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Atafona: como o avanço do mar apagou ruas, casas e parte da história de um distrito do Norte Fluminense

Erosão costeira transforma há décadas a paisagem do distrito, onde centenas de construções já foram destruídas pelo oceano

Por Simone Blanes Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 2 set 2026, 07h39 | Atualizado em 2 set 2026, 07h45
Atafona: como o avanço do mar apagou ruas, casas e parte da história de um distrito do Norte Fluminense Priorizar nos meus resultados Google

A primeira coisa que desaparece é a paisagem conhecida. Depois, vêm as casas, as ruas, os quintais e as referências que durante décadas ajudaram a organizar a vida de quem vive ali. Em Atafona, distrito de São João da Barra, no Norte Fluminense, a história da erosão costeira pode ser contada pelo que já não está mais onde deveria.

Há cerca de seis décadas, o Oceano Atlântico avança sobre uma faixa de terra localizada na foz do Rio Paraíba do Sul e vem redesenhando o território. Ao longo desse período, mais de 500 construções desapareceram. Quarteirões inteiros foram apagados e antigos endereços passaram a existir apenas nas lembranças dos moradores e em fotografias de família.

No passado, Atafona era um balneário marcado pelo movimento dos veranistas, especialmente das famílias de Campos dos Goytacazes, que construíam ali suas casas de praia. A vida do distrito estava ligada ao encontro entre o rio e o mar. Mas a dinâmica desse mesmo território se transformou. O que antes era ocupado por casas e árvores passou, em vários pontos, a dar lugar a uma sucessão de ruínas: paredes sem telhado, lajes quebradas, fundações expostas e vergalhões cravados na areia.

É uma paisagem que parece estar sempre inacabada. O mar destrói uma construção, a areia se desloca, o que restou fica exposto e, pouco depois, também pode desaparecer. Em Atafona, nem mesmo as ruínas permanecem intactas por muito tempo. A transformação, porém, não aconteceu de uma vez. Ela foi se impondo lentamente sobre o distrito. Em algumas áreas, a erosão foi tão intensa que moradores viram o oceano se aproximar de construções que antes estavam afastadas da praia. Nas últimas décadas, edifícios públicos, estabelecimentos comerciais e residências foram atingidos pelo avanço das águas. O distrito perdeu parte de sua estrutura urbana e, também, um pedaço de sua memória coletiva.

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Fenômeno complexo

As causas do fenômeno são complexas. Atafona está em uma área naturalmente dinâmica, no encontro do Rio Paraíba do Sul com o Atlântico, e pesquisadores apontam uma combinação de fatores ligados ao comportamento das ondas, dos ventos, das marés e do transporte de sedimentos. As intervenções realizadas ao longo do curso do rio também aparecem nas pesquisas como um elemento que pode ter agravado o desequilíbrio da região.

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O resultado é visível muito antes de qualquer explicação científica. Basta caminhar pela orla para perceber que o mapa de Atafona não é fixo. A linha da praia muda, as referências desaparecem e o território precisa ser constantemente refeito na memória de quem mora ali.

Hoje, as ruínas se tornaram também parte da identidade visual do distrito. Onde antes havia uma cidade de veraneio, a erosão criou uma paisagem peculiar, feita de concreto, areia e mar. Pesquisadores que estudam a região observam justamente esse contraste entre o passado do balneário e o cenário atual, no qual vestígios das antigas construções se transformaram em registros materiais de uma geografia em permanente mudança.

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Em Atafona, portanto, o avanço do mar destruiu imóveis, mas mudou a relação dos moradores com o próprio espaço. Uma rua pode deixar de existir, uma casa pode se transformar em escombro e uma paisagem inteira pode ser diferente em poucos anos. É por isso que o caso do distrito se tornou um dos exemplos mais emblemáticos da erosão costeira no país. Enquanto o debate científico e as autoridades procuram alternativas para enfrentar o problema, Atafona continua convivendo com uma transformação que acontece agora, onda após onda.

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