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Grande Barreira de Coral pode entrar em colapso com novo El Niño extremo, afirmam cientistas

Combinação entre temperaturas recordes do oceano e um dos mais fortes eventos de El Niño já previstos pode provocar perdas irreversíveis

Por Ernesto Neves Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 22 jul 2026, 12h11 | Atualizado em 22 jul 2026, 16h09
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A perspectiva de um El Niño excepcionalmente intenso voltou a colocar a Grande Barreira de Coral, na Austrália, no centro das preocupações da comunidade científica.

Pesquisadores reunidos no 16º Simpósio Internacional sobre Recifes de Coral, em Auckland, alertam que o aquecimento adicional das águas do Pacífico pode desencadear um novo episódio de branqueamento em larga escala, comprometendo ainda mais um ecossistema que já sofre os efeitos acumulados da crise climática.

Segundo os especialistas, a sucessão de ondas de calor marinhas reduziu significativamente a capacidade de recuperação dos recifes. Isso significa que um novo evento extremo poderá causar mortalidade elevada de corais, reduzir a biodiversidade e, em algumas regiões, eliminar populações inteiras de determinadas espécies.

Ecossistema perdeu capacidade de recuperação

Durante o encontro científico, o ecólogo marinho Morgan Pratchett, da Universidade James Cook, afirmou que a principal preocupação já não é apenas o branqueamento em si, mas a frequência com que esses episódios vêm ocorrendo.

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Quando submetidos a temperaturas acima do normal durante semanas, os corais expulsam as microalgas que vivem em seus tecidos e lhes fornecem nutrientes e cor.

O resultado é o branqueamento. Embora seja um mecanismo de sobrevivência, o fenômeno enfraquece os organismos. Se o calor persiste ou se novos episódios ocorrem antes da recuperação completa, muitas colônias acabam morrendo.

Na avaliação do pesquisador, um El Niño de grande intensidade pode provocar perdas locais permanentes de espécies em diferentes trechos da Grande Barreira de Coral.

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O que torna o El Niño tão preocupante

O El Niño corresponde ao aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico equatorial central e oriental. Esse processo altera a circulação atmosférica, modifica padrões de chuva e intensifica ondas de calor em diversas partes do planeta.

Para os recifes australianos, o fenômeno costuma significar temperaturas oceânicas ainda mais elevadas justamente em um ambiente que já vem registrando recordes sucessivos de calor devido ao aquecimento global.

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Pesquisadores presentes no simpósio afirmam que a combinação entre a variabilidade natural do El Niño e a tendência de aquecimento causada pelas emissões de gases de efeito estufa aumenta substancialmente a probabilidade de um episódio severo de branqueamento em 2026.

Seis grandes episódios desde 2016

A deterioração da Grande Barreira de Coral se acelerou na última década.

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Levantamentos recentes mostram que a cobertura de corais duros diminuiu entre 2024 e 2025 após o sexto grande evento de branqueamento registrado desde 2016. Embora algumas áreas demonstrem capacidade de regeneração, outras acumulam perdas sucessivas que reduzem a resiliência do ecossistema.

Com cerca de 2.300 quilômetros de extensão ao longo da costa de Queensland, a Grande Barreira abriga milhares de espécies de peixes, corais, moluscos, tartarugas e mamíferos marinhos. Além de sua importância para a biodiversidade, o recife sustenta atividades pesqueiras e movimenta bilhões de dólares por meio do turismo.

Pressão internacional sobre a Austrália

A situação do recife também mantém a Austrália sob intenso escrutínio internacional.

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Desde 2021, a Unesco acompanha anualmente o estado de conservação da Grande Barreira de Coral e chegou a recomendar sua inclusão na lista de patrimônios mundiais em perigo. Nas últimas semanas, porém, o governo australiano conseguiu evitar essa classificação, apesar de avaliações das Nações Unidas apontarem preocupação máxima com a repetição dos episódios de branqueamento e com os impactos das mudanças climáticas sobre o ecossistema.

Recifes sustentam um quarto da vida marinha

Embora ocupem menos de 0,1% do fundo dos oceanos, os recifes de coral servem de habitat para aproximadamente um quarto de todas as espécies marinhas conhecidas. Eles também protegem áreas costeiras contra tempestades, sustentam a pesca artesanal e garantem renda e segurança alimentar para milhões de pessoas, especialmente na Ásia e no Pacífico.

Dados compilados por organismos internacionais indicam que o planeta perdeu cerca de 14% de seus recifes entre 2009 e 2018, principalmente em consequência do aquecimento dos oceanos.

“Estamos ignorando os sinais”, dizem pesquisadores

Outro participante do simpósio, o cientista Ove Hoegh-Guldberg, da Universidade de Queensland, defendeu uma resposta muito mais rápida dos governos para conter o avanço das mudanças climáticas.

Segundo ele, os sucessivos episódios de branqueamento representam um sinal inequívoco de que os ecossistemas marinhos estão ultrapassando seus limites de resistência. O pesquisador comparou a situação à de um navio que começa a afundar enquanto seus passageiros permanecem sem reagir, argumentando que o conhecimento científico disponível já demonstra a urgência da redução das emissões de gases de efeito estufa e da proteção dos oceanos.

Os debates realizados em Auckland refletem justamente esse consenso crescente entre pesquisadores de diversos países: preservar os recifes exigirá não apenas ampliar iniciativas locais de conservação, mas também limitar o aquecimento do planeta, considerado o principal fator de risco para esses ecossistemas nas próximas décadas.

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