Entrevista: Como o High Line Park inspirou 46 projetos semelhantes nos Estados Unidos
Kira Strong, uma das diretoras do projeto, conta os desafios da requalificação de um espaço que recebe 9 milhões de visitantes por ano
Implantado sobre uma antiga linha férrea elevada a 8 metros de altura, o High Line é um jardim suspenso com mais de 500 espécies de plantas, que se tornou um dos pontos turísticos mais importantes de Nova York. O sucesso do local pode ser medido pelo número de visitantes: são 9 milhões de pessoas por ano. Mais do que um parque, o espaço, inaugurado em 2009, tornou-se um exemplo emblemático da importância da requalificação de áreas urbanas para a qualidade de vida dos moradores e da cidade como um todo. Projetos como esse, no entanto, encontram muitas dificuldades para sair do papel. Entre as primeiras conversas e o início das obras, foram necessários dez anos para que o projeto do escritório James Corner Field Operations, em parceria com o paisagista Piet Oudolf, se tornasse realidade. O modelo, porém, acabou inspirando 46 iniciativas semelhantes nos Estados Unidos.
Nesta terça-feira, 14, especialistas diretamente envolvidos no projeto participam do seminário Arq.Futuro – Novas Centralidades Urbanas, no Teatro Oficina do Estudante Iguatemi, em Campinas, no interior de São Paulo (mais informações sobre o evento aqui) . Entre eles está Kira Strong, diretora sênior da High Line Network, que vem ao Brasil pela primeira vez. Antes da viagem, ela falou à VEJA sobre os desafios e a importância da requalificação de espaços públicos. Abaixo o bate-papo com a especialista.
Como surgiu a High Line? Ele nasceu há cerca de 20 anos, quando moradores de Nova York se mobilizaram para salvar uma linha férrea elevada que seria demolida. A ideia era transformar aquele espaço abandonado em um parque público. Os fundadores, Joshua David e Robert Hammond, começaram o movimento em 1999, em uma reunião comunitária, e conseguiram articular apoio público e político para viabilizar o projeto.
O projeto sempre teve essa dimensão que vemos hoje? Não. A expectativa inicial era de cerca de 400 mil visitantes por ano, mas hoje a High Line recebe entre 6 e 9 milhões. O parque foi construído em etapas ao longo de duas décadas, com o último trecho inaugurado em 2019.
Apesaar od esforço e tempo consumido, o High Line virou um projeto replicável? Sim. Hoje existe uma rede com 46 projetos semelhantes na América do Norte. Alguns já foram concluídos, como em Seattle, e outros ainda estão em fase de captação de recursos, como em Buffalo. A ideia de reutilizar infraestrutura abandonada para criar espaços públicos ganhou muita força.
Você trabalhou durante sete anos na administração pública da Filadélfia, reconstruindo a infraestrutura comunitária. O que essa experiência contribui para sua atuação no High Line ? Lá, gerenciei um programa com cerca de 600 milhões de dólares para reconstruir parques, bibliotecas e centros comunitários em bairros de baixa renda. O foco era combinar design de alta qualidade com participação da comunidade e geração de empregos locais, especialmente para populações negra e parda. Essa experiência ajuda a pensar desde o financiamento até a execução dos projetos.
O financiamento é o principal desafio? Sem dúvida. Tanto a construção quanto a manutenção exigem recursos contínuos. Nos Estados Unidos, a filantropia tem um papel central, com doações individuais, corporativas e de fundações, muitas vezes incentivadas por benefícios fiscais.
Esse modelo funciona no Brasil? Ainda é algo relativamente novo. Existem iniciativas, como empresas que ajudam a gerir parques ou financiam projetos como contrapartida por empreendimentos. Mas ainda falta uma cultura mais estruturada de filantropia voltada para espaços públicos.
Quais são os principais desafios urbanos no Brasil? O Brasil é altamente urbanizado, mas ainda enfrenta déficits básicos, como saneamento e acesso à água. Em cidades como São Paulo, há também desigualdade, violência e falta de infraestrutura, o que impacta diretamente o uso dos espaços públicos.
Isso muda a forma como as pessoas se relacionam com a cidade? Sim. Em muitos casos, vemos uma tendência à privatização dos espaços e à construção de barreiras físicas, como muros, o que reduz a convivência. Isso é bem diferente de cidades como Nova York ou Philadelphia.
Como evitar que projetos como a High Line gerem gentrificação? É um desafio constante. Um dos caminhos é o engajamento comunitário. Trabalhamos com conselhos de vizinhança diversos, incluindo moradores de habitação pública, para garantir que o espaço seja acolhedor e representativo. A ideia é ser um “bom vizinho” e manter vínculos com a comunidade local.
E em relação à segurança nos parques? A percepção de segurança é tão importante quanto a segurança em si. Em vez de uma presença ostensiva de vigilância, que pode afastar pessoas, buscamos criar um ambiente acolhedor — por exemplo, com equipes que recebem os visitantes. Quanto mais o espaço é usado, mais seguro ele se torna.
Qual é a principal lição da High Line? Projetos como esse exigem visão de longo prazo, liderança e persistência. Eles começam com mobilização local, passam por articulação política e dependem de financiamento consistente. Mas, quando funcionam, transformam não só o espaço físico, como a forma como as pessoas se conectam na cidade.






