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#37 O COMPARTILHAMENTO: A arte de usar sem ter

O advento da era digital consagrou uma nova experiência social, baseada no princípio da confiança, que vai do trabalho ao turismo

Por João Batista Jr. - 21 Sep 2018, 07h00
TELA VIVA - Releitura da obra ‘Quarto em Arles’ (1889), de Van Gogh, feita pela Airbnb e pelo Instituto de Artes de Chicago em 2016 Art Institute of Chicago/Divulgação

Se a década de 90, depois da explosão da internet e da criação dos navegadores da web, popularizou o e-commerce, com sites como o da Amazon vendendo de tudo, os anos 2010 trouxeram uma nova contribuição para a economia do século XXI: os serviços de compartilhamento on-line. E, como tudo o que se refere à era digital, a novidade, baseada no princípio da confiança, impactou tremendamente o cotidiano. Em lugar da cultura de ostentação patrimonial individualista, tão celebrada pelo capitalismo tradicional, brotou a ideia de usar sem ter, por meio da qual o verbo compartilhar — o escritório, o apartamento, o carro, a bicicleta etc. — é conjugado livre de constrangimentos.

Embora a adesão ao compartilhamento se espraie entre pessoas de diferentes idades, o entusiasmo maior é dos mais jovens — como os representantes da Geração Y, formada por aqueles que nasceram no período que vai dos anos 1980 até meados da década seguinte. Também chamados de millennials, os indivíduos desse grupo têm entre suas principais características a disposição para testar comportamentos e produtos, como se essa postura fosse, digamos assim, uma forma de protesto. Não é de estranhar que tenham embarcado na era do compartilhamento, que, além da despretensão e do despojamento, oferece novas vivências.

“As pessoas hoje são menos apegadas a bens materiais”, disse a VEJA a economista americana April Rinne, que em 2013 movimentou o Fórum Econômico Mundial de Davos ao abordar o tema da economia compartilhada. “Viver uma experiência diferente é fundamental na hora de escolher o trabalho e a próxima viagem.” Não por acaso, um dos sinônimos desses novos tempos é o conceito de coworking, uma inovadora forma de encarar o ambiente de trabalho. Não, o escritório não é mais ocupado só por funcionários de determinada companhia ou área de atuação; aliás, podem participar da coisa inclusive profissionais autônomos. A proposta ajuda na divisão de custos, no estabelecimento de novas parcerias e até na superação do isolamento trazido pelo advento do home office — manter relacionamentos de qualidade é considerado um dos fatores básicos para alcançar uma vida feliz (leia a reportagem sobre felicidade).

Criada em 2010 na cidade de Nova York, a WeWork, empresa de escritórios compartilhados, está avaliada em 20 bilhões de dólares. Na época de seu lançamento, foi vista com ressalvas. Acreditava-se que atrairia, no máximo, startups sem dinheiro. Pregando a cartilha do Vale do Silício, com sofás em salas de reunião, luz amarela para dar sensação de conforto e wi-fi superpotente, a WeWork conquistou locatários de peso — como o Google e o Facebook. “A reserva de nossas salas é feita por um simples aplicativo”, diz Lucas Mendes, diretor da empresa no Brasil, onde uma estação de trabalho custa a partir de 800 reais. A WeWork chegou ao país em 2017. Até o fim deste ano, terá quinze prédios para ser compartilhados, em endereços como a Avenida Paulista, em São Paulo.

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Um ícone da moda do compartilhar propriamente dito é a Airbnb, fundada em 2008 com o objetivo de oferecer hospedagem em residências particulares como alternativa aos hotéis. Ela teve 5 milhões de ofertas de aluguel ao redor do mundo em 2017 — 180 000 no Brasil — e está avaliada em 31 bilhões de dólares. Só aqui, 2,2 milhões de pessoas usaram o serviço no ano passado. “Os primeiros a apostar na nossa plataforma foram os millennials”, atesta Leonardo Tristão, diretor da Airbnb no país.

O publicitário Diego Ferreira e a profissional de hotelaria Luana Zingi, ambos de 33 anos, são exemplo disso. Eles ofereceram o apartamento paulistano onde moram para alugar durante a Copa de 2014. “Hoje recebemos cinco hóspedes por mês”, diz Ferreira. “Não perco a minha intimidade. Na verdade, falo outras línguas e ainda faço amizades”, explica Luana. É a graça de usar sem ter, ou de ter sem possuir.

Publicado em VEJA de 26 de setembro de 2018, edição nº 2601

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