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#31 O ÓDIO: O rancor, o rancor

A quantidade de informações disponíveis na web fez crescer aquilo que funciona como propulsor da ira — a discordância entre as pessoas

Por Paula Soprana - 21 Sep 2018, 07h00
CHARLOTTESVILLE, EUA - O menino vestido com o uniforme da Ku Klux Klan aprende cedo a rechaçar o soldado negro Todd Robertson/Southern Poverty Law Center/.

“É possível controlar a evolução da mente do homem, de modo a torná-lo à prova das psicoses do ódio e da destrutividade?” A pergunta, de Albert Einstein para Sigmund Freud, foi feita por carta em 1932, onze anos após Einstein ter recebido o Prêmio Nobel de Física e dois anos depois de Freud publicar O Mal-Estar na Civilização. O mundo assistia então à ascensão nazista e, para Einstein, a ameaça de guerra era “o mais urgente de todos os problemas”.

A resposta do psicanalista ao físico, também enviada por carta, foi que não, ele não achava que seria possível estancar o ódio (“Não há maneira de eliminar totalmente os impulsos agressivos do homem”, escreveu), mas acreditava na possibilidade de “desviar” esse sentimento, “num grau tal que ele não necessite encontrar expressão na guerra”. Uma das formas de fazer esse desvio, propunha Freud, seria estreitar os vínculos emocionais entre os homens, pela empatia ou pela identificação. “Tudo o que leva os homens a compartilhar de interesses importantes produz essa comunhão de sentimentos, essas identificações. E a estrutura da sociedade humana se baseia nelas, em grande escala.”

Quase um século depois, constata-se com facilidade que é precisamente o contrário da identificação — a discordância — o principal propulsor do ódio contemporâneo, mais gritantemente expresso na internet. Uma vez que a rede alçou a níveis estratosféricos a quantidade de informação disponível sobre todas as coisas, os focos de diferença de opiniões aumentaram — e onde a diferença se funde à incompreensão sobra espaço para o ódio. Ajuda no processo o fato de, no ambiente virtual, o detentor da ira poder agir repetidas vezes, sobre diferentes alvos, e na impunidade do anonimato.

No Brasil, desde a radicalização política que explodiu em 2014, as barbaridades on-line viraram uma doença incurável

A inexistência de uma relação física entre quem odeia e quem é odiado também estimula a ira gratuita e desmedida, explica a socióloga Mariana Valente, diretora do Internet Lab, um think tank sobre tecnologia. “Isso ocorre porque quem emite a agressão ou destila o ódio não compreende o efeito dessas atitudes na vida de quem está do outro lado”, diz ela. Em estudo feito nos Estados Unidos pelo Pew Research Center em 2017, quatro em cada dez americanos afirmam já ter sido alvo de ódio na internet, e sete em cada dez dizem conhecer alguém que passou pela mesma experiência. No Brasil, recentemente, dada a radicalização política que explodiu em 2014 e nunca mais cessou, as barbaridades on-line viraram uma doença incurável e assustadora.

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Estudo realizado pela Universidade de Warwick nas redes sociais alemãs cruzou postagens feitas pelo partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha, o principal difusor da ideia anti-imigração no país, com dados de ocorrências policiais envolvendo agressões contra refugiados. Os pesquisadores concluíram que, a cada quatro postagens críticas aos refugiados, um incidente de agressão era registrado. Como contraponto, nas periferias alemãs, onde o acesso à internet é mais precário e menos constante, a correlação entre as postagens e a violência contra refugiados mostrou-se menos evidente. O estudo sugere, portanto, que o ódio virtual não se encerra no próprio ambiente, podendo transbordar para o mundo real — um problema que Einstein certamente elencaria no seu rol de preocupações urgentes. “É possível controlar isso?”, perguntaria de novo. Desta vez, porém, ainda não há resposta à vista.

 

Publicado em VEJA de 26 de setembro de 2018, edição nº 2601

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