Atafona: como o avanço do mar apagou ruas, casas e parte da história de um distrito do Norte Fluminense
Erosão costeira transforma há décadas a paisagem do distrito, onde centenas de construções já foram destruídas pelo oceano
A primeira coisa que desaparece é a paisagem conhecida. Depois, vêm as casas, as ruas, os quintais e as referências que durante décadas ajudaram a organizar a vida de quem vive ali. Em Atafona, distrito de São João da Barra, no Norte Fluminense, a história da erosão costeira pode ser contada pelo que já não está mais onde deveria.
Há cerca de seis décadas, o Oceano Atlântico avança sobre uma faixa de terra localizada na foz do Rio Paraíba do Sul e vem redesenhando o território. Ao longo desse período, mais de 500 construções desapareceram. Quarteirões inteiros foram apagados e antigos endereços passaram a existir apenas nas lembranças dos moradores e em fotografias de família.
No passado, Atafona era um balneário marcado pelo movimento dos veranistas, especialmente das famílias de Campos dos Goytacazes, que construíam ali suas casas de praia. A vida do distrito estava ligada ao encontro entre o rio e o mar. Mas a dinâmica desse mesmo território se transformou. O que antes era ocupado por casas e árvores passou, em vários pontos, a dar lugar a uma sucessão de ruínas: paredes sem telhado, lajes quebradas, fundações expostas e vergalhões cravados na areia.
É uma paisagem que parece estar sempre inacabada. O mar destrói uma construção, a areia se desloca, o que restou fica exposto e, pouco depois, também pode desaparecer. Em Atafona, nem mesmo as ruínas permanecem intactas por muito tempo. A transformação, porém, não aconteceu de uma vez. Ela foi se impondo lentamente sobre o distrito. Em algumas áreas, a erosão foi tão intensa que moradores viram o oceano se aproximar de construções que antes estavam afastadas da praia. Nas últimas décadas, edifícios públicos, estabelecimentos comerciais e residências foram atingidos pelo avanço das águas. O distrito perdeu parte de sua estrutura urbana e, também, um pedaço de sua memória coletiva.
Fenômeno complexo
As causas do fenômeno são complexas. Atafona está em uma área naturalmente dinâmica, no encontro do Rio Paraíba do Sul com o Atlântico, e pesquisadores apontam uma combinação de fatores ligados ao comportamento das ondas, dos ventos, das marés e do transporte de sedimentos. As intervenções realizadas ao longo do curso do rio também aparecem nas pesquisas como um elemento que pode ter agravado o desequilíbrio da região.
O resultado é visível muito antes de qualquer explicação científica. Basta caminhar pela orla para perceber que o mapa de Atafona não é fixo. A linha da praia muda, as referências desaparecem e o território precisa ser constantemente refeito na memória de quem mora ali.
Hoje, as ruínas se tornaram também parte da identidade visual do distrito. Onde antes havia uma cidade de veraneio, a erosão criou uma paisagem peculiar, feita de concreto, areia e mar. Pesquisadores que estudam a região observam justamente esse contraste entre o passado do balneário e o cenário atual, no qual vestígios das antigas construções se transformaram em registros materiais de uma geografia em permanente mudança.
Em Atafona, portanto, o avanço do mar destruiu imóveis, mas mudou a relação dos moradores com o próprio espaço. Uma rua pode deixar de existir, uma casa pode se transformar em escombro e uma paisagem inteira pode ser diferente em poucos anos. É por isso que o caso do distrito se tornou um dos exemplos mais emblemáticos da erosão costeira no país. Enquanto o debate científico e as autoridades procuram alternativas para enfrentar o problema, Atafona continua convivendo com uma transformação que acontece agora, onda após onda.







