El Niño já provoca secas, perdas agrícolas e pressão sobre alimentos em três continentes
Fenômeno deve se intensificar nos próximos meses; efeitos já aparecem na Índia, América Central, África e América do Sul
O El Niño de 2026 ainda não chegou ao seu auge, mas seus efeitos já começaram a aparecer em diferentes partes do planeta.
Secas, atrasos no plantio, perdas de lavouras e problemas de abastecimento de água já atingem áreas agrícolas na Ásia, na África e nas Américas, enquanto o oceano Pacífico continua aquecendo.
A NOAA, agência americana de meteorologia, confirmou nesta quinta-feira (13) que o El Niño está presente e que as temperaturas da superfície do mar estão acima da média no Pacífico equatorial central e oriental. A previsão é de fortalecimento do fenômeno até o fim do ano.
O cenário chama atenção porque o fenômeno pode se tornar excepcionalmente intenso.
A NOAA trabalha com uma probabilidade elevada de condições de El Niño muito forte nos próximos meses, enquanto projeções indicam que as temperaturas do Pacífico podem superar, entre outubro e dezembro, os níveis observados nos eventos mais intensos das últimas décadas, como os de 1982-83, 1997-98 e 2015-16.
O que normalmente seria uma preocupação para o fim do ano já se transformou em problema concreto para agricultores e comunidades rurais.
A agricultura já sente a mudança
A Índia é um dos exemplos mais importantes. O país depende do período de monções para boa parte de sua produção agrícola, e aproximadamente metade das terras cultivadas não conta com irrigação.
Segundo a Reuters, as chuvas da monção estavam 12% abaixo da média até agosto. Em algumas regiões, o déficit chegava a 34%. O enfraquecimento previsto das chuvas no oeste, centro e sul do país aumenta o risco para culturas como algodão, soja, milho e leguminosas.
O problema ocorre justamente no momento em que as plantações de verão estão começando a se desenvolver. Até 7 de agosto, agricultores indianos haviam plantado 96,8 milhões de hectares, cerca de 2% menos que no mesmo período do ano anterior.
Na Guatemala, o cenário é ainda mais severo. Dados citados pelo New York Times apontam que a chuva ficou até 85% abaixo da média em julho em algumas regiões. O déficit hídrico ocorre junto com temperaturas muito acima do normal, aumentando o estresse sobre as lavouras.
O Programa Mundial de Alimentos também já identifica impactos no chamado Corredor Seco da América Central. Em relatório publicado em julho, a organização afirmou que a variabilidade climática associada ao El Niño está reduzindo colheitas e dificultando o acesso a alimentos em comunidades rurais da Guatemala.
Na África Oriental, a combinação é particularmente complexa. O El Niño costuma trazer mais chuva para a região entre novembro e janeiro, mas sua chegada antecipada pode produzir o efeito contrário em determinadas áreas. No oeste do Quênia e nas terras altas da Etiópia, períodos de seca já atingem regiões agrícolas.
No oeste do Quênia, produtores de milho relatam colheitas drasticamente menores. O cenário descrito por equipes de monitoramento agrícola é de plantas que chegaram a pouco mais da metade da altura habitual e produtividade que pode cair de dezenas de sacas por hectare para apenas uma ou duas.
O risco para os alimentos é maior porque o El Niño chega em um mundo já pressionado
A preocupação não se limita à meteorologia. O fenômeno ocorre em um momento de elevada vulnerabilidade alimentar, com conflitos, custos de energia e fertilizantes e interrupções no comércio internacional pressionando os mercados agrícolas.
A FAO e o Programa Mundial de Alimentos lançaram em junho uma iniciativa para proteger quase 9 milhões de pessoas em 22 países dos efeitos esperados do El Niño. O alerta identifica riscos simultâneos de secas e enchentes em diferentes regiões.
O próprio WFP estima que o fenômeno possa contribuir para colocar quase 50 milhões de pessoas adicionais em situação de fome aguda até o fim do ano, dependendo da intensidade dos impactos sobre a produção agrícola e os meios de subsistência.
A organização destaca que o efeito não será uniforme. Algumas áreas enfrentarão falta de chuva; outras poderão sofrer com excesso de água, enchentes e perda de lavouras.
Isso torna o El Niño especialmente difícil de administrar para os mercados agrícolas: não se trata simplesmente de uma queda generalizada na produção, mas de uma redistribuição dos riscos climáticos entre regiões produtoras.
O Brasil está no centro dessa equação
Para o agronegócio brasileiro, o quadro é particularmente relevante porque o país se tornou uma das principais fontes de alimentos para o mercado mundial.
A distribuição dos efeitos, porém, pode ser bastante diferente dentro do próprio território brasileiro.
Uma análise da Reuters publicada nesta quinta-feira mostra que o Sul do Brasil, a Argentina, o Uruguai e o Paraguai podem receber mais chuva, favorecendo culturas como soja, milho e trigo. O excesso, porém, também pode criar problemas de fungos, erosão, perda de nutrientes e dificuldade para máquinas entrarem no campo.
No Norte do país, a perspectiva é diferente. Condições mais secas podem pressionar a agricultura, a geração de energia e o transporte.
Um dos pontos de atenção é a Amazônia. Níveis mais baixos dos rios podem dificultar o transporte de soja produzida no Centro-Oeste até os portos de exportação, criando um efeito que vai além da produção agrícola e chega à logística.
A própria geração de energia pode sentir os efeitos. Chuvas mais abundantes no Sul tendem a favorecer os reservatórios hidrelétricos da região, enquanto condições mais secas no Norte podem aumentar a pressão sobre outras fontes de geração.
O resultado é um mapa de riscos muito mais complexo do que simplesmente dizer que o El Niño será bom ou ruim para o Brasil.
Há uma diferença em relação aos grandes El Niños do passado
O sistema agrícola mundial também está mais preparado do que estava durante os episódios de 1997-98 e 2015-16.
Uma análise da Reuters aponta que ganhos de produtividade, irrigação, variedades de sementes mais resistentes à seca, agricultura de precisão e sistemas de previsão climática aumentaram a capacidade de resposta do setor. Os estoques mundiais de grãos também estão próximos de níveis historicamente elevados.
A posição do Brasil é particularmente importante nessa mudança. O país se consolidou como maior exportador mundial de soja e ampliou sua participação no comércio internacional de milho, carnes e outros produtos agrícolas.
Isso cria uma espécie de amortecedor para choques localizados. Se uma região produtora sofrer uma quebra, outros países podem compensar parte da perda.
Mas esse colchão não elimina o risco. Estoques elevados ajudam a absorver uma safra ruim; uma sequência de eventos extremos em vários grandes produtores pode produzir um choque muito maior.
O calor também está mudando de escala
O impacto do El Niño não ficará restrito à chuva.
O aquecimento das águas do Pacífico altera a circulação atmosférica e pode elevar as temperaturas em diferentes partes do mundo. Julho empatou com julho de 2024 como o mês mais quente já registrado globalmente, segundo a NOAA.
E 2026 ainda pode terminar como o ano mais quente da história. O climatologista Zeke Hausfather, da Berkeley Earth, estima uma probabilidade de 40% para isso, apesar de o início do ano ter sido mais frio que 2024.
A combinação entre o aquecimento provocado pela atividade humana e o El Niño aumenta a possibilidade de extremos ainda mais intensos.
É uma diferença importante em relação aos grandes eventos do século passado. O El Niño é um fenômeno natural, mas ele está acontecendo sobre um planeta que já está mais quente.
O pico ainda está por vir
O principal alerta, portanto, não é apenas o que já aconteceu, mas o que pode acontecer nos próximos meses.
A previsão da NOAA indica que o El Niño deve continuar se fortalecendo até o fim de 2026 e pode persistir no início de 2027.
Isso significa que os impactos registrados agora podem ser apenas o primeiro capítulo de um fenômeno que ainda está ganhando força.
Para os mercados agrícolas, o período decisivo será o segundo semestre. Para países dependentes de chuva, os próximos meses vão determinar se o déficit atual será apenas um episódio passageiro ou o início de uma crise mais ampla.
E, para o Brasil, o El Niño traz uma situação paradoxal: algumas das principais regiões produtoras do país podem se beneficiar das chuvas, enquanto outras enfrentam seca, problemas de logística e pressão sobre a energia.







