Manaus, no coração das águas da Amazônia, entra em risco crítico de escassez
Projeção da ANA coloca a região em situação de risco crítico até 2040, enquanto número de poços pode ser cinco vezes maior que registrado
Manaus pode enfrentar uma situação crítica de disponibilidade de água até 2040, em um cenário de aumento da demanda e de mudanças climáticas que devem pressionar os recursos hídricos da região.
Segundo estudo do Instituto Trata Brasil e da consultoria GO Associados, as retiradas de água na capital amazonense devem crescer 7% até o fim da próxima década e meia, enquanto a demanda da indústria pode avançar 43%.
As projeções têm como base dados da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), que classifica a maior parte da região de Manaus na categoria “crítica” em relação ao impacto potencial das mudanças climáticas sobre a disponibilidade hídrica até 2040.
Uma parcela menor aparece na classe “alerta”.
O aumento projetado no consumo não será distribuído de maneira uniforme. Além da expansão de 43% na demanda industrial, o abastecimento humano deve exigir 23% mais água no período.
O resultado é uma pressão crescente sobre uma estrutura que hoje depende principalmente do Rio Negro, mas também utiliza água subterrânea.
Manaus tem cerca de 2 milhões de habitantes e cobertura de abastecimento de água de 97%, segundo dados de 2025 do IBGE citados no estudo.
Cerca de 84% da água captada na cidade vem de mananciais superficiais, principalmente do Rio Negro, enquanto os 16% restantes são provenientes de fontes subterrâneas.
É justamente essa segunda fonte que preocupa os pesquisadores. O avanço da retirada de água dos aquíferos, em um contexto de secas potencialmente mais intensas, pode aumentar a vulnerabilidade do sistema e comprometer uma reserva que também tem papel na manutenção dos cursos d’água superficiais.
Milhares de poços podem estar fora do controle
Um dos principais problemas apontados pelo estudo é a dificuldade de dimensionar e fiscalizar a exploração da água subterrânea em Manaus.
Dados da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM) indicavam quase 5 mil poços em operação na cidade até 2022. Estimativa apresentada pelos autores, porém, aponta que o número real pode chegar a 27 mil.
A diferença entre os dois números revela uma lacuna significativa de controle.
Uma parcela expressiva das captações subterrâneas pode não estar registrada nos sistemas oficiais, dificultando o acompanhamento do volume retirado dos aquíferos e a avaliação dos impactos ambientais.
A exploração individual de poços também produz um problema coletivo. Como a água subterrânea é um recurso compartilhado, a multiplicação de captações sem coordenação pode elevar o risco de superexploração dos aquíferos, especialmente durante períodos de estiagem.
No Amazonas, a outorga para o uso de recursos hídricos passou a ser obrigatória em 2016, por meio de uma norma do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam). A regra vale para os 67 municípios do Estado, incluindo Manaus.
A outorga é o instrumento utilizado para autorizar e controlar determinadas retiradas de água.
Na prática, entretanto, a diferença entre o número de poços conhecidos e a estimativa de estruturas existentes mostra que a fiscalização ainda enfrenta dificuldades para acompanhar toda a captação subterrânea da capital.
Mudança climática aumenta pressão sobre o sistema
O problema não está apenas no crescimento do consumo. As projeções da ANA incorporam os efeitos esperados das mudanças climáticas sobre a disponibilidade de água na região.
A perspectiva de períodos de seca mais intensos aumenta a importância de preservar as reservas subterrâneas e de reduzir a dependência de uma única fonte.
Embora Manaus esteja às margens do Rio Negro, a abundância aparente de água na região não elimina os riscos relacionados à disponibilidade de água adequada para abastecimento, à infraestrutura de captação e tratamento e à variação das condições climáticas.
O estudo defende, por isso, uma mudança na forma de administrar os recursos hídricos da cidade.
Em vez de ampliar indefinidamente a retirada de água dos mananciais existentes para acompanhar o crescimento da demanda, a estratégia deveria combinar novas fontes, redução de perdas e maior eficiência no consumo.
Entre as alternativas estão o aproveitamento de água da chuva, o reúso de água em atividades que não exigem água potável e o tratamento de águas residuais para posterior utilização.
A adoção dessas medidas é particularmente relevante para a indústria, que deve apresentar o maior crescimento proporcional da demanda até 2040.
Indústria será a principal fonte de pressão
O aumento de 43% projetado para o consumo industrial chama atenção porque ocorre em uma região que passa por transformação econômica e abriga um dos principais polos industriais do país.
A Zona Franca de Manaus concentra centenas de empresas e uma cadeia produtiva diversificada, com destaque para segmentos como eletrônicos, motocicletas, informática, duas rodas e eletrodomésticos.
A expansão das atividades econômicas tende a elevar a necessidade de água tanto nos processos produtivos quanto na infraestrutura urbana que atende trabalhadores e empresas.
Para o estudo, reduzir o desperdício e aumentar a eficiência do uso da água será uma das formas de evitar que o crescimento econômico se converta em pressão adicional sobre os mananciais.
A migração de empresas que utilizam poços particulares para a rede pública de abastecimento também é apontada como uma alternativa.
Além de concentrar o controle da captação, a medida pode contribuir para o modelo de subsídio cruzado utilizado no saneamento, no qual diferentes categorias de consumidores ajudam a financiar a expansão e a universalização do serviço.
Reúso e novas fontes entram no planejamento
A diversificação da matriz hídrica é uma das principais recomendações do levantamento. O objetivo é reduzir a dependência tanto do Rio Negro quanto dos aquíferos, criando fontes alternativas para atividades que não necessitam de água potável.
Na indústria, por exemplo, parte da água utilizada em processos pode ser tratada e reutilizada. A captação de chuva também pode atender determinados usos, reduzindo a necessidade de recorrer à água distribuída pela rede ou extraída dos poços.
O monitoramento é outra frente considerada prioritária. Medidores, automação e acompanhamento contínuo do consumo podem identificar perdas e desperdícios antes que eles se transformem em custos maiores ou em pressão adicional sobre os recursos naturais.
A preservação dos mananciais completa a estratégia. O estudo cita a recuperação das margens dos rios, a conservação de nascentes e medidas para proteger os ecossistemas associados à água.
Para a presidente-executiva do Instituto Trata Brasil, Luana Pretto, o desafio de Manaus está menos relacionado à existência de água na região do que à capacidade de administrar o recurso diante das mudanças no clima e do crescimento da demanda.
A combinação de fiscalização das captações, proteção dos mananciais, redução de perdas, reúso e diversificação das fontes, segundo o estudo, pode diminuir a vulnerabilidade da cidade antes que o crescimento do consumo e a mudança do regime de chuvas ampliem o problema.







