APURAÇÃO DAS ELEIÇÕES 2026

🗳️ Fique por dentro das eleições, pesquisas e análises com Veja Digital por apenas R$ 1,99/mês. Assine agora!

Eco Invest destina R$ 7 bilhões a minerais críticos em corrida pelas terras raras

Recursos do Eco Invest e linhas do BNDES buscam financiar mineração, processamento e tecnologia

Por Ernesto Neves Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 18 set 2026, 11h42 | Atualizado em 18 set 2026, 12h05
Eco Invest destina R$ 7 bilhões a minerais críticos em corrida pelas terras raras Priorize VEJA no Google

O Brasil vai ampliar o uso de recursos públicos para tentar transformar suas reservas de minerais críticos em uma cadeia industrial de maior valor agregado.

O Tesouro destinou R$ 7 bilhões à cadeia de minerais críticos no quinto leilão do Eco Invest Brasil, enquanto o BNDES colocou o setor entre as prioridades da nova etapa do programa Brasil Soberano.

A estratégia ocorre no momento em que países buscam reduzir a dependência de fornecedores concentrados, sobretudo da China, para matérias-primas utilizadas em veículos elétricos, baterias, equipamentos eletrônicos, turbinas e sistemas de defesa.

O movimento ganhou força nesta semana com a sanção da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, que estabelece como objetivos ampliar a pesquisa, a extração, o beneficiamento e a transformação desses recursos no país.

A lei também cria um conselho interministerial para definir projetos prioritários e prevê mecanismos de estímulo à industrialização.

Continua após a publicidade

O interesse brasileiro tem uma característica particular. O país possui uma das maiores reservas conhecidas de terras raras do planeta, mas sua participação na produção ainda é pequena.

A diferença entre o tamanho do recurso mineral e a capacidade de transformá-lo em produto industrial é justamente o principal desafio que os novos instrumentos de financiamento tentam enfrentar.

O que são minerais críticos

Minerais críticos são matérias-primas consideradas importantes para setores estratégicos e cujo fornecimento pode estar sujeito a riscos econômicos, tecnológicos ou geopolíticos.

Continua após a publicidade

A classificação varia de acordo com cada país e pode mudar conforme a tecnologia, a demanda e a disponibilidade de fornecedores.

Eles estão presentes em cadeias como veículos elétricos, baterias, geração e armazenamento de energia, eletrônicos, equipamentos médicos, defesa e indústria de alta tecnologia. A Agência Nacional de Mineração cita entre os minerais de interesse brasileiro elementos como lítio, níquel, cobre, grafita, nióbio e terras raras.

As terras raras, por sua vez, não são um único minério. O termo reúne 17 elementos químicos com propriedades específicas, utilizados em produtos que vão de smartphones e equipamentos médicos a motores elétricos e turbinas eólicas.

Continua após a publicidade

Apesar do nome, eles não são necessariamente raros na natureza. O problema é que normalmente aparecem dispersos e em concentrações que tornam sua extração e separação mais complexas.

Brasil tem uma das maiores reservas do mundo

O Brasil é apontado pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos como detentor de cerca de 21 milhões de toneladas de reservas de terras raras, atrás apenas da China entre os países com reservas declaradas. A vantagem brasileira, porém, ainda não se converteu em produção proporcional.

Dados do USGS mostram que a produção brasileira de concentrado de terras raras ainda é pequena em relação à dos principais produtores.

Continua após a publicidade

Em 2024, a Serra Verde iniciou a produção comercial de concentrado misto de terras raras no depósito de Pela Ema, em Minaçu, Goiás.

A empresa projeta capacidade de cerca de 5.000 toneladas anuais de óxidos de terras raras quando a primeira fase atingir sua produção plena.

A dimensão do descompasso fica mais clara quando se observa a cadeia internacional. A China continua sendo o principal produtor e concentra grande parte das etapas de separação e processamento.

Continua após a publicidade

O resultado é que possuir reservas não garante capacidade de fabricar os ímãs, componentes e equipamentos que incorporam esses elementos.

No Brasil, há projetos em diferentes estágios de desenvolvimento, mas o país ainda precisa ampliar a infraestrutura industrial para transformar o concentrado mineral em produtos intermediários e, posteriormente, em componentes de maior valor.

O gargalo está depois da mina

O principal desafio brasileiro não é apenas encontrar terras raras. É criar uma cadeia capaz de separar os elementos, refiná-los e transformá-los em insumos industriais.

Uma análise divulgada pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), com base em avaliação do pesquisador Fernando Landgraf, da Escola Politécnica da USP, aponta que o país precisa desenvolver unidades de separação e refino e, em uma etapa posterior, avançar para a fabricação de ímãs permanentes de alta potência.

Os ímãs são particularmente importantes porque utilizam elementos como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio e são empregados em motores elétricos e geradores.

Segundo a análise citada pelo Ipen, para produzir uma tonelada de ímãs são necessárias aproximadamente duas toneladas de carbonato de terras raras.

Isso ajuda a explicar por que a política brasileira busca ir além da exportação de minério ou concentrado. Quanto mais etapas forem realizadas no país, maior tende a ser o conteúdo tecnológico e industrial associado à atividade.

Como funciona o Eco Invest

O Eco Invest Brasil é um programa do Tesouro Nacional criado para usar recursos públicos como capital catalítico, isto é, como uma forma de reduzir riscos e atrair dinheiro privado para projetos considerados estratégicos para a transformação ecológica e industrial.

Na prática, o governo não pretende financiar sozinho todos os investimentos. A lógica é utilizar uma parcela de recursos públicos para melhorar as condições de financiamento e mobilizar um volume maior de capital privado.

No quinto leilão do programa, lançado em maio, o governo estabeleceu mecanismos voltados a cadeias consideradas estratégicas, incluindo beneficiamento de minerais críticos, baterias, combustíveis verdes, fertilizantes, inteligência artificial aplicada à indústria e química verde.

O Tesouro anunciou até R$ 2,5 bilhões para fundos de inovação e até R$ 1 bilhão para uma linha de crédito corporativo, com exigência de participação privada.

O resultado final, divulgado nesta semana, reservou R$ 7 bilhões para a cadeia de minerais críticos, combinando instrumentos de participação em empresas e crédito.

Os bancos vencedores ainda passavam por processo de homologação no momento do anúncio.

O modelo é diferente de um empréstimo convencional do governo.

Parte do dinheiro pode entrar em fundos que investem diretamente em empresas, enquanto outra parcela é utilizada para financiar projetos que já estejam mais próximos da escala comercial.

BNDES também reduz o custo do dinheiro

O BNDES já possui uma linha específica para minerais críticos e estratégicos. Ela pode financiar desde pesquisa e exploração mineral até estudos de viabilidade, lavra, beneficiamento, refino e transformação, além da produção de insumos para baterias, motores elétricos e veículos eletrificados.

Na nova etapa do Brasil Soberano, minerais críticos e terras raras também foram incluídos entre os setores estratégicos.

Para empresas industriais e tecnológicas da cadeia enquadradas nas regras do programa, o custo financeiro direto do BNDES parte de 3% ao ano, acrescido da remuneração do banco e do risco de crédito.

O financiamento pode chegar a R$ 500 milhões por grupo econômico, com participação de até 100% dos itens financiáveis em determinadas modalidades.

A nova linha tem, portanto, uma função diferente da do Eco Invest. Enquanto o Eco Invest busca principalmente combinar capital público e privado para viabilizar investimentos e inovação, o BNDES oferece crédito de longo prazo para projetos produtivos.

O banco também já atua por meio de fundos de participação. Em parceria com a Vale, lançou um fundo voltado à mineração de minerais considerados relevantes para a descarbonização, incluindo lítio, nióbio e terras raras.

Uma política para evitar a exportação de minério de baixo valor

A preocupação com o valor agregado está no centro da nova Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.

A lei sancionada nesta semana estabelece como objetivos não apenas a pesquisa e a lavra, mas também o beneficiamento, a transformação mineral e a mineração urbana.

O governo também criou o Fundo Garantidor da Atividade Mineral, com previsão de aporte de R$ 2 bilhões da União, para apoiar empreendimentos relacionados aos minerais críticos e estratégicos.

A política prevê ainda mecanismos para estimular o processamento e a transformação no território nacional.

A estratégia responde a uma disputa econômica que vai além da mineração. Estados Unidos, Europa, Japão e outros países buscam diversificar fornecedores de minerais considerados estratégicos para tecnologias de energia, eletrônica e defesa.

A concentração da cadeia chinesa, principalmente nas etapas de processamento, tornou o acesso a esses materiais uma questão industrial e geopolítica.

O desafio brasileiro é transformar reserva em cadeia

O Brasil parte de uma posição relevante em recursos naturais, mas ainda precisa construir uma indústria capaz de capturar uma parcela maior do valor gerado pelas terras raras.

Isso envolve investimentos em pesquisa geológica, mineração, separação química, refino, infraestrutura, mão de obra especializada e desenvolvimento tecnológico.

Também exige resolver questões ambientais, já que projetos de mineração precisam passar pelo licenciamento e administrar resíduos e outros impactos associados ao processamento mineral.

A própria política nacional estabelece que os projetos devem buscar desenvolvimento sustentável e maior agregação de valor em território brasileiro.

O resultado dos novos programas de financiamento dependerá, portanto, menos do tamanho das reservas do que da capacidade de transformar o recurso mineral em uma cadeia produtiva.

O objetivo econômico é fazer com que o Brasil deixe de ser apenas fornecedor de matéria-prima e avance para etapas de processamento e fabricação de componentes usados nas tecnologias que sustentam a eletrificação e a indústria de alta tecnologia.

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Multidão de pessoas em protesto na rua, com prédios e árvores ao fundo. À esquerda, texto branco UM PAÍS SE FORTALECE COM INFORMAÇÃO em fundo preto. À direita, texto Jornalismo de qualidade para entender o Brasil, o mundo e tomar decisões mais conscientes. e a palavra veja em vermelho, junto a várias capas da revista Veja em perspectivaMultidão de pessoas de costas, com braços levantados, em uma rua urbana com prédios altos e árvores. À direita, várias capas da revista Veja com diferentes manchetes e imagens.
OFERTA ESPECIAL ELEIÇÕES

Digital Eleições

A notícia em tempo real na palma da sua mão!
Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês*
ECONOMIZE R$ 325 - 45% OFF

Revista em Casa + Digital Premium

Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Premium (cada revista sai por menos de R$ 10,00)
De: R$ 59,99/mês
A partir de R$ 32,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).