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Do Brasil à Rússia: o papel das florestas na captura de carbono

Ao contrário da Amazônia, as florestas da Rússia absorvem mais carbono do que o esperado, mas as políticas ambientais do país colocam o equilíbrio em xeque

Por Nathan Fernandes 28 jul 2021, 10h12

Neste mês, o Brasil e o mundo foram impactados pela descoberta de que a floresta amazônica — conhecida por sua capacidade de retirar gás carbônico da atmosfera — está atualmente emitindo mais gases do tipo do que é absorvido, contribuindo para o avanço da crise climática. Reverter o processo, no entanto, não é garantia de benefícios para o meio ambiente, como sugerem outros estudos. 

Na pesquisa publicada recentemente na Nature, a pesquisadora brasileira Luciana Gatti e a equipe do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostraram que as emissões de carbono foram dez vezes maiores em áreas com mais de 30% de desmatamento na Amazônia, e que apenas 18% das emissões por queimadas estão sendo absorvidas pela floresta, resultando num montante de mais de um bilhão de toneladas de dióxido de carbono despejadas na atmosfera por ano. As principais responsáveis pelas emissões são as queimadas, destinadas a limpar terras para a produção de carne e soja. 

De acordo com os pesquisadores, os estados do Pará e do Mato Grosso são epicentros do problema. “Nos últimos 40 anos, a parte leste da Amazônia tem sido sujeita a mais desmatamento, aquecimento e estresse por umidade do que a parte oeste, especialmente durante a estação seca, com o sudeste experimentando as tendências mais fortes”, escreveram no artigo. 

Já na Rússia, cientistas observaram o oposto do que é registrado aqui. Na maior área de floresta do planeta, que se estende por onze fusos horários, uma nova pesquisa sugere que à medida que as árvores aumentam seu ritmo de crescimento e avançam na direção da tundra ártica, próximo do Pólo Norte, a taxa de absorção de carbono também aumenta. Ou seja, “as florestas russas desempenham um papel global ainda mais importante no sequestro de carbono do que se pensava anteriormente”, como concluiu o autor principal do estudo publicado na Nature, Dmitry Schepaschenko, do Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados (IIASA, na sigla em inglês), organização intergovernamental sediada na Áustria.

De acordo com o levantamento, desde 1988, a floresta boreal, ou taiga, capturara cerca de 1,7 bilhão de toneladas de dióxido de carbono por ano, 47% a mais do que já foi declarado oficialmente, segundo Schepaschenko. 

Ao contrário do registrado na Amazônia, a notícia é boa para o planeta, mas traz um aspecto que preocupa os cientistas do clima. A Rússia já compensa mais de um quarto das emissões de combustíveis fósseis com a ajuda das florestas. Além disso, no início do ano, Putin anunciou planos de arrendar áreas florestadas para venda de crédito de carbono a empresas interessadas, através de uma plataforma digital. Na mesma linha,  o ministro para o desenvolvimento do Extremo Oriente e Ártico, Alexey Chekunkov, definiu: “Nós temos o potencial para nos tornarmos um grande hub de captura de carbono”. 

O exemplo da Rússia mostra que assegurar que as florestas absorvam grandes volumes de carbono não é uma garantia de harmonia com as demandas climáticas globais. “Primeiro você declara algum ecossistema natural como seu, porque você é um país ou uma entidade política e essa região está localizada em seu território. Então, você afirma que, por causa desta ou daquela política, está absorvendo grandes quantidades de carbono. Etapa três, inclua essa absorção como parte de suas obrigações de redução de carbono… Problema resolvido”, resumiu Wolfgang Knorr, cientista do clima e pesquisador sênior da Universidade de Lund, na Suécia. 

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