A agonia dos rios míticos: por que Danúbio e o Reno viram símbolos da emergência climática
De grande relevância histórica e econômica para a Europa, eles sofrem a maior perda de vazão já registrada
No imaginário da Europa, o Danúbio e o Reno não são apenas rios, mas quase entidades vivas: os dois cursos d’água demarcam a identidade de diversos povos do continente. O modo como foram louvados na música resume sua força cultural. No século XIX, o compositor austríaco Johann Strauss compôs a valsa O Danúbio Azul, que narra a relação romântica do país de origem dele e de sua capital, Viena, com o rio que atravessa várias nações do Leste Europeu. Na mesma época, o alemão Richard Wagner fez do Reno, com suas paisagens rochosas e castelos, o personagem central de O Anel do Nibelungo, ópera épica baseada numa lenda medieval que encapsula a alma alemã. Diante de rios com tanta história e relevância, é compreensível a preocupação com o drama existencial enfrentado no momento pelo Danúbio e pelo Reno. Em meio a uma emergência climática sem precedentes na Europa, com a somatória de ondas de calor, incêndios florestais e seca severa, ambos estão perdendo vazão de forma drástica. Uma agonia que só se aprofunda e vem produzindo imagens de uma impensável distopia ambiental.
As consequências econômicas, sociais e ecológicas da crise têm batido à porta dos países que dependem das águas. Hoje, os dois rios que marcaram os limites do Império Romano são essenciais para a pesca, irrigação agrícola e geração de energia. Além disso, a integração comercial é intensa ao longo deles. O Danúbio, que nasce na Floresta Negra da Alemanha e desemboca no Mar Negro, passando por países como Hungria, Sérvia e Romênia, funciona como uma eficiente hidrovia para o transporte de grãos e outros produtos. Já o Reno, que sai dos Alpes Suíços quase em linha reta até os Países Baixos, cortando toda a Alemanha, tem papel importante no traslado de insumos e produtos industriais — numa escala que consumiria recursos pesados se dependesse de outros meios.
O ocaso desses rios é mais um desdobramento de um dado perturbador: se o mundo inteiro já sente efeitos concretos das mudanças climáticas, nenhuma região é atingida tão em cheio quanto a Europa. Dados do Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus confirmam que o período entre junho e julho de 2026 foi o mais quente e seco já registrado no continente. Impulsionada pelo Super El Niño, uma sucessão sem fim de sistemas de alta pressão trouxe uma combinação de escassez de chuva e temperaturas não raro acima dos 40 graus, resultando em um ciclo devastador de ressecamento do solo.
Nas décadas recentes, o Danúbio e o Reno sofreram perdas de volume dramáticas em estações marcadas pelo El Niño. Mas essas crises têm sido piores a cada passagem do fenômeno — e a seca dos rios, seguindo essa tendência, chegou a um nível inédito em 2026. Desde o fim de maio, o calor não se dissipou, e a vazão de ambos entrou em virtual colapso. O Reno chegou a apenas 40 centímetros de profundidade em diversos pontos, revelando extensos bancos de areia e comprometendo a navegação e o turismo. O Danúbio não está em melhores condições. Medições dos sistemas hidrológicos da Hungria mostraram que na capital do país, Budapeste, onde atinge seu esplendor, o rio azul não passou de 50 centímetros entre o fim de julho e o início de agosto — o nível usual ficava entre 4 e 10 metros.
As consequências da queda de vazão dos rios são graves e produzem cenas surreais, em especial ao longo do Danúbio. Na mesma Budapeste, a seca deixou seu leito tão exposto que turistas e habitantes podem arriscar uma caminhada em pontos onde antes passava a correnteza. Na Romênia, as autoridades explodiram pedras no rio na tentativa de aumentar sua vazão e, assim, evitar que faltasse água para o resfriamento de uma usina nuclear responsável por 20% da energia do país. Não adiantou: a falta de água forçou seu desligamento, por razões de segurança. A seca também desenterrou marcas do passado europeu. Perto de Ryahovo, na Bulgária, os níveis baixos desnudaram o que podem ser fósseis de um mamute. Na Sérvia, o leito quase seco revelou os destroços de barcos nazistas afundados na II Guerra.
A situação dos dois rios explicita a falta de preparo da Europa para lidar com a nova realidade climática. Um desafio que, segundo os estudiosos, pode ser atenuado com medidas baseadas na ciência. “Já se sabe que esses eventos serão mais frequentes, então os europeus têm de se preparar para isso. Existe tecnologia, planejamento e dinheiro suficiente”, diz Luis Antonio Bittar Venturi, especialista em recursos naturais da USP. Quando os rios míticos sofrem, a civilização precisa reagir.
Publicado em VEJA de 28 de agosto de 2026, edição nº 3010







