O Brasil tem ciclones, sim — e o frio que chega no fim de semana ajuda a explicar por quê
Fenômeno é comum no país, mas ainda costuma ser confundido com furacões e outros eventos extremos
Existe uma espécie de mito meteorológico que insiste em sobreviver: o de que ciclones são coisa de outros lugares, daqueles mapas de televisão que mostram o Caribe, os Estados Unidos ou o Pacífico. O Brasil, supostamente, estaria protegido desse tipo de fenômeno. Não está. E o céu deste fim de semana será mais uma demonstração disso.
Dois ciclones extratropicais influenciam a circulação atmosférica no Sul do país neste período, ajudando a organizar frentes frias, ventos fortes e a entrada de ar frio que fará as temperaturas despencarem em diferentes áreas do Sul e do Sudeste. O primeiro sistema já atua nesta sexta-feira, 21, enquanto um segundo, mais amplo e intenso, deve reforçar a incursão de ar frio ao longo do fim de semana.
A imagem de um ciclone, porém, costuma provocar uma confusão imediata: não significa que o Brasil esteja prestes a ser atingido por um furacão. Ciclone é, antes de tudo, uma grande área de baixa pressão atmosférica em torno da qual os ventos circulam. Existem diferentes tipos, e os que mais aparecem por aqui são justamente os extratropicais. O próprio Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) explica que eles são os mais comuns no Brasil, ocorrem durante todo o ano e têm maior frequência no inverno.
Por que eles aparecem tanto no Sul?
A localização geográfica ajuda a contar essa história. O Sul do Brasil está numa faixa de encontro frequente entre massas de ar de características muito diferentes. De um lado, o ar quente; de outro, o ar frio que avança das latitudes mais altas. Esse contraste favorece a formação e o desenvolvimento de sistemas de baixa pressão.
Por isso, a passagem de uma frente fria muitas vezes está ligada à presença de um ciclone extratropical. E, na prática, uma frente fria está associada a esse tipo de sistema. Santa Catarina e Rio Grande do Sul, em particular, estão entre as áreas brasileiras mais expostas.
Segundo a Epagri, os ciclones extratropicais são comuns na costa Sul e tendem a ser mais frequentes e intensos entre abril e setembro. Ou seja: ciclone no Brasil não é exceção. A surpresa está muito mais na intensidade, na trajetória e nos efeitos de cada episódio do que na existência do fenômeno.
O que está acontecendo agora
O sistema que influencia o tempo nesta sexta-feira se formou entre o Uruguai e o Rio Grande do Sul e está associado a uma frente fria. A circulação atmosférica provocada pelo ciclone ajuda a transportar ar frio para o continente e muda rapidamente as condições do tempo.
O Inmet prevê queda acentuada das temperaturas na Região Sul após a passagem da frente, com mínimas próximas de 0°C em áreas de serra e possibilidade de geada no sábado. O frio também avança para Mato Grosso do Sul e partes do Sudeste.
Em São Paulo, os efeitos aparecem primeiro nos ventos e na mudança da circulação. Há previsão de rajadas na capital e ventos ainda mais fortes no litoral paulista e no Rio de Janeiro. Para o litoral norte de São Paulo e áreas do litoral fluminense, o Inmet emitiu alerta laranja, com rajadas que podem chegar a 100 km/h.
Depois vem a parte que o paulistano provavelmente vai sentir mais: o frio. Na capital paulista, a previsão aponta mínima de cerca de 11°C no sábado, depois de uma sequência de dias de calor e umidade muito baixa. É justamente essa virada — calor, vento, mudança de nebulosidade e, em seguida, queda expressiva dos termômetros — que faz parecer que o tempo mudou de uma hora para outra. O ciclone não “traz frio” sozinho, mas participa da dinâmica que permite o avanço da frente fria e, na sequência, de uma massa de ar frio.
E eles estão ficando mais intensos?
É aqui que a história exige mais cuidado. É correto dizer que eventos extremos têm ganhado atenção e que há estudos apontando mudanças na intensidade de ciclones na região. Mas não é correto transformar cada novo ciclone em prova isolada de que todos os sistemas estão necessariamente ficando mais fortes por causa do aquecimento global.
O que a ciência mostra é mais complexo. Um levantamento divulgado pela Agência Gov, com participação de pesquisadores do Inpe, aponta estudos que indicam aumento da intensidade dos ciclones extratropicais.
Ao mesmo tempo, uma pesquisa publicada em 2026 na Revista de Geografia analisou a ocorrência desses sistemas no Sul e Sudeste entre 2000 e 2016 e encontrou forte variação de frequência conforme o período e a estação. Entre 2009 e 2011, por exemplo, houve maior concentração de eventos no conjunto analisado.
Isso ajuda a separar duas coisas que frequentemente aparecem misturadas: ciclones são naturais e fazem parte da dinâmica atmosférica do Brasil; mudanças no clima podem alterar determinados padrões de intensidade, frequência e impactos, mas cada episódio precisa ser analisado individualmente.
Ciclone não é sinônimo de desastre
Outro equívoco comum é imaginar que todo ciclone seja automaticamente uma tempestade devastadora. Não é. Um ciclone pode permanecer predominantemente sobre o oceano, passar distante da costa ou provocar apenas mudanças na circulação atmosférica. O problema aparece quando ele ganha intensidade ou se combina com outros ingredientes meteorológicos, como frentes frias, grandes diferenças de temperatura e umidade.
Nessas situações, podem surgir temporais, chuva intensa, ventos fortes, ressaca e queda acentuada de temperatura. Foi o que ocorreu em agosto deste ano em outro episódio de rápida intensificação acompanhado pelo Inmet. O órgão chegou a monitorar uma situação de ciclogênese explosiva, conhecida popularmente como “ciclone-bomba”, quando a pressão de um sistema de baixa pressão cai muito rapidamente em um intervalo de 24 horas.
E nem mesmo o termo “ciclone-bomba” significa um tipo diferente de ciclone. É uma maneira de descrever a velocidade com que ele se intensifica. Ou seja, não é bem como no imaginário brasileiro: não precisamos esperar um fenômeno extraordinário para falar de ciclones. Eles já fazem parte do nosso clima — sobretudo no Sul. O que muda é a combinação de cada sistema com as massas de ar, as frentes, o oceano e as condições atmosféricas do momento.







