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Guia VEJA de Profissões
VEJA.com recrutou 30 profissionais de destaque de diferentes áreas para ajudar você a resolver um dilema: qual carreira seguir. Eles responderam questões da redação e também dos internautas, com o objetivo de esclarecer como é o dia-a-dia de suas áreas, quais as habilidades requeridas por suas atividades e as perspectivas de mercado para os próximos anos, entre outros temas.
Confira as respostas dos vinte primeiros profissionais, das seguintes carreiras:
As demais serão publicadas nas próximas semanas.
• GUIA DO ESTUDANTE: Confira as instituições onde você pode estudar em todo o país
| Jornalismo |
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Nome / idade: Denis Russo Burgierman, 36 anos
Formação / ano: Escola de Comunicação e Artes da USP (ECA-USP), em 1994
Ocupação atual: Autor do blog Sustentabilidade é pouco em VEJA.com; atua na criação de novos projetos no núcleo jovem da Editora Abril
Destaques da carreira:
- atuou durante uma década na revista Superinteressante, da Editora Abril
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Respostas
1.
Descreva um dia da sua rotina profissional
Trabalho frequentemente por mais de dez horas. Às vezes fico tão
absorvido que nem percebo que já são 21h. Muito do trabalho envolve
o computador: pesquisar na internet, me manter informado, escrever e ler dezenas
e dezenas de e-mails. Gosto quando passo um tempo na rua fazendo reportagem,
entrevistando gente, observando in loco. Mas a verdade é que isso
não acontece com frequência. Os dias cheios e a grande quantidade
de reuniões impedem que eu me afaste por muito tempo. Há muitas
reuniões, e isso é frustrante para mim. Prefiro fazer coisas a
falar sobre elas.

2. Em
que medida você interage com outras pessoas durante o seu trabalho?
Atualmente, tenho trabalhado muito sozinho, porque estou dedicado à
elaboração de novos projetos, que ainda não têm equipe.
Mas, durante a maior parte da minha carreira, trabalhei em grupo repórteres,
editores, designers, fotógrafos , o que torna a rotina muito mais
agitada e empolgante. Mesmo assim, há sempre momentos de solidão
criativa. A hora de escrever é, por definição, solitária.
Gosto dessa variação e, hoje, sinto falta de uma equipe para discutir
ideias e melhorá-las.

3.
Você trabalha nos fins de semanas? Com que frequência?
Já trabalhei muito nos fins de semana, mas estou seriamente empenhado
em abandonar esse hábito. No jornalismo, glorifica-se o sofrimento, o
trabalho excessivo, o stress. Não gosto dessa cultura. Acho importante
ter momentos para o ócio completo inclusive porque sem ele nossas
ideias ficam todas iguais. Ultimamente, apenas trabalho nos finais de semana
em grandes emergências, quando não há outro jeito. Isso
aconteceu apenas uma ou duas vezes em 2009.

4.
Você pode fazer o seu próprio horário de trabalho?
Sim. Ninguém me cobra horários. Também tenho liberdade
para trabalhar em casa, e não no escritório.

5. Assim
que me formo, quais são os caminhos que posso seguir na profissão?
Resposta difícil. A profissão está em transformação
e muitos novos caminhos poderão se abrir num futuro próximo. Mas,
hoje, com as redações reduzidas, o mais provável é
que o recém-formado comece atuando como free-lancer, fazendo matérias
para alguma publicação. Com o tempo, esses free-lances vão
abrindo oportunidades para coisas mais estáveis. É bom lembrar
que esses trabalhos são bastante mal pagos no Brasil hoje. As grandes
empresas jornalísticas, como a Abril, a Folha e o Estadão, organizam
também cursos para recém-formados, nos quais treinam e contratam
gente nova. Mas a maioria não é imediatamente absorvida.

6. Ao
entrar no mercado de trabalho, é melhor experimentar várias empresas
de início ou já se estabelecer em um único emprego?
Depende demais do seu temperamento. A vida de free-lancer, trabalhando para
várias publicações diferentes, é muito rica e ajuda
demais a acumular experiência e conhecer o mercado. Por outro lado, gente
que gosta de estabilidade pode se incomodar com as incertezas envolvidas. Esses,
provavelmente, vão preferir uma oportunidade dentro de uma redação
importante, onde se convive com profissionais experientes e se aprende muito.
Eu comecei como free-lancer e não me arrependo.

7. É
necessário se atualizar de forma permanente na sua profissão?
Sem dúvida. Se você não se atualiza, fica difícil
acompanhar as demandas do mercado. Há que se fazer isso de maneira constante,
não apenas com cursos. Um jeito, por exemplo, é ler constantemente
publicações estrangeiras, que geralmente operam num ambiente onde
se exige mais qualidade do que no Brasil. Eu, que trabalho com revistas, leio
revistas americanas e inglesas em mais quantidade do que brasileiras
e leio constantemente. Há sim muitos cursos de curta duração,
muitas vezes gratuitos, com bolsa, para quem se dispõe a pesquisar e
fica atento a oportunidades. Há também programas de mais longa
duração, como a Knight Fellowship, da qual participei no ano passado,
que me possibilitou passar um ano na Universidade Stanford me atualizando (essa
é uma oportunidade para o meio da carreira). Atualmente, com a crise
mundial do jornalismo, as oportunidades em universidades estão se multiplicando,
até como forma de intensificar a busca por soluções.

8.
O que mais o decepcionou no exercício da profissão?
O mercado é muito concentrado na mão de poucas empresas, o
que gera uma atmosfera de pouca competição, pouca atenção
à qualidade, pouco investimento, pouca inovação.

9. E
o que mais o agradou/surpreendeu de forma positiva?
É possível propor novos modos de trabalho. Há espaço
para ousadia. É uma área bastante aberta, bastante criativa. E
há muito para ser feito. Ser jornalista no Brasil é especialmente
empolgante porque os abundantes defeitos do país significam que há
também abundantes oportunidades de intervenção.

10. É
possível trabalhar como autônomo ou empresário na sua profissão,
ou a tendência é continuar sempre como empregado?
Cada vez é mais possível. Antes havia redações
enormes e poucos profissionais. Todo mundo era assalariado. Hoje as redações
diminuíram muito e há muitos profissionais no mercado. Resultado:
há milhares de free-lancers. Empresários são mais raros
(a não ser no mundo da assessoria de imprensa, que não é
bem jornalismo, é o outro lado do balcão), mas isso vai mudar
rápido com as novas tecnologias e suas possibilidades.

11. Na
sua opinião, qual é o perfil ideal para um profissional dessa
área?
Curiosidade, espírito crítico, capacidade de articular ideias
com clareza. Isso é o básico. Humildade é uma característica
rara e muito valiosa na profissão só os humildes não
têm vergonha de fazer as perguntas certas. Os arrogantes, que são
maioria, acham que sabem tudo e não perguntam.

12. Qual
é a perspectiva para esse mercado daqui a 5 ou 10 anos?
Quem souber a resposta, por favor, me avise. O mercado está se transformando
de um jeito quase apocalíptico. Nos EUA, publicações centenárias
estão fechando as portas e há muita gente em pânico. No
Brasil, a coisa está melhor, até porque nosso mercado ainda é
muito pequeno: temos poucos leitores e baixos níveis educacionais. Com
o aumento dessas taxas, novas oportunidades surgirão. Mas acho essencial
para um jornalista do futuro saber trabalhar num cenário de incerteza.
Basicamente não sabemos como a profissão será no futuro.
Tenho alguns palpites: será mais democrática (todo mundo será
um pouco jornalista), mais variada (haverá publicações
com os mais diversos tons de voz, em vez da comunicação de massa
de hoje), mais tecnológica, mais experimental. Profissionais empreendedores
terão mais espaço do que têm hoje.

13.
Qual é o maior desafio para o exercício da sua profissão?
A ordem antiga está se desmanchando e ainda não surgiu uma
nova. São tempos de ansiedade, de falta de referência. Há
dez anos, jornalistas se miravam nos mais experientes, aprendiam com eles. Hoje,
os mais experientes sumiram do mercado, afugentados por salários baixos
e o ritmo duro. Os jovens não têm no que se mirar. Eles sabem que
precisam experimentar, inovar, mas lhes falta clareza do caminho certo a seguir.
São tempos complicados. Mas isso tem um lado bastante empolgante.

14.
Qual habilidade é a mais útil e necessária para o exercício
da profissão?
Acho que é a habilidade de fazer perguntas. Gente que acha que sabe
tudo costuma ser péssimo jornalista, porque não tem a humildade
necessária para perguntar. Jornalista tem que se interessar pelos outros.
Tem que gostar de ouvir.

15.
Quanto tempo leva até você conseguir alcançar certa "estabilidade"
na sua carreira?
Outra pergunta difícil. Profissionais ambiciosos tendem a jamais
ficarem satisfeitos. Teoricamente, já atingi a tal "estabilidade": ganho
bem, fiz coisas recompensadoras, tenho um trabalho reconhecido. Mas a cada progresso
que se alcança, criam-se metas novas. O lado ruim disso é que
nunca estamos satisfeitos. O lado bom é que continuamos realizando coisas
relevantes, não nos acomodamos.

16.
O que você achou do fim da obrigatoriedade do diploma para o jornalista?
Uma boa notícia. Agora talvez o jornalismo se enriqueça com
a entrada de gente com formações diferentes. E uma imprensa pujante
precisa mesmo de diversidade. Era empobrecedor que toda a informação
do Brasil estivesse sob o monopólio de um grupo que tem sempre a mesma
formação.

17. Você
acha que fazer uma faculdade de jornalismo ainda será necessária?
Não acho que seja necessário, mas pode ser interessante. Minha
teoria é que vão começar a surgir cursos de especialização
em jornalismo. Isso permitirá que uma pessoa possa estudar outra coisa
direito, engenharia, medicina, economia e, depois, se especializar
em jornalismo. Gosto muito dessa combinação. Mas o fato é
que esses cursos ainda não existem e, enquanto eles não existirem,
o caminho mais direto para se tornar jornalista ainda é estudando jornalismo.
Espero que isso mude logo (e acho que mudará).

18. Como
posso saber se é jornalismo mesmo o que quero? O que o levou a optar
pelo jornalismo? Vilma, 17 anos
Eu escolhi jornalismo porque adoro escrever, gosto de ouvir e contar histórias,
tenho a habilidade de me expressar com clareza. E também porque queria
uma profissão na qual eu pudesse ter um impacto no mundo. Como saber
se é isso que você quer? Desculpe, mas é só você
que pode ter essa resposta. É uma profissão dura, intensa, cruel
com a maioria dos profissionais. Mas também cheia de recompensas, de
momentos em que tudo vale a pena. Eu gosto. Não gosto de todos os dias,
mas gosto bem do conjunto da obra.
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