São Paulo em 20 rostos






 
 

Como os vidros dos prédios de escritórios ficam sempre brilhando? Quem é que cuida dos objetos esquecidos no metrô? E como trabalha o policial responsável por fazer retratos falados? A seguir, pequenos perfis de profissionais que dão o sangue, emprestam seu charme e contribuem, cada um à sua maneira, para manter as engrenagens da metrópole funcionando noite e dia. São vinte rostos que representam os quase 11 milhões de habitantes da cidade.

PROFISSÃO: HOMEM-ARANHAO LARGO DA BELEZA
MANOBRISTA CLASSE A NO OLHO DO FURACÃO
MÉDICA COM O CORAÇÃO RETRATO DE UM SEM-RUMO
A "GUARDIÃ" DO METRÔ A RECEPCIONISTA DE MOTEL
ALÔ, É DA POLÍCIA? NA CADEIA, COMO CENSORA
ARTE CONTRA O CRIME PODE DEIXAR, EU CARREGO
A VOZ DA PAMONHA A XERIFE DA LOTUS
O AFINADOR DE PIANOS EMPACOTADOR DE LUXOS
TATUAGENS PARA TODOS O MAESTRO DO FASANO
100 MÃOS POR SEMANA 1 SANDUÍCHE = 10 SEGUNDOS

 

PROFISSÃO: HOMEM-ARANHA

Renata Ursaia

O saco plástico em que João Alves Ferreira guarda suas ferramentas – balde, rodo, pano, detergente e luva – leva a inscrição "homem-aranha". É como costuma ser chamado pelos colegas de empresa, a Asa Limp. Há dez anos Ferreira vive nas alturas, limpando vidros de edifícios comerciais. O mais alto é o Memorial Office Building, na Barra Funda, com 113 metros. Ele amarra a corda numa haste da cobertura, instala uma cadeirinha de ferro e se prende com mosquetões iguais aos de rapel. No caminho de três horas até o chão, ganha de quem trabalha dentro do prédio café, bolacha, aplausos e bilhetes com elogios ("corajoso!!!"). Aos 34 anos, ele integra o contingente de 1 500 homens-aranha paulistanos, com salário médio de 1 000 reais. "Nas primeiras vezes, desci na maior ansiedade", conta. "Mas não desisti porque iriam me chamar de mole." LÚCIA MONTEIRO

 

MANOBRISTA CLASSE A

Fotos Mario Rodrigues


Ferrari, Porsche, BMW e Jaguar nem provocam mais suspiros no paraibano Ivanildo Rodrigues, conhecido por Bigode. Acostumado a dirigir supermáquinas, daquelas que fazem os homens babar, o manobrista do badalado A Figueira Rubaiyat, nos Jardins, já se sentou ao volante de carrões de celebridades, como Pelé, Hebe Camargo e Faustão. Depois de quatro anos no restaurante, age com naturalidade ao manobrar modelos que custam mais de 300 vezes o seu salário de 500 reais – reforçado por caixinhas de até 500 reais por mês. "No começo, confesso, a perna tremia." Ele pilota mais de oitenta carros por dia, sem (ele jura!) desregular bancos ou retrovisores. "Quando o cliente é muito alto, dirijo de lado, com um cotovelo apoiado no encosto do banco para alcançar os pedais." Nos fins de semana, Rodrigues sai com a família em seu Uno 94. Faz questão de parar no manobrista e dar caixinha. "É para valorizar a profissão", diz. FABIO WRIGHT

 

MÉDICA COM O CORAÇÃO

"Um deserto na alma, um rio de água gelada nas veias." Repetida nos cursos de medicina, essa frase nunca foi seguida à risca pela cardiologista Jaqueline Scholz Issa, de 40 anos. Das 16521 médicas da cidade, ela está entre as 150 que trabalham no prestigiado Instituto do Coração (Incor). Lá, coordena o Ambulatório de Tratamento contra o Fumo e chefia a unidade para pacientes conveniados. Duas tardes por semana, porém, abandona suas funções burocráticas para colocar em prática a medicina em que realmente acredita. Tira o jaleco de diretora e vai tratar de pacientes carentes na fila do Sistema Único de Saúde. Referência na área de antitabagismo, atende diabéticos e hipertensos com alto risco de infarto. E, claro, tenta convencê-los a largar o vício. "Se descubro que alguém voltou a fumar, brigo e nem consigo olhar na cara", conta. "Fico triste de verdade." RODRIGO BRANCATELLI

 

A "GUARDIÃ" DO METRÔ

 

Sueli Tarifa tinha 7 anos quando encontrou uma carteira cheia de documentos. Com a ajuda do pai, entregou-a ao dono. Passou, então, a desfilar orgulhosa pelas ruas do Ipiranga, bairro onde morava. "Eu me julguei importante por ajudar alguém." Mais de quatro décadas depois, ela revive a mesma euforia a cada objeto que devolve na Central de Achados e Perdidos do Metrô, na Estação Sé. Atendente do departamento há três anos, ela já viu de tudo. Os celulares são os mais esquecidos: vinte por mês. Também se perdem guarda-chuvas, óculos, bolsas, bicicletas e até vestidos de noiva. Como que por milagre, muletas, próteses e cadeiras de rodas chegam aos montes. Feliz da vida por reencontrar a dentadura, um senhor voltou logo depois dizendo que, ao colocá-la na boca, descobriu que não era a sua. Sueli não se entedia no trabalho: "É parte da função xeretar tudo. Adoro descobrir a história escondida em cada objeto." MÔNICA SANTOS

 

ALÔ, É DA POLÍCIA?

 

Ela entra cedo no trabalho. Às 5h30 da manhã. Mas precisa acordar duas horas antes? Claro que sim. Soldada da Polícia Militar, Marly Mônica Juzenas se levanta às 3h30 para passar a farda, realçar os olhos com sombra azul e pendurar brincos cintilantes. Antes de sair de casa, ajeita os cabelos para trás, num coque. Mas pouca gente nota a vaidade de Marly. Ela e outras 100 pessoas da corporação são responsáveis por atender às chamadas do 190. Recebem 35 000 ligações por dia. Desse total, apenas 10% se referem a denúncias ou casos de emergência. O resto é reclamação contra serviços do governo ou trotes. Já houve até pedidos de socorro por causa de uma invasão de baratas. Há cinco anos, Marly viveu o momento mais emocionante de sua carreira. "Era Dia das Mães e uma mulher ligou desesperada dizendo que a filha havia morrido", lembra. Por telefone, Marly ensinou-lhe a fazer respiração boca a boca e massagem cardíaca. A garota sobreviveu. RODRIGO BRANCATELLI

 

ARTE CONTRA O CRIME


– Meu Deus! É a cara dele!

Frases como essa, seguidas de crises de choro, fazem parte do dia-a-dia do perito Sidney Barbosa, de 34 anos. Coordenador da equipe de desenhistas da Polícia Civil de São Paulo, ele já atendeu mais de 15 000 vítimas ou testemunhas de crimes. Sua tarefa: fazer retratos falados de criminosos. Para isso, passa para o papel descrições vagas como "o rosto dele era redondo com o queixo quadrado" ou "nariz fino e bochechas rosadas". Lápis e borracha foram aposentados. Suas armas são um computador e um arquivo com 300 formatos de rostos, 3 000 tipos de cabelo, 2 000 pares de olhos e 3 000 narizes. Uma das maiores vitórias foi a identificação do ex-motoboy Francisco de Assis Pereira, o maníaco do parque. "Consigo os melhores resultados quando converso com as vítimas e deixo-as confortáveis para reviver os momentos de terror", afirma. Aos 15 anos, Barbosa teve um câncer ósseo que resultou na amputação de parte da perna esquerda. Durante os três anos que passou no hospital, desenhava médicos, enfermeiros e pacientes. Ao fim do tratamento, conquistou um emprego na polícia. ALESSANDRO DUARTE

 

A VOZ DA PAMONHA

Renata Ursaia

Não é exagero dizer que ele é uma das vozes mais conhecidas (e odiadas) da cidade. Aparece estridente nas centenas de caminhões que vendem pamonhas (que não são de Piracicaba), morangos (que não são de Atibaia), ovos, desinfetantes, sorvetes... Quem nunca acordou no sábado com aquela indefectível frase: "O caminhão da pamonha chegooooooou. Pamonha fresquinha, pamonha cremosa. É o puro creme do milho"? Locutor profissional, José Roberto Avelar ganha a vida há mais de trinta anos gravando fitas e CDs. Vende cerca de vinte por mês, negociados a 60 reais cada um – cópias piratas são encontradas por 10 reais no Ceasa. Ao longo desses anos, montou uma frota com doze carros de som, que aluga para os mais variados fins. A maior frustração de Avelar foi não ter tido um filho homem com um vozeirão para continuar o negócio. "É muito rentável. Já viajei dezesseis vezes para a Disney com o dinheiro da pamonha, pamonha, pamonha!", brinca ele, o inimigo número 1 dos já castigados ouvidos dos paulistanos. ALECSANDRA ZAPPAROLI

 

O AFINADOR DE PIANOS

Fotos Mario Rodrigues


É de emocionar a platéia a precisão da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). Uma das pessoas que cuidam para que as notas da orquestra não saiam do tom é o paulistano José Luiz da Silva. São suas mãos que dão afinação e polimento aos pianos da Sala São Paulo. Ex-aluno do maestro John Neschling na década de 80, no curso de composição e regência da Unesp, Silva dedica-se há sete anos ao trabalho de afinar, corda por corda, dois Steinway & Sons, avaliados em cerca de 120 000 dólares cada um. Silva conhece muito bem música, mas não toca nada além do que precisa para ajustar o piano, nas coxias. Tilinta nas mãos um simplório diapasão, espécie de forqueta metálica indispensável para regular a altura das notas. Cada afinação demora aproximadamente uma hora e pode custar até 450 reais. "Partituras de autores russos, como Prokofiev e Rachmaninov, exigem um vigor maior do intérprete, o que me dá trabalho extra", explica. Em casa, Silva reveza no toca-discos A Sagração da Primavera, de Stravinsky, com o rock do Red Hot Chili Peppers. "Tenho três filhos adolescentes, preciso ficar atualizado." RICARDO MORENO

 

TATUAGENS PARA TODOS

Um dos mais tradicionais tatuadores da cidade, Elcio Sespede, o Polaco, está desde 1983 na Rua 24 de Maio, próximo à efervescência das tribos de roqueiros das Grandes Galerias. Nos primeiros dez anos de trabalho, guardou os decalques das 5 000 tatuagens que fez. Depois desistiu de contar. As mais inusitadas ficaram marcadas na memória. Como quando um punk pediu que ele tatuasse um ovo frito na cabeça. "No início as tattoos eram associadas a grupos marginalizados, marinheiros e presidiários", diz Polaco. "Hoje as coisas mudaram. Atendo adolescentes, profissionais de meia-idade e até idosos." Em tempos de casamentos-relâmpago, o hit do estúdio de Polaco são, por ironia do destino, iniciais ou nomes de namorados. "Não conheço nenhum caso em que o relacionamento tenha durado. É de mau agouro." CAIO QUERO

 

100 MÃOS POR SEMANA

Claudia Raia escolheu chumbo. A primeira-dama Marisa Letícia preferiu ameixa. Mais básicas, Luiza Brunet e Costanza Pascolato usam branco ou rosinha. Manicure do Studio W do Shopping Pátio Higienópolis há cinco anos, Márcia Cristina Lara arquiva na memória as unhas dessas e de outras clientes famosas. Entre as cinqüenta que atende por semana, a coqueluche do momento é a marca americana OPI, que chega a São Paulo a mais de 20 reais o vidrinho. Márcia, 30 anos, aprendeu o ofício ainda adolescente, num curso. Depois de alguns anos como recepcionista e auxiliar administrativa, apaixonou-se de vez pelo mundo dos esmaltes e foi trabalhar em pequenos salões. Ambiciosa, leu uma reportagem sobre o Studio W e começou a cultivar o sonho de ir para lá. Recebe quase 2 000 reais por mês para lixar, tirar a cutícula, pintar e ouvir as histórias da freguesia. "Manicure é meio terapeuta", acredita. "A maioria das mulheres se queixa dos filhos e do marido." MIGUEL BARBIERI JR.

 

 
 
  copyright © Editora Abril S.A. - todos os direitos reservados