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#41 DEUS: Fé sem doutrina

O futuro será marcado por pessoas que buscarão experiências transcendentais sem necessariamente seguir entidades divinas

Por Adriana Dias Lopes 21 set 2018, 07h00
ECLETISMO - As novas formas de se relacionar com o sagrado incluem meditação e movimentos esotéricos Metropolitan Museum/Divulgação

“Para onde vai a Igreja?” Essa era a pergunta que resumia o grande embate da década de 60, que contrapunha bispos progressistas a conservadores. Os católicos haviam recém-saído de uma reviravolta interna, o Concílio Vaticano II (1962-1965), um marco na modernização litúrgica e doutrinal. A assembleia em Roma tinha proposto a participação do bispado nas decisões da Santa Sé, de maneira semelhante ao que acontecia nos primórdios eclesiásticos. Aposentou o latim e permitiu que a missa fosse celebrada no idioma de cada país, tirou a obrigação do uso da batina e abriu espaço para movimentos sociais. “Este não deverá ser um concílio para combater erros, mas para pôr a Igreja em dia”, disse o papa João XXIII, ao inaugurar o evento. Estar em dia para a Igreja era o mesmo que dizer reaproximar-­se do devoto.

Mas não foi bem o que ocorreu no Brasil, o país com a maior concentração de católicos do mundo. O número de fiéis só caiu nas décadas seguintes. Na época do concílio, 91,8% dos brasileiros declaravam-se seguidores da religião. Hoje, eles não chegam a 65%. Em contrapartida, os protestantes ocuparam um espaço fenomenal. Na década de 70 eram 5,2%, e hoje são 22%. A maior conquista aconteceu justamente nos lugares perdidos pelos católicos: as periferias das grandes cidades, as prisões. Foram os protestantes, portanto, que de fato conseguiram se comunicar com o fiel.

A dança demográfica impulsionará um fenômeno que é ainda incipiente mas já começa a crescer: o dos crentes sem religião

Um segundo revés para a maior religião do planeta foi o crescimento dos ateus que aderiram ao “novo ateísmo”, vertente surgida nos anos 2000. Os novos ateus não apenas descreem de Deus, mas também condenam o que consideram os males da crença. “A fé até pode ser benigna no nível pessoal, mas no plano coletivo, quando se trata de governos capazes de fazer guerras ou desenvolver políticas públicas, é um desastre absoluto”, diz o neurocientista Sam Harris, um dos maiores defensores do novo ateísmo e autor de A Morte da Fé (2004).

A eleição do cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio como papa Francisco, o primeiro pontífice latino-americano da história, pode ser uma luz na tentativa católica de segurar a sangria de fiéis, por representar um aceno à simplicidade. Ainda assim, não há milagre no horizonte, e o catolicismo brasileiro dificilmente se manterá como antes nos próximos anos. Se a distribuição das crenças seguir no ritmo nas duas últimas décadas, em 2040 a fatia de protestantes será cerca de 5 pontos porcentuais superior à dos católicos, e os ateus chegarão a um total de 13%. A dança demográfica impulsionará um fenômeno hoje ainda incipiente, mas que começa a dar os primeiros sinais em boa parte do mundo: o dos crentes sem religião. São aqueles que se consideram abertos à questão religiosa, porém não estão vinculados a regras de um credo. “O ateísmo e a fé se revelam como os dois lados de uma mesma moeda”, disse Marco Rizzi, professor de literatura cristã da Universidade Católica do Sagrado Coração, de Milão, ao jornal italiano Corriere della Sera. As novas formas de se relacionar com o sagrado incluem práticas de meditação e os movimentos esotéricos. É como se as pessoas estivessem mais preocupadas em buscar algo que as ultrapasse, que lhes dê um sentido, do que com a ideia da existência ou inexistência de um deus. Deus será possível, mas não necessário.

Publicado em VEJA de 26 de setembro de 2018, edição nº 2601

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