Crônica
Walcyr Carrasco






 
 

A minha São Paulo de 2005

Desde que Caetano cantou o cruzamento das avenidas São João e Ipiranga, São Paulo ganhou milhares de novas esquinas animadíssimas. Fala-se muito em reviver o centro. Nada melhor. Mas a cidade não tem mais aquele estilo provinciano, onde tudo acontece em um só lugar. Há espaços para todas as tribos. Fico doido quando resolvo ir a um lugar diferente. Tal o número de opções. Pior: boa parte vive cheia. Outro dia foi inaugurado um restaurante português, nos Jardins. Cheguei em um sábado às 4 da tarde.

– A espera é de cerca de uma hora!

Acho terrível ficar na fila, de olhos cravados nos felizardos às mesas, torcendo para que peçam o cafezinho. Desisti. Paulistano adora novidade. Quando um endereço entra em moda, lota. Às vezes decai rapidamente. Tantos lugares são abertos e fechados que não consigo ficar em dia. Mas os pontos são revendidos. Às vezes entro em um antigo restaurante francês e me servem um contrafilé argentino, por exemplo. Nunca imaginei, porém, que a cidade fosse se tornar um centro de gastronomia... japonesa! Há sushi em cada esquina!

Cariocas costumam torcer o nariz, dizendo que aqui não tem praia. Quem precisa? Badalação não falta. A Vila Madalena é agitada. Os Jardins são agitados. No Tatuapé, em Higienópolis, na Lapa, sempre surge um point, uma pracinha, uma esquina que ferve! Alguém diria há anos que a maior passeata gay do mundo seria aqui? Quando eu morava no centro, terminava em frente a meu prédio. Via as famílias em peso, assistindo, felizes. Soube até de um casal hétero que se apaixonou em plena agitação do arco-íris!

Tudo vira objeto de consumo, até cultura e informação! A cidade tornou-se um centro de moda internacional! A São Paulo Fashion Week virou programa. As pessoas saem aos tapas para conseguir convites. Não existe lugar no mundo – gostem ou não – comparável à Daslu. Para o paulistano, é fácil aprender a ser chique. Não que eu tenha me tornado, mas é fruto de pura preguiça. Cursos de iniciação ao agradável consumo de vinhos são dados pelas importadoras. Feiras culinárias revelam tudo do bom e do melhor. Vendedores de shoppings e dasluzetes explicam o que combina com quê. Mostras como a Casa Cor, mais tarde realizada em outros estados, dão dicas de decoração. Exposições provocam filas. Megalivrarias oferecem de tudo, de DVDs a eletrônicos e, inclusive, livros! Musicais como O Fantasma da Ópera trazem a Broadway para cá. Peças de teatro entram no gosto do público e lotam por alguns anos! Até filosofia virou artigo de consumo, na Casa do Saber!

Há um problema. Tudo custa. Em cidades praianas basta caminhar na areia e tomar uma água-de-coco para encontrar os amigos. Aqui não. Se vou a um lugar, tenho de sentar e botar a mão no bolso. De graça, só correr no Parque do Ibirapuera! Ou andar na rua, que também é uma delícia, apesar de um certo sobressalto com trombadinhas, seqüestros-relâmpago e outras histórias desagradáveis. A gente vê todo tipo de gente: moças esqueléticas aspirantes a modelo, rapazes com dragões tatuados, judeus ortodoxos com quipás, executivos com ar de yuppies da década de 70, peruas loiríssimas.

Adoro ficar em casa. Muitas vezes me perguntam por que não vivo no interior. Posso parecer maluco, mas gosto de saber que tenho o que fazer, caso prefira. Aqui a calma é uma escolha, não uma cruz! É o que mais me encanta. São Paulo é mutante, nasce e renasce a cada dia! É, enfim, uma cidade viva!

Escritor, autor teatral, jornalista e novelista, WALCYR CARRASCO
é cronista de Veja São Paulo desde abril de 1992. Com texto
leve e bem-humorado, é um craque em retratar o cotidiano da cidade

 
 
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