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31 de agosto de 2005
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Platéia de acidente

Walcyr Carrasco

Estou na Rodovia Raposo Tavares, em direção à Granja Viana. O trânsito inteiramente parado. Demoro horas para andar alguns metros. Imagino:

– Deve ser conserto na estrada.

Coisa nenhuma. Quando finalmente chego ao nó, encontro uma ambulância e dois carros parados no acostamento. Um policial de trânsito agita os braços, para as pessoas recuperarem a velocidade. Inútil. Todo mundo dá uma paradinha. Observa. Fico pensando: por que essa compulsão em olhar acidentes? Já seria tétrico ver, como já me aconteceu, alguém caído no asfalto. O que se ganharia testemunhando essa cena outra vez, a não ser tristeza pela tragédia alheia? Entretanto, muitas vezes o trânsito pára porque as pessoas querem ver alguma coisa, qualquer que seja. Até a ambulância fechada.

Freqüentemente, na Avenida 23 de Maio, tudo congestiona. Se estou indo para o aeroporto, de táxi, o motorista comenta com ar sábio:

– Aconteceu alguma coisa.

– Ééééé... – respondo.

Continuamos a passo de tartaruga. Lá pelas tantas, avistamos dois carros parados na pista. Uma leve batida. Suficiente para todos os outros espicharem o pescoço.

– Bateu atrás – diz o motorista.

– Éééé... – repito.

Para mim é um mistério. Qual o prazer de olhar dois carros parados, que supostamente deram uma leve batidinha nos pára-choques?

Até pneu furado tem platéia. Basta alguém parar no acostamento e iniciar a troca. Surge o engarrafamento. Se estou acompanhado, ouço o comentário, inevitável:

– Que lugar para furar um pneu, hein?

– Éééééé...

Certa vez, eu estava fazendo uma viagem de van pelo interior de São Paulo. Uma longa fila se formou. Havia um caminhão virado, caído na descida ao lado da estrada. Os condutores agiam como se estivessem diante de um show. Estacionavam, atrapalhando o socorro. A polícia rodoviária mandava todos seguirem. Poucos obedeciam. O motorista da van conseguiu perguntar:

– O que houve?

– O caminhão virou – respondeu o policial. – Mas não aconteceu nada com o caminhoneiro.

Suspiramos aliviados. A van deu uma guinada para o acostamento.

– Que vai fazer? – perguntei.

– Parar.

– Não vai, não. Continue.

De mau humor, ele engrenou a marcha e acelerou. Encarou-me, como se eu fosse o maior dos estraga-prazeres.

Agora, se é coisa séria, alguém pára? Quem já passou pela experiência de o motor falhar, ou algo assim, sabe o que estou dizendo. Fica-se encalhado na pista, enquanto todos os outros motoristas cortam, aceleram, xingam, sem tentar ajudar. O problema do veículo pode ser pequeno. Levá-lo até o acostamento para pedir socorro é quase impossível.

Na mesma Raposo Tavares, tempos atrás, encontrei um carro parado na faixa do meio. Dentro, havia um homem caído sobre o volante. Quem via acelerava. Até hoje não sei qual foi o problema do sujeito. Suponho ter corrido mais risco de morte com a pressa dos outros motoristas do que com o desmaio propriamente dito. Era impossível parar. Lembrei-me de um posto rodoviário, logo adiante. Acelerei até lá. Desci e comuniquei o fato aos policiais. Mandaram uma viatura tratar do socorro. Gentilmente, me agradeceram. Perguntei, curioso:

– Alguém já dera o alarme?

– Não, ninguém.

Ou seja: centenas de carros haviam passado pelo homem caído. Nenhum se dera ao trabalho de avisar a polícia rodoviária. Mesmo havendo um posto pouco menos de 1 quilômetro depois!

Fico pensando. Ser curioso é uma qualidade do ser humano. Mas, sem querer criar uma rima, e talvez apontando uma solução, quem sabe a mera curiosidade pudesse ser substituída por uma forte solidariedade.

 

e-mail: walcyr@abril.com.br

 

     
   
 
 
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