‘Não existe atividade sem risco’: brasileira no topo da governança dos oceanos faz alerta
Secretária-geral da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, Letícia Carvalho afirma que equilíbrio depende de regulação forte
Eleita para o mandato 2025-2028 à frente da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, a oceanógrafa brasileira Letícia Carvalho ocupa hoje uma das posições mais estratégicas na governança global dos oceanos.
O órgão, vinculado ao sistema das Nações Unidas, reúne 172 países e a União Europeia e é responsável por regular a exploração de recursos minerais em áreas internacionais do fundo do mar, um dos temas mais sensíveis da agenda ambiental e econômica global.
Em meio à pressão por regras para a mineração em alto-mar, à discussão sobre moratórias e ao avanço de interesses industriais, Carvalho defende uma liderança baseada em evidência científica, governança robusta e decisões multilaterais.
Nesta entrevista, ela fala sobre o papel da ciência nas negociações, a presença feminina em espaços de poder e os desafios de equilibrar exploração econômica e preservação ambiental.
Qual é a sua principal contribuição à frente da ISA?
A minha contribuição como cientista está na centralidade da evidência científica. Isso me ajuda a estabelecer uma liderança e uma atmosfera de negociação baseada em ciência e evidência. É onde consigo ser mais relevante.
E como mulher em um espaço ainda majoritariamente masculino?
As lideranças femininas na governança dos oceanos ainda são mínimas. Em muitas reuniões, sou a única mulher entre diversos colegas homens. A liderança feminina traz uma sensibilidade maior para inclusão, cuidado e construção de consenso, com foco em ampliar a participação.
De que forma isso influencia sua atuação?
Eu trago essa sensibilidade junto com pragmatismo. Busco uma liderança transparente, inclusiva e baseada na ação, sem medo de errar, mas com disposição para corrigir quando necessário. É uma forma de liderança que valoriza a construção coletiva.
A ISA reúne praticamente o mundo inteiro. Qual é o desafio de liderar esse organismo?
É uma organização com 172 países e a União Europeia, uma composição quase universal. Isso exige construir consenso em um ambiente de muita pressão e incerteza, mantendo sempre o foco em respostas que sejam necessárias e baseadas em evidência.
Se o Código de Mineração for aprovado, qual é o equilíbrio ideal entre exploração e preservação?
Esse equilíbrio não é tangível. Ele é uma busca constante. Atividades industriais sempre envolvem riscos, ambientais, sociais e econômicos, e isso não pode ser negado.
Então não existe mineração sem impacto?
Não. Sempre haverá risco de dano ambiental, de desequilíbrio econômico ou aumento de desigualdade. Como cientista, não posso negar isso.
Diante disso, como lidar com a pressão por moratórias?
Essa é uma preocupação legítima. Mas a melhor resposta não é necessariamente postergar indefinidamente, e sim fortalecer a governança internacional.
O que isso significa na prática?
Sem regulamentação completa, verificação e inspeção, não há proteção ambiental. O sistema internacional fica mais frágil e sujeito a ações unilaterais, sem transparência sobre o que está sendo feito.
Qual é, então, o caminho para esse equilíbrio?
Fortalecer a arquitetura de governança da ISA como órgão regulador. Isso inclui regras robustas, capacidade institucional, recursos técnicos e financeiros para proteger o meio ambiente e o patrimônio comum da humanidade.
Esse equilíbrio é possível?
Ele será sempre uma busca, baseada em aprendizado contínuo, evidência científica e confiança entre os países. O importante é ter legitimidade e capacidade de adaptação.
Qual o papel do multilateralismo nesse processo?
A melhor resposta é a coletividade. Transparência, decisões compartilhadas e ajustes constantes são essenciais. O multilateralismo é complexo, mas é o que permite construir soluções mais legítimas.
Em um momento de fragmentação global, isso ainda é viável?
É mais difícil, sem dúvida. Mas essa construção coletiva também traz esperança. É um processo mais lento e complexo, mas fundamental para enfrentar desafios globais como esse.







