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Enchente mortal no Nepal expõe como o aquecimento desestabiliza o Himalaia

Colapso de uma geleira desencadeou avalanche de gelo e rochas que atingiu comunidades na fronteira com a China

Por Ernesto Neves Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 27 ago 2026, 13h13 | Atualizado em 27 ago 2026, 13h13
Enchente mortal no Nepal expõe como o aquecimento desestabiliza o Himalaia Priorizar nos meus resultados Google

Uma geleira que desabou no Himalaia desencadeou a enchente que matou centenas de pessoas no Nepal e na região do Tibete, segundo análises preliminares de cientistas.

O episódio é mais um sinal dos riscos associados ao aquecimento acelerado das áreas de alta montanha, onde o derretimento de gelo e o descongelamento do solo podem tornar encostas e geleiras mais instáveis.

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O desastre ocorreu na quarta-feira (26), próximo à fronteira entre Nepal e China. Uma parte da extremidade de uma geleira, a cerca de 5.200 metros de altitude, teria se desprendido e despencado aproximadamente 1.200 metros até o fundo de um vale.

No caminho, a massa incorporou gelo, rochas e sedimentos e atingiu o rio Lhende. O material bloqueou temporariamente o curso d’água, formando uma espécie de barragem natural. O rompimento provocou uma onda de água e detritos que avançou pelos vales.

O episódio chegou a ser associado inicialmente a um terremoto.

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O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) registrou um evento sísmico de magnitude 5,2 na região, mas a análise posterior indicou que o tremor foi produzido pelo próprio deslizamento de gelo e rocha, e não por um terremoto que teria provocado a avalanche.

A dimensão da tragédia ainda está sendo contabilizada. As estimativas mais recentes apontam para mais de 350 mortos e mais de 1.300 desaparecidos no Nepal e no Tibete, enquanto equipes de resgate continuam procurando vítimas e sobreviventes.

O papel do clima

O colapso específico da geleira ainda está sendo investigado.

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Não é possível, neste momento, atribuir o episódio exclusivamente à mudança climática. Mas o aquecimento do Himalaia está alterando as condições físicas que mantêm geleiras, encostas e solos congelados estáveis.

O Nepal perdeu cerca de um terço de seu gelo glacial nas últimas três décadas, segundo análises citadas por cientistas que acompanham o desastre. Ao mesmo tempo, o derretimento acelerou nos últimos anos.

O problema não se limita à redução do volume das geleiras.

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À medida que o gelo recua, novas áreas ficam expostas e podem se tornar instáveis. O aquecimento também contribui para o descongelamento do permafrost — solo permanentemente congelado que funciona como uma espécie de cimento natural em algumas regiões de alta montanha.

A combinação pode aumentar a probabilidade de deslizamentos, avalanches e enchentes repentinas.

“Global warming is making high-altitude regions unstable”, resumiu a revista Nature ao analisar o desastre, destacando o potencial de eventos semelhantes se tornarem mais frequentes.

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O Himalaia é particularmente sensível a essas transformações. A região do Hindu Kush-Himalaia concentra uma enorme quantidade de gelo e neve e alimenta grandes sistemas fluviais da Ásia.

Mudanças na criosfera — o conjunto formado por geleiras, neve e solo congelado — afetam não apenas a população das montanhas, mas também comunidades situadas centenas de quilômetros rio abaixo.

O risco também não termina com o colapso inicial.

O bloqueio de rios por grandes volumes de gelo, rocha e sedimentos pode formar lagos temporários. Se essas barreiras naturais se romperem, novas ondas de inundação podem atingir as áreas abaixo.

Nepal e China emitiram nesta quinta-feira (27) novos alertas depois da formação de lagos associados ao desastre.

Um risco que tende a crescer

O episódio reforça uma mudança importante no modo como cientistas avaliam os perigos associados ao aquecimento das montanhas. O problema não é apenas a perda gradual das geleiras e de sua capacidade de armazenar água.

O próprio desaparecimento do gelo pode alterar a estabilidade física da paisagem.

Para Simon Allen, pesquisador da Universidade de Zurique que estuda riscos glaciais no Himalaia, a combinação entre recuo das geleiras e descongelamento do permafrost indica que eventos desse tipo podem se tornar mais frequentes.

É justamente essa característica que torna o desastre no Nepal relevante para além de suas vítimas imediatas. O aquecimento global não precisa produzir diretamente uma enchente para aumentar o risco de uma catástrofe.

Ao modificar geleiras, encostas, rios e solos congelados, ele pode preparar o terreno para que eventos naturais produzam consequências cada vez mais severas.

Esse é o alerta que emerge do desastre no Himalaia: em uma região que já está esquentando rapidamente, o derretimento das geleiras não representa apenas a perda de uma reserva de água. Também pode transformar a própria paisagem em uma fonte de novos riscos.

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