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Entrevista: ‘Mudança climática ameaça produção em escala da alimentos’, diz especialista

Uma das maiores autoridades no tema, Tim Lang, alerta que a preocupação não é só o preço, mas estabilidade e variedade

Por Valéria França Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 28 jul 2026, 06h00 | Atualizado em 28 jul 2026, 15h55
Entrevista: ‘Mudança climática ameaça produção em escala da alimentos’, diz especialista Priorizar nos meus resultados Google

Durante décadas, o maior temor em relação às mudanças climáticas foi o aumento do preço dos alimentos. Para o britânico Tim Lang, professor emérito de Políticas Alimentares da Universidade de Londres, e uma das maiores autoridades mundiais no tema, há uma preocupação maior nos dias de hohe. O mundo começa a entrar em uma era em que não estarão ameaçadas apenas iguarias ou produtos de origem controlada, mas o próprio modelo de abastecimento que garantiu variedade, disponibilidade e relativa fartura nas últimas décadas. Em entrevista, Lang explica por que a volatilidade climática tende a substituir a estabilidade que sustentou a agricultura moderna e como isso poderá transformar profundamente o que chega ao prato dos consumidores. Mesmo com a forte inflação dos alimentos registrada nos últimos anos — no Brasil, ela se aproxima de 200% em uma década em diversos produtos —, os supermercados continuam oferecendo fartura. Mas o cenário tende a mudar, caso os governos e a própria economia continuem resistentes às adptações.

A crescente pressão sobre produtos premium e de origem geográfica protegida, como o Parmigiano Reggiano, é um sinal de uma transformação mais ampla no sistema alimentar global? Sim. Algumas das grandes marcas e empresas já estão olhando para os dados e para as tendências futuras e estão profundamente preocupadas. Seus modelos de negócios foram construídos sobre insumos baratos — em grande parte dependentes de combustíveis fósseis — e sobre a premissa de um clima relativamente estável. Mas qualquer atividade econômica, e não apenas a agricultura, precisa de estabilidade para funcionar. Hoje, tudo indica que a volatilidade climática será o novo normal.

As mudanças climáticas vão alterar profundamente o que chega ao prato dos consumidores? As mudanças climáticas já estão entre nós. À medida que se intensificam, também aumentam as rupturas nos padrões climáticos que antes considerávamos normais. Isso vai transformar tudo: o que será cultivado, a produtividade das lavouras e a forma como os alimentos são produzidos. Será um enorme desafio para todos os sistemas alimentares — locais, regionais e globais. 

A dificuldade tem a ver com a resistência às mudanças? Sim, as estruturas institucionais criadas no pós-Segunda Guerra Mundial, voltadas para produzir cada vez mais alimentos e alimentar uma população crescente, já enfrentam dificuldades. Os governos resistem a mudanças profundas. As empresas continuam presas a modelos produtivos altamente dependentes de combustíveis fósseis e de matérias-primas inadequadas para esse novo cenário. Ao mesmo tempo, os consumidores se acostumaram a uma oferta praticamente ilimitada de produtos. Esse modelo não conseguirá responder a um mundo em que as dinâmicas ecológicas voltam a impor seus limites.

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O quanto a adaptação pode compensar esses impactos? Ou algumas perdas já são inevitáveis? A adaptação é indispensável, mas, sozinha, não será suficiente para superar a força da transição ecológica em curso. Ainda assim, os seres humanos têm capacidade de inovar e de planejar o futuro. Precisamos estimular essa criatividade para enfrentar os desafios que virão.

Quais alimentos mais vulneráveis às mudanças climáticas? Por quê? Diferentes culturas serão afetadas de maneiras distintas. Os grandes grãos, dos quais depende boa parte da nutrição mundial, provavelmente sofrerão impactos importantes. Na horticultura, isso significa que produtores, agricultores e até jardineiros terão de experimentar novas espécies e variedades ao longo deste século.

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O que os consumidores devem esperar daqui para frente? As próximas gerações terão acesso aos mesmos alimentos que hoje consideramos tradicionais? Não existe um único perfil de consumidor no mundo. Há enormes diferenças de renda, expectativas e culturas alimentares. Nos países ricos, essas incertezas representam uma novidade. Essas sociedades construíram um modelo baseado na superprodução, em alimentos baratos e em uma enorme variedade de opções. Se esse modelo for abalado, ainda não sabemos como os consumidores reagirão.

E no países de menor renda? A população convive há muito tempo com menor diversidade de alimentos e encara a segurança alimentar como uma prioridade, a adaptação tende a ser diferente. Acredito que veremos respostas bastante distintas dos consumidores em diferentes regiões do mundo.

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