de um evento El Niño no Oceano Pacífico.
O sinal de alerta já vinha se acumulando. Em julho, os oceanos extrapolares (entre as latitudes 60°S e 60°N) haviam registrado a maior média mensal da história para o período, de 20,96 °C, enquanto anomalias nas águas profundas do Pacífico chegavam a expressivos +10 °C em algumas áreas. Para a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), o El Niño em curso tem mais de 90% de probabilidade de atingir intensidade “muito forte” entre o fim de 2026 e o início de 2027, com 69% de chance de se tornar o mais intenso já registrado desde 1950.
Os efeitos desse aquecimento já são sentidos com força na Europa. Um estudo da rede World Weather Attribution (WWA) atribuiu às mudanças climáticas de origem humana cerca de 2 °C do aquecimento observado no Mar Mediterrâneo, que subiu 2,9 °C na porção leste e 3,4 °C na porção oeste — mais do que o dobro da taxa média de aquecimento global. “É mais um sinal claro de um oceano sob estresse crescente”, afirmou Samantha Burgess, líder estratégica para o clima do Copernicus, destacando que o número de dias de ondas de calor marinhas ao redor do mundo mais que triplicou desde o início dos anos 1990.
Os oceanos absorvem mais de 90% do calor retido pelos gases de efeito estufa no planeta — e, quanto mais quentes, menos eficientes se tornam para absorver dióxido de carbono, o que enfraquece uma das principais defesas naturais contra a crise climática. O aquecimento da superfície marítima também ameaça a sobrevivência de espécies e recifes de coral, além de transferir mais umidade e calor para a atmosfera, intensificando tempestades e elevando o risco de inundações em áreas costeiras de todo o mundo.







