Calor extremo já custou pelo menos R$ 215 bilhões à Alemanha neste verão
Onda de calor, seca e rios em níveis críticos atingiram agricultura, indústria, transporte e produtividade
A Alemanha está descobrindo que uma onda de calor pode provocar uma conta econômica tão pesada quanto uma crise industrial.
O verão de 2026, marcado por temperaturas recordes e uma longa sequência de dias secos, já provocou pelo menos 36 bilhões de euros em prejuízos, o equivalente a cerca de 215 bilhões de reais, segundo uma estimativa divulgada nesta segunda-feira (24) pelo Greenpeace.
O cálculo inclui perdas de produção agrícola, danos às florestas, incêndios, custos relacionados à saúde, interrupções no transporte de cargas e redução da produtividade dos trabalhadores.
O valor corresponde a aproximadamente 0,8% a 0,9% do Produto Interno Bruto (PIB) alemão. A própria organização ressalta que se trata de uma estimativa e que alguns impactos ainda não podem ser mensurados.
A dimensão do número ajuda a mostrar por que eventos climáticos extremos deixaram de ser apenas um problema ambiental. Em uma das maiores economias industriais do mundo, o calor e a falta de chuva começaram a afetar diretamente estradas, rios, fábricas, lavouras e o mercado de trabalho.
O calor também parou de ser apenas um problema de saúde
A maior parcela do prejuízo estimado pelo Greenpeace está justamente relacionada ao trabalho.
A organização calcula em 11 bilhões de euros as perdas decorrentes da queda de produtividade e das horas de trabalho comprometidas pelas temperaturas elevadas.
O problema é particularmente relevante para a Alemanha porque boa parte de sua economia depende de atividades industriais e logísticas. Quando o calor reduz a capacidade de trabalho ou obriga empresas a interromper operações, o impacto se espalha pela cadeia produtiva.
Os custos relacionados à saúde foram estimados em 7 bilhões de euros. O levantamento também considera os efeitos econômicos de mortes associadas ao calor.
Segundo estimativas citadas pelo Greenpeace com base em dados do Instituto Robert Koch, cerca de 14 mil mortes relacionadas às altas temperaturas ocorreram na Alemanha entre abril e agosto.
O Reno virou um gargalo para a indústria
Um dos efeitos mais visíveis da seca ocorre nos rios.
O Reno, principal via fluvial de transporte de cargas da Alemanha, está com níveis de água excepcionalmente baixos. Em alguns trechos, embarcações precisam reduzir drasticamente a quantidade de carga transportada para evitar encalhes.
Isso tem consequências que vão muito além da navegação. O rio é uma importante rota para o transporte de matérias-primas e produtos utilizados pela indústria alemã. Com menos carga por embarcação, o custo do transporte aumenta e algumas empresas enfrentam atrasos no recebimento de insumos.
O Bundesbank, banco central alemão, alertou na semana passada que os baixos níveis dos rios já estão prejudicando o transporte de mercadorias e podem dificultar a recuperação da economia no terceiro trimestre.
A situação é especialmente delicada para setores como química, siderurgia e refino de petróleo, que dependem do transporte de grandes volumes de matérias-primas.
O impacto pode aparecer no PIB
O problema climático chega em um momento particularmente ruim para a Alemanha. A economia do país vem tentando se recuperar de anos de baixo crescimento, com dificuldades na indústria, energia cara e perda de competitividade de setores tradicionais.
Agora, a seca adiciona um novo obstáculo.
Uma análise do Financial Times aponta que as restrições provocadas pelo baixo nível do Reno podem reduzir em até 0,3 ponto percentual as projeções de crescimento econômico alemão.
Em alguns trechos, a profundidade do rio chegou a níveis que obrigam barcaças a transportar apenas uma fração de sua capacidade normal.
Isso cria um círculo difícil para a indústria: menos água significa menos carga por navio, o que aumenta o custo logístico; custos maiores pressionam as empresas; e atrasos na chegada de insumos podem comprometer a produção.
Agricultura também sofre
A agricultura é outro setor diretamente atingido.
A combinação de temperaturas elevadas e falta de chuva reduziu a umidade do solo em diversas regiões. A expectativa é de perdas importantes em algumas culturas, embora a dimensão final da quebra ainda esteja sendo calculada.
O efeito não termina na fazenda. Uma safra menor pode elevar preços, reduzir a renda dos produtores e aumentar a necessidade de importação de determinados produtos.
O Greenpeace estima entre 5 bilhões e 7,5 bilhões de euros os danos provocados às florestas. Incêndios também se tornaram mais frequentes em áreas afetadas pela combinação de calor e vegetação seca.
Europa teve o verão mais quente já registrado
O episódio alemão faz parte de um fenômeno muito maior.
Dados do Copernicus, serviço climático da União Europeia, mostram que junho e julho de 2026 formaram o período mais quente já registrado para a Europa Ocidental.
A temperatura média nos dois meses chegou a 21,62 °C, 2,79 °C acima da média de 1991 a 2020 e quase 0,9 °C acima do recorde anterior, registrado em 2022.
A combinação de calor persistente e seca também aumentou o risco de incêndios.
O solo mais seco reduz a capacidade natural de resfriamento da superfície, o que pode reforçar ainda mais as temperaturas e criar condições favoráveis para novos episódios extremos.
A conta real pode ser ainda maior
Os 36 bilhões de euros não representam necessariamente o custo total do verão extremo.
A estimativa não consegue incorporar completamente alguns efeitos de longo prazo, como perda de biodiversidade, degradação dos solos, danos aos ecossistemas, redução da disponibilidade de água e impactos futuros sobre a infraestrutura.
Também há um efeito menos evidente. A água é um insumo econômico. Além de transportar mercadorias, ela é necessária para determinadas atividades industriais e para o resfriamento de instalações de geração de energia.
Por isso, episódios prolongados de seca podem produzir efeitos em setores que não estão diretamente relacionados à agricultura.
A situação alemã oferece, assim, uma espécie de retrato antecipado de um problema que tende a se tornar mais frequente com o avanço do aquecimento global: o custo da mudança climática não aparece apenas na reconstrução depois de uma enchente ou de um incêndio.
Ele também surge silenciosamente na forma de menor produtividade, transporte mais caro, perda de safra, pressão sobre a saúde e menor crescimento econômico.







