Brasil tem grande trunfo na guerra dos minerais críticos — e um obstáculo à mesma altura
País ganha relevância na disputa global pela inteligência artificial, mas ainda enfrenta gargalos
O Brasil pode ser um dos grandes vencedores da nova corrida global pela inteligência artificial, desde que consiga ir além da extração de minérios.
Um relatório da agência de classificação de risco Moody’s mostra que o país reúne uma combinação rara de vantagens competitivas: grandes reservas de minerais críticos, energia predominantemente renovável e uma indústria mineral consolidada.
Esses ativos colocam o Brasil em posição privilegiada para atender à explosão da demanda por cobre, lítio, grafite, níquel, terras raras e nióbio, matérias-primas indispensáveis para fabricar chips, baterias, data centers e equipamentos que sustentam a revolução da inteligência artificial.
O desafio é transformar essa riqueza geológica em capacidade industrial, reduzindo a dependência mundial da China no processamento desses materiais.
A oportunidade surge em um momento de reorganização da economia mundial.
Estados Unidos, Europa e Japão procuram diversificar suas cadeias de suprimentos para reduzir a dependência chinesa, enquanto governos passam a tratar minerais críticos como ativos estratégicos para segurança nacional, transição energética e inteligência artificial.
Nesse cenário, a América Latina ganhou protagonismo, mas o Brasil se destaca por reunir uma cesta diversificada de recursos minerais e uma matriz elétrica predominantemente renovável, atributo cada vez mais valorizado por indústrias intensivas em energia.
O trunfo brasileiro
O país ocupa posição de destaque na produção mundial de grafite, níquel e nióbio, mineral do qual concentra a maior parte das reservas conhecidas do planeta.
Também amplia sua presença no mercado de terras raras, fundamentais para motores elétricos, turbinas e equipamentos de defesa.
Para a Moody’s, a combinação entre abundância de recursos naturais, experiência na mineração e disponibilidade de energia limpa coloca o Brasil entre os países mais bem posicionados para atrair investimentos em uma cadeia produtiva que movimentará centenas de bilhões de dólares nas próximas décadas.
O elo que falta
Mas a principal oportunidade está justamente onde o país ainda é mais frágil.
Grande parte dos minerais extraídos segue para processamento no exterior, especialmente na China, que domina as etapas de refino e fabricação de insumos de maior valor agregado.
É justamente nessa fase que se concentram a tecnologia, as maiores margens de lucro e a capacidade de influenciar cadeias globais de abastecimento.
Segundo a Moody’s, ampliar a capacidade de processamento doméstico permitiria ao Brasil capturar uma fatia muito maior da riqueza gerada pela revolução da inteligência artificial, deixando de atuar apenas como fornecedor de matéria-prima.
Os desafios
A transformação, porém, exigirá investimentos bilionários, estabilidade regulatória e infraestrutura.
O relatório aponta que atrasos no licenciamento ambiental, gargalos logísticos, necessidade de capital intensivo e volatilidade dos preços internacionais ainda limitam novos projetos na região.
Para a Moody’s, os países que conseguirem combinar segurança jurídica, políticas industriais consistentes e capacidade de agregar valor aos seus recursos naturais estarão mais preparados para ocupar uma posição estratégica na economia da inteligência artificial.







