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CRÔNICA Platéia
de acidente Walcyr Carrasco Estou
na Rodovia Raposo Tavares, em direção à Granja Viana. O trânsito
inteiramente parado. Demoro horas para andar alguns metros. Imagino:
Deve ser conserto na estrada.
Coisa nenhuma. Quando finalmente chego ao nó, encontro uma ambulância
e dois carros parados no acostamento. Um policial de trânsito agita os braços,
para as pessoas recuperarem a velocidade. Inútil. Todo mundo dá
uma paradinha. Observa. Fico pensando: por que essa compulsão em olhar
acidentes? Já seria tétrico ver, como já me aconteceu, alguém
caído no asfalto. O que se ganharia testemunhando essa cena outra vez,
a não ser tristeza pela tragédia alheia? Entretanto, muitas vezes
o trânsito pára porque as pessoas querem ver alguma coisa, qualquer
que seja. Até a ambulância fechada.
Freqüentemente, na Avenida 23 de Maio, tudo congestiona. Se estou indo para
o aeroporto, de táxi, o motorista comenta com ar sábio:
Aconteceu alguma coisa.
Ééééé...
respondo. Continuamos a passo de
tartaruga. Lá pelas tantas, avistamos dois carros parados na pista. Uma
leve batida. Suficiente para todos os outros espicharem o pescoço.
Bateu atrás diz o motorista.
Éééé...
repito. Para mim é
um mistério. Qual o prazer de olhar dois carros parados, que supostamente
deram uma leve batidinha nos pára-choques?
Até pneu furado tem platéia. Basta alguém parar no acostamento
e iniciar a troca. Surge o engarrafamento. Se estou acompanhado, ouço o
comentário, inevitável:
Que lugar para furar um pneu, hein?
Éééééé...
Certa vez, eu estava fazendo uma viagem de van pelo interior de São Paulo.
Uma longa fila se formou. Havia um caminhão virado, caído na descida
ao lado da estrada. Os condutores agiam como se estivessem diante de um show.
Estacionavam, atrapalhando o socorro. A polícia rodoviária mandava
todos seguirem. Poucos obedeciam. O motorista da van conseguiu perguntar:
O que houve?
O caminhão virou respondeu o policial.
Mas não aconteceu nada com o caminhoneiro.
Suspiramos aliviados. A van deu uma guinada para o acostamento.
Que vai fazer? perguntei.
Parar.
Não vai, não. Continue.
De mau humor, ele engrenou a marcha e acelerou. Encarou-me, como se eu fosse o
maior dos estraga-prazeres. Agora,
se é coisa séria, alguém pára? Quem já passou
pela experiência de o motor falhar, ou algo assim, sabe o que estou dizendo.
Fica-se encalhado na pista, enquanto todos os outros motoristas cortam, aceleram,
xingam, sem tentar ajudar. O problema do veículo pode ser pequeno. Levá-lo
até o acostamento para pedir socorro é quase impossível.
Na mesma Raposo Tavares, tempos atrás,
encontrei um carro parado na faixa do meio. Dentro, havia um homem caído
sobre o volante. Quem via acelerava. Até hoje não sei qual foi o
problema do sujeito. Suponho ter corrido mais risco de morte com a pressa dos
outros motoristas do que com o desmaio propriamente dito. Era impossível
parar. Lembrei-me de um posto rodoviário, logo adiante. Acelerei até
lá. Desci e comuniquei o fato aos policiais. Mandaram uma viatura tratar
do socorro. Gentilmente, me agradeceram. Perguntei, curioso:
Alguém já dera o alarme?
Não, ninguém.
Ou seja: centenas de carros haviam passado pelo homem caído. Nenhum se
dera ao trabalho de avisar a polícia rodoviária. Mesmo havendo um
posto pouco menos de 1 quilômetro depois!
Fico pensando. Ser curioso é uma qualidade do ser humano. Mas, sem querer
criar uma rima, e talvez apontando uma solução, quem sabe a mera
curiosidade pudesse ser substituída por uma forte solidariedade.
e-mail: walcyr@abril.com.br
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